Andreia Braz

06/10/2021
 
 
Uma noite memorável 
 
 
 
E é tão bonito quando a gente entende 
Que a gente é tanta gente onde quer que a gente vá 
E é tão bonito quando a gente sente 
Que nunca está sozinho por mais que pense estar 
                                                                         Gonzaguinha 
 
 
Dizem que os encontros não planejados são os melhores. Já vivenciei algumas experiências que atestam essa afirmação e posso dizer que esses encontros são realmente muito especiais. E foi graças a um desses acasos que vivenciei uma noite inusitada na última quinta-feira. Explico. Um dia antes, fiquei sabendo do retorno do projeto “Quinta que te quero samba”, evento realizado em frente ao Bar da Nazaré, no centro histórico de Natal, e decidi curtir a noite com meu amigo Saul Oliveira. Afinal, ele já tinha me convidado algumas vezes pra sair após o retorno das atividades presenciais, mas o tão desejado encontro ainda não havia acontecido. Interessante é que o convite para o evento foi feito por nossa amiga Maria José Cristino, que acabou desistindo de última hora. Queria muito que ela tivesse ido. Ela adora curtir o samba na companhia dos filhos Vinicius e Viviane. Aliás, foi com esse trio que conheci o projeto.  
 
Voltemos à noite de samba com meu amigo Saul. Além da turma que ele estava quando nos encontramos, a maior parte deles amigos da militância, conheci/reencontrei outros amigos dele: Aline Juliete, Hélio Miguel, Jéssica Bittencourt, Natália Bonavides... Outra surpresa agradável foi o papo com Mateus Cardoso, ator do Grupo Carmin. Sou muito fã do grupo e do trabalho de Henrique Fontes, ator, dramaturgo e diretor do Carmin, que acompanho desde a época do projeto “Na Rua da Casa”, que promovia diversas atividades culturais com vistas, também, a arrecadar fundos para restaurar o prédio onde hoje funciona a Casa da Ribeira. Fiquei feliz por conhecer Mateus, pois assisti a dois espetáculos teatrais do grupo: “Jacy” e “A Invenção do Nordeste”. O primeiro assisti com Ceiça Fraga, amiga e companheira de eventos culturais diversos, e o segundo, na companhia do meu amigo Mário Sérgio, um grande interlocutor quando o assunto é a cultura nordestina, de quem estou com muita saudade.  
 
Uma das alegrias da noite foi reencontrar muita gente querida que eu não via há tempos. A primeira pessoa que encontrei foi Rhayara Lira, professora de História superconhecida em Natal por atuar em cursos preparatórios de redação para o Enem. Além disso, faz Mestrado em Educação no IFRN, onde já atuou como professora substituta. Sou muito fã do trabalho dela e dos textos que publica na internet. Aliás, já me dispus a editar seu livro de crônicas, caso ela decida compilar seus escritos qualquer dia desses. Impossível esquecer o seu abraço e o sorriso contagiante daquela menina que é pura alegria de viver. Aquela energia acalentou meu coração depois de tantos dias cinzentos. Na sequência, um outro encontro muito especial: minha sobrinha Isabela e sua namorada, Andressa. Ficamos de combinar uma saída depois. Quem sabe o tributo a Belchior que vai rolar no início de outubro. A filha do artista, Vannick Belchior, é quem vai abrilhantar a noite no Belch Bar. Apesar do convite para ficar na mesa das meninas, que estavam com uma amiga, continuei procurando Saul. Nesse meio tempo, vi Francisco Eduardo, Cefas Carvalho, Franklin Levy... Depois de uma hora e pouco de andanças pela festa, finalmente encontrei Saul. Fui muito bem recebida pelo grupo dele. A noite estava apenas começando. Muitos reencontros, abraços, sorrisos... Dentre os amigos queridos, está Alexandre Magno. Fiquei superfeliz por saber que ele está cursando Letras no IFRN e pretende seguir a carreira de revisor. Depois, um encontro superdivertido com Felipe Cadó, Michael Avelino e Valdicley, um trio inseparável. Jamais vou esquecer aquele delicioso sanduíche de carne de sol que Michael nos ofereceu. Eles haviam comprado muita comida e queriam dividir com alguém. Encontraram as pessoas certas. Depois, algumas cervejas e muitas risadas. 
 
