Renisse Ordine

23/09/2021
 
Ruth Guimarães: literatura e vivências
 
 
Amiga do Saci e do aprendizado popular, a escritora Ruth Guimarães evidencia que o folclore tem que ser vivenciado, é algo que se aprende sentindo na própria pele.  Tudo é folclore!
 
Ruth Guimarães nasceu em Cachoeira Paulista, em 13 de junho de 1920. Dia de Santo Antônio, padroeiro da cidade. Em meio a uma festa popular repleta de lendas, crendices, espiritualidade e humanidade. 
 
Festa do povo, podemos acreditar que foi a data perfeita para essa incrível mulher dar ás boas vindas à vida. O mundo conheceu Ruth, e Ruth conheceu o mundo, uma sincronia perfeita. 
 
Ela é folclorista, romancista, jornalista, poeta, tradutora, cronista, pesquisadora, professora e teatróloga. Conhecedora profunda da cultura popular brasileira.  Escreveu para os jornais: Estado de São Paulo, Folha de São Paulo,Valeparaibano, entre tantos outros importantes meios de comunicação.
 
Parte de suas pesquisas concentram-se nas variações do folclore pelas regiões paulista e mineira, caracterizando a etnografia (modos e costumes) coletando esses dados.  E por que as suas pesquisas se concentram principalmente nessas duas regiões? 
 
A escritora nasceu e foi criada no seio de uma família que reuniram mineiros e paulistas. Pessoas simples que gostavam de contar histórias, e cultuava o saber, o aprender e os livros.
 
 Ela era uma pessoa que não gostava falar de si mesma. Mas, certa vez, entre inúmeras entrevistas, ela fez um autorretrato a uma jornalista falando de sua forte personalidade e influências familiares:
 
“Tenho, como minha avó, o gosto pelas caminhadas, intuição, e amor pelas histórias. Como meu avô, a teimosia e o apego à terra. Principalmente, a teimosia. Nós, eu e ele somos os cabeçudos da família. Se acontece de nos colocarmos em campos opostos, seja qual for o assunto, chovem raios e trovões até que um abrande e sempre é ele, porque eu sou sua neta do coração. De papai tenho a cor negra, a fealdade, a inteligência, o senso de humor e o orgulho. De mamãe herdei o gosto pela leitura, a discrição e o amor”. 
Como toda essa bagagem cultural ela conseguiu encantar tantas pessoas com suas histórias, tornando-se assim, esse grande nome na literatura brasileira. Uma referência na área. 
 
 O que o povo simples diz e sobre o que eles falam era o que mais a encantava. Para essas pessoas ela escreveu e dirigiu a sua vida literária. Trazendo uma visão mais intimista do caipira, voltada para os seus conflitos reais, tendo nas narrativas de suas histórias, o cuidado de não focar basicamente na reprodução da fala, mas sobre o que ele fala. Quais são os assuntos que lhe interessa? E o que estimula a sua imaginação?
 
 Como exemplo, podemos citar as obras: “Contos de cidadezinha” e “Caleidoscópio- a saga de Pedro Malazarte”.  
 
Outros dois importantes livros que partem da oralidade são: Água Funda, primeiro romance escrito em 1946, quando tinha 26 anos. Com prefácio de Antônio Candido, a história do livro se passa na fazenda Olho D´água, no interior do Sul de Minas, no período da escravidão.  Sinhá Maria, Sinhá Maria Carolina, Sinhá Gertrudes, Joca, Inácio Bugre, são alguns dos personagens. Foi com ele que ela se projetou nacionalmente, e ganhou leitores ilustres como Érico Veríssimo, que publicou no jornal os seguintes dizeres. “Há muito tempo que não leio prosa brasileira tão rica de contatos com a terra e com a vida, tão fresca, natural e tão gostosa!” (Érico Veríssimo). 
 
 Filhos do Medo, uma importante pesquisa que autora deixou registrado sobre as manifestações do medo e as lendas e crendices que envolvem a figura do demônio na área rural. Esse livro é de grande importância para a escritora, pois teve como orientador em seu trabalho, o escritor Mário de Andrade, além de ser uma obra pensada como tentativa de se ver livre dos medos que guardava, por ouvir os causos contados pelos empregados da fazenda em que seu pai trabalhava.
 
Em sua vasta obra literária que envolve pesquisas, traduções e folclore, o que podemos ressaltar é que a literatura de Ruth Guimarães resgata nosso sentimento de pertencimento. A leitura de suas obras, crônicas e pesquisas é um momento de conhecermos o nosso espaço, as conversas e histórias que nos cercam. O sentir na pele está em perceber o movimento cultural de nossa sociedade e também os nossos próprios hábitos.