Bia Crispim

19/11/2021

 

ARMADURAS

 

Já fui chamada de besta, orgulhosa, intransigente, prepotente, impositiva... Creio que sou tudo o que me chamam. Porém, para quem me conhece, sabe que tudo isso seja, talvez, minhas armaduras. 

 

Sou tomada por besta porque não sou uma pessoa de me abrir facilmente. Meu universo particular é muito restrito, apesar das inúmeras pessoas amigas que tenho feito ao longo da vida. Mas, por ser reservada, tomam-me por besta, antipática. Já ouvi quem dissesse: “Só quer ser as pregas!” – como se diz aqui na região onde moro. Não sou orgulhosa nem besta como dizem, sou reservada e isso tem muito a ver com o medo da rejeição que paira sobre qualquer existência Trans.

 

Quanto a ser intransigente, prepotente ou impositiva... Bem... Posso parecer uma pessoa assim em algumas situações, sobretudo quando estou defendendo aquilo que acredito, que respeito ou por que luto. Acho que qualquer pessoa que usa o discurso como arma parece prepotente em algum aspecto. Mas creiam, nada disso é motivado por que “eu me acho melhor”, ou “eu me acho superior” a quem quer que seja. 

 

Definitivamente, não sou melhor que ninguém. Luto por ser hoje uma versão melhor do que eu fui ontem. Luto por me superar, por atingir um outro patamar da minha existência que me dê a certeza de que evoluí, mas não para esnobar ou pisar outras pessoas. Jamais quis ser uma pessoa assim. 

 

Contudo, se em algum momento eu pareci ser prepotente, perdoe-me! Creio que a performance impositiva, reservada e de parecer orgulhosa (ou besta, como queira), está muito relacionada à maneira que escolhi para me proteger de alguma forma dos muitos ataques aos quais uma pessoa Trans está suscetível.

 

São minhas armaduras. Ando sempre assim. Acho que criei uma espécie de redoma, de carapaça, de casca dura que me protege. Por parecer besta, antipática, antissocial até, tenho afastado de mim muitas situações desagradáveis. Disso eu tenho certeza. Essa minha postura “prepotente” impõe respeito, e, segundo ex-estudantes, até medo. (Pausa para rir... hahahahahahahahaha!!!!!) Rio porque é engraçado ouvir alguém dizer que tem medo de mim. Só faço mal às moscas e muriçocas... 

 

Mesmo antes da minha transição, eu já era uma pessoa que não gostava muito de gente “entrona”, já não era de compartilhar segredos (até por que eu achava que os meus segredos me afastariam de todas as pessoas), e sempre tive um grupo muito restrito de amigos/as que frequentavam minha casa e compartilhavam da minha intimidade. 

 

Eu fui uma adolescente popular e conhecida de muita gente porque sempre fui simpática, educada e agradável... Mas minha reserva me fazia parecer alguém besta. E talvez, algumas pessoas tivessem sim medo de mim, pelo fato de já entenderem quem eu era, antes mesmo de que eu me desse conta disso. 

 

Os pais tinham medo de que seus filhos e filhas tivessem amigos e amigas Transviadas. Os meninos tinham medo de ser meus amigos. Por outro lado, as meninas me acolhiam como iguais. Sempre tive muitas amigas, até hoje. Meu ciclo de amizade é predominantemente feminino. Definitivamente, o universo masculino não me pertence, nunca pertenceu, nunca pertenci a ele.

 

Alguém deve estar se perguntando por que Bia escolheu esse tema para a coluna dessa semana. E eu te respondo que nem eu sei por quê! Sei que esses dias tenho pensado muito sobre minha postura diante de tudo, minha solidão, meu estado constante de isolamento, meu “gostar de não estar me expondo”, apesar de viver exposta em sala de aula, em lives, em congressos... 

 

Tenho pensado muito na maneira como sou vista. Tenho pensado muito nos amigos e nas amigas de verdade a quem devo todo meu amor e respeito. Com quem compartilhei tanto minhas armaduras como também, diante de quem, deixei todas elas caírem por terra.  

 

Sei que continuarei sendo chamada de orgulhosa, prepotente, besta... Mas, no fundo, no fundo, quando as armaduras são postas de lado, baby, “I’m so sweet!” – como me chamam duas caras amigas. Né, Angel e Naná?!