Ainda sobre as alegrias e surpresas da noite. Alguns gestos aparentemente banais, como o aperto de mão e o abraço, ganharam um significado especial com o distanciamento social imposto pela pandemia. O sorriso nem se fala. Depois de um ano e meio sem participar de um evento desse porte, e, principalmente, sem poder sentir de perto a energia das pessoas, foi incrível participar daquele momento e ver de perto tantas coisas bonitas e significativas. Casais apaixonados trocando carícias, reencontros, abraços, sorrisos, liberdade... Tudo isso ganhou mais sentido depois de todo esse tempo sem presenciar cenas como essas. Mas não esqueci dos cuidados que devemos ter ao sair de casa, fiquei a maior parte do tempo de máscara e sempre higienizando as mãos. 
 
Alguns casais me chamaram a atenção ao longo da noite, mas uma cena de três amigas fazendo uma selfie foi uma das coisas mais bonitas que presenciei no evento. Ao terminar de tirar a foto, elas deram uma gargalhada tão deliciosa que pude sentir toda a alegria daquele momento. Antes, se entreolharam ao analisar a imagem e dizer que a foto estava linda. Aquelas três meninas ficaram como símbolo daquela noite memorável em que foi possível ver o sorriso das pessoas novamente, abraçá-las e poder ficar perto delas sem medo de ser contaminada. Um momento histórico. Prenúncio de um novo tempo. Sim, pois grande parte da população já tomou a primeira dose da vacina contra a Covid-19 e uma outra parte já tomou a segunda dose do imunizante. Apesar do movimento antivacina, do negacionismo/genocídio do governo (responsável pela morte de milhares de pessoas), a ciência está conseguindo vencer essa guerra e o número de internamentos e mortes tem diminuído à medida que a população completa o esquema vacinal. Lembrando que após a vacina é preciso continuar tomando os outros cuidados: evitar aglomerações, usar máscara e higienizar as mãos. 
 
Voltemos ao samba e à alegria de viver. Outro momento emocionante foi quando o grupo Batuque de um Povo, que anima as noites de quinta-feira no centro histórico, cantou “O que é, o que é”, de Gonzaguinha. Um louvor à esperança. Um hino de amor à vida. Os versos dessa canção nunca fizeram tanto sentido. Foi emocionante ver o público cantando o tão conhecido refrão de uma música que é também de todos os brasileiros: “Eu sei, eu sei / Que a vida devia ser / Bem melhor e será / Mas isso não impede / Que eu repita / É bonita, é bonita / E é bonita”. Aquele momento me fez lembrar outra canção de moleque do São Carlos que resume bem a alma do nosso povo: “Aquele que sai da batalha / Entra no botequim, pede uma cerva gelada / E agita na mesa logo uma batucada / Aquele que manda o pagode / E sacode a poeira suada da luta e faz a brincadeira / Pois o resto é besteira” (“E vamos à luta”).  
 
Quando voltei pra casa, ainda em êxtase, fiquei pensando no significado daquele momento e no quanto ele foi importante dentro do contexto que estamos vivendo. Afinal, aquela não foi apenas uma noite em que saí para me divertir com amigos, conhecer novas pessoas, paquerar... Aquela foi, também, uma noite memorável porque marca o início de um novo tempo. Um tempo de alegria e esperança. Um tempo em que podemos nos abraçar novamente. É “o tempo ansiado de se ter felicidade”, como diz o samba de Helton Medeiros. Um tempo em que podemos ver o sorriso das pessoas. Um tempo em que podemos nos abraçar. Um tempo em que podemos voltar a sonhar com a nossa liberdade de poder sair quando quisermos, de poder estar com nossos amigos e familiares. Dias melhores virão.