Daniel Costa

27/09/2021
 
O que é a vida?
 
 
É domingo e o mundo está parado. Apenas o som do elevador chega na sala numa monótona sinfonia. Dos alto-falantes do toca-discos escuto Chet Baker soprando seu sax. Os últimos copos de chope me fazem companhia enquanto aguardo o desfecho de um dia como outro qualquer. O que talvez seja muito bom. Afinal, diante das intempéries da vida, um dia sem surpresas é algo a ser comemo-rado. 
 
Desligo o som. Na TV, Marcelo Tas pergunta o que é a vida para uma entrevistada, que responde o óbvio: "não sei". Fico decep-cionado, ainda que ela tenha razão. Ninguém sabe mesmo. Porém, não custava imaginar teorias que não explicam nada, mas que ser-vem para ludibriar incautos como eu com algum grau de eficiência; só o suficiente para a manutenção dos pulsos em perfeito estado de conservação.
 
A entrevistada bem que poderia ter dito que a vida " é impul-so criativo” ou “a batida de um coração". Ou que a vida é o caminho das incertezas, um abismo em que a gente vai caindo em câmera lenta, até rachar a cabeça na última pedra; que a vida também é perder e tentar reencontrar. É solidão, afeto, é Deus e adeus. Uma diuturna esquizofrenia.
 
Desligo a televisão. Volto para Chet, que agora, acompanha-do de um piano Steinway, parece tentar explicar o sentido da vida a partir das notas de "Look for the silver lining". Ou talvez ele só esteja mesmo tocando as notas necessárias para conseguir chegar ao fim de mais um dia e depois, novamente, mergulhar em picos de heroína, até a hora da solução final na janela do hotel Prins Hendrik, em Amsterdam.
 
Mais um chope. Mais algumas músicas de Chet Baker. O ele-vador continua a tocar sua monocórdica melodia. Limpo o suor da testa e sigo em frente. O baterista agora ataca uma sequência nos pratos e no bumbo, enquanto Chet e o sax alto de Bob Mover alter-nam solos para, em seguida, colocarem um ponto final na apresentação tocando "I waited for you" de Dizzy Gillespie. 
 
Ponto final para mim também. Lá se vai mais uma noite de domingo. É a vida