Andrea Nogueira

18/11/2021

 

Nós sangramos, mas não desistimos

 

Atualmente um tema parece estar em alta: a menstruação. E mais ainda: a pobreza menstrual.

Durante tanto tempo a menstruação foi assunto proibido em vários ambientes, especialmente na presença de homens. Agora, em pleno ano 2021, o feminismo finalmente conseguiu trazer o tema para um patamar de maior evidência. E de tanto falarmos sobre nosso sangramento mensal, alcançamos a reflexão maciça sobre a pobreza menstrual. 

Parece até que foi de repente, mas não é bem assim. Mulheres sempre menstruaram e sempre sofreram com o silêncio sobre essa realidade tão natural e humana. E como é bom ver o assunto sendo, hodiernamente, discutido por todos os gêneros. 

A presença de mulheres nos cenários políticos e com as suas falas amplificadas após tantas lutas, trazem à tona uma reflexão coletiva sobre o precário, ou nenhum acesso, de tantas meninas, mulheres e homens trans a produtos de higiene no período da menstruação. Hoje também colocamos na mesa a discussão sobre a ausência de banheiros, água e saneamento que são tão importantes para as pessoas que menstruam.

A luta por higiene menstrual é antiga. Desde o ano 2014, a Organização das Nações Unidas reconheceu a higiene menstrual como um direito humano. Ora, mas quem sabia disso? As feministas de plantão sabiam. E tantas outras pessoas. Muita gente, apesar de poderem comprar seus próprios absorventes, também já se preocupava com quem não pode.

Só uma pessoa que menstrua consegue realmente sentir o que significa passar de 4 a 10 dias sem nada para aparar o sangramento. Como se não bastasse a dor física, os sentimentos conflitantes durante o período e todas as sensações próprias dessa fase, ter as coxas escorrendo sangue durante dias seguidos é, sem dúvida, a “cereja do bolo” em termos de humilhação.

Para boa parte da sociedade, é inimaginável que alguém passe por isso. Mas a verdade é que meninas deixam de ir à escola no período menstrual porque sua pobreza a impede de comprar absorventes. Elas ficam sangrado em casa para não ter que enfrentar a humilhação de ter as roupas manchadas diante de estranhos. Meninas, mulheres e homens trans sofrem com essa realidade. E além delas, sua família, num efeito cascata do problema atualmente conhecido como pobreza menstrual.

Enquanto o governo federal não enfrenta o tema, vários Estados brasileiros já possuem legislação que visa combater o problema. Assim, políticas públicas começam a nascer para, finalmente, tratar dessa questão secular. 

Já contávamos com a distribuição gratuita de camisinhas, de medicamentos, de alimentos no combate à fome e tantas outras políticas públicas movidas por leis próprias. Agora, esperamos ansiosas pela distribuição gratuita dos suprimentos menstruais. Esperamos por mais esse direito, objeto de tantas lutas.

Só pessoas muito fortes conseguem aguentar tanto tempo por um direito tão básico. Viva a luta feminista!