Bia Crispim

17/09/2021
 
E eu vou escrever sobre o quê?
 
Alguém pode se perguntar: Como assim? Não ter sobre o que escrever?
 
Muitas vezes, para quem escreve com frequência, a cabeça está tão abarrotada de ideias que elas se embaralham de uma forma tal, resultando em um não texto, mas numa nuvem cheia de ideias que se colidem. Ou, em outras vezes, os pensamentos que pareceriam estar ali, somem, se encobrem em outra nuvem, densa e escura, escondendo tudo por trás de um breu profundo e impenetrável. Mas...
 
Escrever é jogar luz através das trevas, através dessas nuvens (parece clichê, pode até ser, mas é uma verdade!), é romper essa densidade, é “cascaviar” esse sótão de informações em busca de um achado, é organizar o trânsito das ideias. Escrever é um desavio. Sempre foi e sempre será. E eis que estou nessa empreitada... Com um candeeiro no meio da bruma, tateando uma direção.
 
Às vezes, me sinto assim: como se não tivesse nada sobre o que escrever, ou como se minha cabeça estivesse tão entupida de coisas que nada sai... que nada flui. É assim que me sinto hoje... É assim que tenho me sentido esses dias... Tenho pensado em tantas coisas, brotadas de tantas questões: existenciais, profissionais, afetivas, políticas, de relações interpessoais; ligadas à hipocrisia e às desigualdades todas; preocupada com fim de semestre, com os artigos para produzir, com as contas a pagar, com dores, saudades... Tanta coisa. Coisa demais.
 
Quantos dias nessa semana eu comecei a escrever e parei, quantas vezes me deparei com a tela do computador, com a página de Word aberta, vendo o cursor pulsar acompanhando meu coração, minha respiração e nada, absolutamente nada se amarrava em coisa alguma que fizesse o mínimo de coerência...  
 
Pois é, nessa arenga com a cabeça, com o computador e com os prazos e não tendo muita noção sobre o que iria escrever, terminei escrevendo. Inclusive a coluna de hoje! Vejam só! Escrevendo sobre a tarefa árdua de escrever. Escrevendo sobre a angústia de não acreditar que conseguiria escrever acerca de um tema que pudesse ser, no mínimo, apreciado por algum/alguma possível leitor ou leitora. 
 
Escrevendo e me contradizendo, porque, apesar de dizer que não tinha assunto, a coluna de hoje está aqui. E você está me lendo... E por mais que o assunto de hoje não seja ligado à militância LGBTIA+, nem às questões sociais que comumente eu trago, não deixa de ter seu valor. Principalmente para aqueles e aquelas que assim como eu, também escrevem... 
 
Essa coluna é quase um desabafo (Quase?! Hahahahaha!!!) sobre a agonia que os bloqueios, os apagões ou o acúmulo de informações podem causar em quem faz da escrita um exercício cotidiano. É uma confissão de uma das muitas das minhas falhas (das nossas humanas falhas). É também um ombro amigo para quem acha que está, assim como eu, sem saber sobre o que escrever... #tamojunto.