Ana Paula Campos

13/10/2021
 
Sobre gordofobia e preconceito
 
 
"Você é muito nova pra já estar desse jeito". É isso que, frequentemente, ouço das pessoas, quando me veem sentar ou levantar de lugares baixos. Na boa, eu nem deveria estar escrevendo sobre isso, porque a minha condição física não diz respeito a ninguém, ainda mais a uma pessoa que comenta esse tipo de coisa! Mas penso que meu contradiscurso pode ainda combater falas gordofóbicas e preconceituosas como estas. 
 
Quem me conhece de muitos anos, sabe que eu já fui alucinada por ser sarada. Na época, sem saber que era negra, mas já consciente da dor que a não aceitação do racismo provoca, tentava de tudo para me encaixar nos padrões de beleza aceitos pelo Ocidente. Eu era extremamente magra/sarada e com o último grito da moda. 
 
Os prejuízos foram muitos. Desde o gasto com 64 pares de sapatos, até questões de saúde. Estar gorda, não necessariamente significa que a pessoa tenha problemas de saúde. Já uma busca irracional pelo corpo dito perfeito, sem dúvida!
 
Eu praticava musculação em uma academia maravilhosa, com profissionais muito competentes. Confiante, resolvi sair e me matricular em outra recém-aberta no meu bairro. Lá, com minha arrogância aliada ao desprezo aos profissionais, fazia exercícios sozinha, sem orientação ou supervisão. Na busca pelo “corpo perfeito”, eu passava horas na academia, exagerando nos pesos, na esperança de ter o abdômen dos sonhos. Tinha! Já os joelhos... 
 
Em seis meses nesta loucura, passei a sentir dores tremendas no joelho direito. Busquei um especialista, que me orientou a suspender as atividades sob alerta de nunca mais poder fazer musculação na vida. Segui as recomendações à risca, por algumas semanas. Até passar as dores no joelho, pra ser mais exata. Voltei ainda mais enérgica. 
 
O resultado já era o esperado. Algumas semanas depois eu já estava com dores nos dois joelhos e quase sem mobilidade. Tive de suspender a musculação de vez. Seis meses depois eu estava com 20kg a mais. Daí pra frente já se imagina. Engordei mais de 40kg. O motivo? Ansiedade, saudade da academia, correria com as cirurgias da minha filha...
 
Hoje é bem comum que as pessoas repitam a frase "você é muito nova para estar desse jeito".  Quem disso isso não sabe dos fatos. Nem quer saber, na verdade. Quer mais uma desculpa para proferir ódio. O fato é que tenho condromalácia patelar em nível bem alto. Isso significa que eu não tenho mais cartilagens nos dois joelhos. Aquela "babinha" que ajuda a flexionar os joelhos, eu não tenho. O resultado são dores insuportáveis para sentar ou levantar de lugares baixos. Geralmente, eu não suporto e, literalmente, me jogo na cadeira. Não posso ficar de joelhos e, por razões óbvias, também não posso sentar no chão. Meu caso é cirúrgico.
 
Ao contrário do que muitos imaginam, eu não tenho essas dificuldades porque estou gorda. Gordura não necessariamente limita os movimentos das pessoas. Tenho amigas gordas que praticam ioga, patinação ou dança do ventre. O que acabou com minha saúde e mobilidade foi o excesso de exercício errado em academias, sem supervisão profissional. O que acabou comigo foi o racismo e o desejo de ser aceita por uma sociedade tóxica.
 
Hoje sou uma mulher negra de 41 anos, gorda, macumbeira e com cabelos curtos. Estou completamente fora do que é compreendido como belo do lado ocidental do planeta. Mas uma coisa eu posso garantir: apesar de tudo, estou muito mais feliz e consciente de quem eu sou e da minha beleza. Não preciso da aceitação de ninguém, porque a minha agência de localização é outra: cabelos curtos, roupas e religiosidade que seguem o padrão de beleza africana. Isso pra mim é belo. 
 
Apesar das dores, estou bem comigo mesma. Penso que quem tem problemas a resolver são vocês, racistas, gordofóbicos, etaristas e capacitistas. Boa sorte pra vocês.