Andreia Braz

23/11/2021

 

É tempo de celebrar o amor

 

O amor que não ousa dizer o seu nome. Assim foi definido o amor entre dois homens ou entre duas mulheres. Um amor que levou o escritor irlandês Oscar Wilde a ser condenado e preso por dois anos na Inglaterra, em 1895. Wilde foi condenado à pena máxima de prisão, que incluía trabalhos forçados. Morreu em Paris, dois anos depois de ser libertado. Nessa época, a homossexualidade era considerada crime. 

O amor que não ousa dizer o seu nome. Um amor que levou milhares de pessoas a silenciar seus sentimentos durante séculos. Um amor que levou muitas famílias a internar seus filhos em hospícios porque elas não se enquadravam no padrão exigido socialmente, pois a orientação sexual era criminalizada sob pretextos religiosos e morais. Basta citar o exemplo do Hospital Colônia de Barbacena, em Minas Gerais, situação descrita no livro “Holocausto brasileiro”, da jornalista Daniela Arbex. A obra, que inspirou o documentário homônimo, foi publicada pela Editora Intrínseca. Um amor que causa repulsa em alguns e gera violência por parte de outros. Um amor que foi considerado perversão. Um amor que foi considerado crime. Um amor que foi considerado doença. 

O amor que não ousa dizer o seu nome. Um amor que levou milhares de pessoas a se rebelar pelo mundo e a começar lutar pela igualdade de direitos civis. Um amor que leva milhares de pessoas ao redor do mundo a realizar, todos os anos, as famosas Paradas do Orgulho Gay. Esses eventos também servem como manifestações contra a homotrans e bifobia, direitos iguais, como o casamento entre pessoas do mesmo sexo e leis contra a discriminação. A Parada do Orgulho Gay teve origem nos Estados Unidos, no famoso Bar Stonewall In, em 1969, quando um grupo decidiu se unir para enfrentar a violência contra os homossexuais ocorrida reiteradamente nos bares gays de Manhattan. As batidas policiais eram comuns naquela região.

E hoje, no dia 21 de novembro de 2021, estamos aqui reunidos, na cidade de Parnamirim, Rio Grande do Norte, para celebrar o amor de duas mulheres, Andressa e Isabela, que estão juntas há mais de uma década e seguem firme acreditando no amor, apesar das divergências, dos desencontros, das diferenças de personalidade, mas também, e principalmente, da intolerância e do preconceito. Sim, porque estamos vivendo no país que mais mata transexuais no mundo. De acordo com o Relatório da Associação de Travestis e Transexuais do Brasil (ANTRA), em 2020, 175 pessoas transexuais foram assassinadas no país, o que equivale a uma morte a cada dos dias. Uma estatística vergonhosa que precisamos combater com afeto, educação, respeito e, principalmente, justiça. Não podemos esquecer o caso Dandara, a travesti de Fortaleza que foi espancada e morta em plena luz do dia. Imagens do crime foram gravadas em um celular e publicadas na internet. O crime aconteceu em 2017 e teve repercussão internacional.

Mas não estamos aqui somente para falar de preconceito e violência, embora seja constante a luta pelo fim da intolerância e do preconceito contra o público LGBTQIA+. É para celebrar esse amor entre duas mulheres que estamos aqui reunidos, nesta ensolarada tarde de domingo, para dizer que elas podem e devem ser felizes sendo quem são; que elas podem e devem, se quiserem, ampliar sua família, seja com filhos biológicos, seja com filhos adotivos; que elas podem e devem, se quiserem, oficializar sua união para garantir a ambas os direitos que por muito tempo foram assegurados somente a casais heterossexuais.

E o meu desejo para essas duas mulheres incríveis é que elas sigam acreditando no amor e sigam construindo uma relação baseada no afeto, no companheirismo, na lealdade e na compreensão. Uma relação baseada, sobretudo, no respeito à individualidade e aos desejos de cada uma. Que elas sejam ainda mais felizes e continuem sonhando e mostrando que é possível ser feliz apesar dos que não acreditam no amor entre iguais. Dos que acreditam que a homoafetividade é escolha/opção. Não, não é escolha, é amor. E quem vai dizer não ao amor?

Para Daisaku Ikeda, um importante líder budista japonês, filósofo e humanista, “o amor verdadeiro só pode ter lugar entre dois seres humanos fortes e seguros de sua individualidade”. “Se a felicidade é o sentimento a que todos aspiramos em nossa vida individual, então a harmonia é a forma que as pessoas têm de serem felizes quando estão juntas”, diz o mestre Ikeda. Quando perguntado sobre o segredo de uma convivência profunda e harmoniosa, ele respondeu que são dois os ingredientes que compõem essa “receita”: gratidão e objetivos em comum. 

E, para finalizar, nossa breve homenagem, um poema de Carlos Drummond de Andrade, “As sem-razões do amor”:
 

Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.
 

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.