Renato Moraes

04/11/2021

 

Sobre cantos, recantos e encantos

 

Pinto Júnior sempre me convidou para escrever sobre turismo nesta coluna. Mas neste espaço que passo a ocupar às quintas-feiras, pretendo mesmo é tratar é de lugares e afetos. Pois nestas terras potiguares, eu argumentava ao saudoso amigo, há, certamente, gente mais qualificada que eu pra falar de turismo, números, expectativas, estatísticas.

Quero propor ao caro leitor ser um turista em sua própria cidade. E aos visitantes roteiros percorridos ou pesquisados através dos olhos de alguém que busca descobrir, também, sem pressa, o prazer de ser e estar em cantos com cheiro de história e marcas da cultura: calor humano. Recantos cheios de encantos. 

Viver as cidades e a história, turismo com arte e cultura é um projeto que tocamos à frente em forma de site e redes sociais (www.maisturismonordeste.com) que convido o leitor a visitar também e propor roteiros, sugerir pautas para este espaço. E ouvir nossos podcasts.

Pois vamos lá. Prepare-se para sensações antagônicas ao visitar a Ribeira, nossa primeira dica de roteiros sentimentais. Tristeza pelo abandono de pequenas e grandes porções de história, vida e arquitetura, alegria pela resistência dos casarões que não cedem lugar ao abandono espreitado pela mão invisível(?) da especulação imobiliária. Mas a Ribeira resiste. E ainda respira arte e cultura.

Alguns prédios que fizeram parte de um cotidiano nem tão longínquo (mas pujante) da cidade ainda chamam a atenção. Uma de suas ruas mais conhecidas, a Doutor Barata, inicialmente teve uso apenas residencial. Na primeira metade do século XX, já era local de venda dos produtos mais refinados da Natal, o que a fez ser conhecida como "Rua das lojas".

Em algumas edificações, sobrou apenas a fachada, como do prédio onde funcionou a loja de confecções A Samaritana. Resistem ainda traços de prédios que contam um período mais recente da história do bairro, como onde funcionou a Casa Lamas e o Edifício Aurora (na esquina com a travessa Aureliano).

A boa notícia é que a arte resiste. O número 216 da rua, por exemplo, inverte essa lógica em forma de cultura na Galeria B-612. Ali, há arte por toda parte: telas, esculturas, móveis, exposições, oficinas e uma conexão permanente com artistas dos mais variados campos. Logo na entrada, o espaço chama a atenção pelo painel do artista plástico Jordão de Arimatéia, que tive o prazer de conhecer por lá. Jordão tem inúmeras obras espelhadas pelo RN, entre elas, talvez a mais famosa, as colunas do Residencial Riomar, em Petrópolis.

A Ribeira da beira do rio, que Cascudo chamava de "campina alagada pelas marés do Potengi", local de banho para o natalense no século XIX, ainda resiste. A arte ajuda a Ribeira a resistir.