Ana Paula Campos

15/09/2021
 
Narciso acha feio o que não é espelho
 
Faz alguns anos, eu ministrava aula para uma universidade particular no interior do RN e, como sempre procurei cumprir minhas funções da melhor forma, consequentemente caia nas graças das coordenadoras regionais. Um dia, encontrei-me com a turma na sede da universidade da cidade em questão, para de lá irmos a uma aula de campo. Na ocasião, uma das coordenadoras, completamente confusa, questionou-me: “mas você tem tatuagem? E agora, o que eu faço? Porque agora eu já gosto de você!”. Respondi o obvio, disse que meu caráter não muda por causa das tatuagens, mas nossa relação nunca mais foi a mesma. 
 
Peguei-me lembrando disso esses dias porque recentemente aconteceram episódios semelhantes, mas dessa vez relacionados à racismo religioso. Em uma das escolas que eu frequento, há funcionárias/os que me conhecem há anos. Sempre foram muito amáveis comigo...até agora. Umas delas, evangélica, desde que me viu chegar com contas de Candomblé e Jurema no pescoço, passou a me observar com um olhar julgador. Ela já não me abraça e não fala comigo como antes, e tenho certeza que isso se deve ao fato da visão que ela carrega sobre nós, povo de terreiro. 
 
O outro caso aconteceu quando decidi comprar um móvel para o quarto da minha filha. Fechamos a compra e acertamos de o rapaz fazer a entrega. Quando ele chegou, acompanhado do ajudante, passaram pelo meu assentamento de Jurema, que se encontra na minha varanda. Os dois estavam pálidos, mas eu estava tão empolgada que nem pensei no fator motivador. O ajudante, após colocar as peças para dentro, saiu calado e não voltou mais. O montador, ao chamar por ele e perceber a sua ausência, acelerou a montagem do móvel, fechando a caixa de ferramentas com tapas. Ele estava visivelmente nervoso. 
 
Depois que ele saiu, fiquei um tempo pensando sobre tudo isso e comentei com meu esposo: “você percebeu que esses caras estavam com medo da gente?” Como ficou faltando um acabamento, combinei de voltar na loja no dia seguinte para pegar. Chegando lá, deparei-me com uma bíblia enorme aberta bem na frente da loja e fui saudada com um “o sangue de Cristo tem poder!” Peguei o que faltava e fui embora. Sim, a militância cansa e nem todo dia estou a fim de bater na cara dos racistas (brincadeira...ou não.)
 
Em ambos os casos já tive vontade de encarar as pessoas e perguntar: “sério que você está com medo de mim? Tenha não! Eu sou candomblecista e juremeira, não cristã. Não fomos nós que historicamente saímos pelos continentes invadindo, saqueando, roubando, escravizando, estuprando e matando em nome do deus cristão e sob as autorizações do Papa Nicolau V, em 8 de janeiro de 1455, como descrito em documento”. 
 
“(…) nós lhe concedemos, por estes presentes documentos, com nossa autoridade apostólica, plena e livre permissão de invadir, buscar, capturar e subjugar os sarracenos e pagãos e quaisquer outros incrédulos e inimigos de Cristo, onde quer que estejam, como também seus reinos, ducados, condados, principados e outras propriedades (…) e reduzir suas pessoas à perpétua escravidão, e apropriar e converter em seu uso e proveito e de seus sucessores, os reis de Portugal, em perpétuo, os supramencionados reinos, ducados, condados, principados e outras propriedades, possessões e bens semelhantes (…)”.  
 
Querides, não fomos nós que elaboramos o Concílio de Frankfurt, em 794, convocado por Carlos Magno, determinando a perseguição de supostas bruxas, chamando a crença na bruxaria ‘supersticiosa’ e ordenando a pena de morte para aqueles que presumiam queimar as bruxas. Legitimados pela ‘palavra do Senhor’, usam o livro delas/es como justificativa para a barbárie, como se vê adiante, quando a bíblia hebraica condena a feitiçaria:
 
Deuteronômio 18:10-12 declara: “Entre ti não se achará quem faça passar pelo fogo a seu filho ou a sua filha, nem adivinhador, nem prognosticador, nem agoureiro, nem feiticeiro; Nem encantador, nem quem consulte a um espírito adivinhador, nem mágico, nem quem consulte os mortos; pois todo aquele que faz tal coisa é abominação ao Senhor; e por estas abominações o Senhor teu Deus os lança fora de diante de ti”. E Êxodos 22:18 prescreve: “a Feiticeira não deixarás viver”. Contos como o de 1 Samuel 28, relata como Saul “cortou os que têm espíritos familiares e os magos da terra”.
 
Não fomos nós, catimbozeires, que invadimos e destruímos templos religiosos de matriz africana, como visto nos dados da pesquisa do Babalorixá Sidney Nogueira, em seu livro “Intolerância Religiosa”, da Coleção Feminismos Plurais. Os dados nacionais do Disque 100, de 2019, evidenciam que as religiões mais perseguidas no Brasil são as de matriz africana. Segundo o babá, “pelo menos 90% das denúncias sem religião informada referem-se a religiões estigmatizadas, ou seja, às religiões de matriz africana (CTTro), o que colocaria as tradições de africanas no Brasil entre 80% e 90% das denúncias, pelo menos 400 seriam referentes às perseguições contra as CTTro”.
 
Eu poderia falar de João de Deus, de Flor de Lis e das igrejas evangélicas que ajudaram a eleger o pior e maior genocida da História do Brasil, mas acredito que o recado foi dado. Numa crônica posterior, vou lembrar dos feitos de Mãe Menininha do Gantois e convidar a todes a pensar juntes: a quem realmente devemos temer?