Wellington Duarte

30/10/2021
 
 
Os caminhos da ignorância
 
 
Numa certa reunião dois comentários chamaram minha atenção.
 
Comentário 1: eu não tenho elementos para falar o que vou falar, mas minha opinião é que dizer que Karl Marx e sua teoria tem alguma validade histórica, é uma piada.
Comentário 2: nos bons tempos num tinha essa frescura de agora. A gente fazia piada e ninguém enchia o saco. Agora nada pode. A gente era feliz.
 
São dois comentários diferentes, mas iguais. O primeiro de um jovem que mantém a crença de existe um “perigo universal” e ele está dentro da casa dele, inclusive: a esquerda. O segundo é um cinquentão, como eu, que volta e meia solta piadas que são carregadas de racismo, misoginia e homofobia e fica chateado quando as pessoas o repreendem. 
 
Quando Marx e Engels trouxeram a público, em fevereiro de 1848, em meio a fortes confrontos que deixaram milhares de mortos, o “Manifesto Comunista”, feito a pedido da Liga dos Justos (posteriormente Liga dos Comunistas) da Alemanha, o seu parágrafo era revelador, pois o dito manifesto começava com a célebre frase “Um espectro ronda a Europa: o espectro do comunismo. Todas as potências da velha Europa se uniram em uma santa campanha difamatória contra ele: o papa e o czar, Metternich e Guizot, radicais franceses e policiais alemães”.
 
Antes de qualquer coisa o comunismo já nasceu difamado e perseguido e, passados 173 anos, um jovem que admite não ter conhecimento para atacar Karl Marx, como teórico e cientista político, apela para a palavrinha mágica que salva os que nada tem a dizer, mas tudo dizem: a opinião.
 
Eu observei atentamente o jovem enquanto ele se esforçava em afirmar a “besteira” que é a teoria do Valor -Trabalho, que coloca o trabalho como a única força formadora da riqueza da sociedade e que é, ao lado de Emile Durkheim e Max Weber, formam o tripé das Ciências Sociais, ou seja, o jovem contesta o que aceito pela comunidade científica, embora muitos acadêmicos torçam o nariz para esse alemão que era possuidor de um característica muito especial : ele formulava seus pressupostos teóricos com a minúcia cansativa de quem quer provar o que fala, e muito venenoso no uso das suas palavras.
 
Na mesma sala e outro momento o tal cinquentão evocou um tempo que nunca existiu, pelo menos para os milhares de trabalhadores que comeram o pão que o diabo amassou nas décadas de 70 e 80, com um país mergulhado numa inflação descontrolada e com uma economia que funcionava aos trancos e barrancos.
 
O cinquentão se remete a um tempo histórico em que, é verdade, se permitia as piadas infames e todos, inclusive eu mesmo, ríamos dessas piadas. Aliás com a AIDS tornou-se uma epidemia conheci muitos que resmungavam “malditos viados!” e diziam que “toda loira é burra”, que “mulher gosta de apanhar”, que “negro quando não defeca (termo mais moderado) na entrada, defeca na saída”, ou seja, éramos produto de uma época que felizmente passou.
 
Esse cinquentão, inclusive, se gaba de não ser racista e falou que “não é racista não, tem até amigos negros”, o que fez um outro participante da reunião, negro, baixar a cabeça em sinal de desaprovação. Mas o silêncio desse negro e o seu “abaixar” de cabeça, revela o quão profundo é a herança da casa grande e senzala nesse país.
 
Duas faixas etárias diferentes. Duas pessoas forjadas em tempos diferentes. Mas, nos dois casos, um elemento em comum: a ignorância. Uma exibindo uma ignorância calcada no não reconhecimento de um corpo analítico que não lhe agrada; e a outro evocando um tempo que existiu sim, mas no seu minúsculo espaço de convivência, muito longe do mundo de então, e com um forte traço de uma personalidade que não se despiu das vestimentas do Senhor de Engenho.