Bia Crispim

08/10/2021
 
Aberração x atração
 
Vendo os stories do Instagram nesses últimos dias me deparei com uma frase e uma indagação que me deixaram muito pensativa durante toda a semana. A frase dita por @aishayalla: “A pessoa Trans ou é aberração ou é atração.”, me provocou um dia inteiro de reflexão, pois vivemos em um país que tem o maior índice de Transfeminismo e crimes por LGBTfobia do mundo, mas também “consumimos” arte Trans, Drag, LGBTIA+ o tempo todo. Não preciso falar do sucesso que fazem a Pablo Vittar, a Glória Groove, a Liniker, a Linn da Quebrada, entre outras que arrebentam em seus shows, performances e aparições na grande mídia (se é assim que podemos definir as mídias de grande acesso.)
 
Quanto à indagação, também feita por Aisha, “Quando as pessoas Travestis vão poder ter acesso a shows de artistas LGBTQIA+?”, um dia foi pouco para processar. Durante toda a semana essa pergunta me veio à mente e a indignação que ela me provocou só aumentou. Mesmo para artistas de nossa comunidade, o acesso de Travestis, sobretudo, ainda é uma realidade distante. 
 
E em que contexto a frase e a pergunta de Aisha aparecem? Justamente quando, no finalzinho do mês de setembro, o Festival Mada faz o anúncio da presença da artista Trans Linn da Quebrada como uma das suas atrações. 
 
Para quem não sabe quem é Linn da Quebrada, uma visitinha no site do Itaú Cultural dá algumas informações. “Linna Pereira (São Paulo, São Paulo, 1990). Artista multimídia, cantora, compositora, atriz e performer. Usa música e performance para dar visibilidade a questões de gênero, corpo e sexualidade, remetendo-se, principalmente, à luta de transexuais, marginalizadas pela sociedade.” E para quem não sabe quem é Aisha, visite @aishayalla e conheça uma artista multimídia potiguar, dançarina, atriz e dona do Estudio TransCistas.
 
Quem acompanha a vida de pessoas Trans/Travestis sabem que a realidade para a maioria de nós não é fácil. Sempre falo na vulnerabilidade, na precariedade que muitas de nós vivemos por não termos acesso àquilo que deveriam ser direitos de todas as pessoas cidadãs desse país: saúde, educação, trabalho e moradia, além de outras coisas como família (lembrem-se que muitas de nós são expulsas de casa cedo), religião (quase todas elas nos demonizam e nos querem longe de seus templos), sociabilidade (recordem que a presença de uma Travesti, principalmente, não é vista de forma naturalizada nos espaços de convívio social, sobretudo os diurnos).
 
E aí vem a questão que amarra as pontas dessa história. Como uma pessoa que vive nesse contexto tem acesso a um festival de música? (Parece que até isso não nos é permitido, diversão, música para a alma, como diz o slogan do festival Mada.) Lembro que há alguns anos, 2018 para ser mais precisa, fui a ele. Lembro também de comentar com meus amigos gays que me acompanhavam que eu era uma das poucas mulheres Trans/Travestis que estavam lá. Lembro que a primeira mulher que foi me revistar na entrada, se recusou a fazê-lo, alegando que eu estava na fila (de mulheres) errada. Fui salva por uma outra mulher, lésbica e sem nenhum problema em me tocar. 
 
As ideias plantadas em mim por Aisha me provocaram a pensar em uma série de questões voltadas de novo para o não-acesso, o não-ser-bem-vida, o esse-não-é-seu-lugar que cotidianamente ouvimos, vemos, percebemos... Dito de forma explícita (como na atitude da moça da revista), dito de forma diluída, quando o valor do ingresso está longe da realidade de quem está no corre para ter o que comer, como é o que ocorre a muitas meninas Trans/Travestis.
 
A partir dessas provocações, outras foram aparecendo: Por que é que essas artistas LGBTIA+ não reservam um número de ingressos para serem destinados às pessoas Trans/Travestis que não têm condições de acesso? Por que não entram em contato com ONG’s e associações que cuidam dessas pessoas para que isso possa acontecer? Por que as manas Trans/Travestis não recebem algum tipo de facilidade para ter acesso ao produto cultural que essas artistas apresentam?
 
Parece que ser atração Trans/Travesti na grande mídia dá o direito de, assim como boa parte da sociedade, invisibilizar as outras, as comuns, as não-famosas, as aberrações, simplesmente para não “sujar” os brilhos e paetês que ofuscam a realidade de tantas manas que permaneçam na sarjeta, ouvindo as top trend musics no mais alto som.