Ana Paula Campos

24/11/2021

 

 

Como sempre foi dito por aqui, este espaço é para publicação das reflexões do nosso povo. Hoje trago uma crônica com apontamentos cirúrgicos do meu irmão, David Alves, sobre a demissão da professora de uma escola, por utilizar em suas aulas a obra Olhos d’água da intelectual preta, Conceição Evaristo. Boa leitura.

 

NOTA SINCERA DO COLÉGIO VR: 

David Alves



Nós, da Direção do Colégio VR, vimos declarar publicamente o nosso racismo a uma professora negra e censura a um livro de literatura negra chamado "Olhos D'água", da escritora Conceição Evaristo.


Apesar de sabermos que o Movimento Negro e a própria escritora Conceição Evaristo não dão muita importância a honrarias acadêmicas, como a de ser uma imortal da Academia Brasileira de Letras, consideramos importantes esses espaços de prestígio, ocupados majoritariamente por brancos que selam um pacto narcísico. Ouvimos essa história de pacto narcísico uma vez por uma psicóloga negra, mas é óbvio que, na hora, desdenhamos desse conceito apresentado por ela. Por isso, sabemos da importância do livro "Olhos D'água" ter vencido um Prêmio Jabuti. É um livro que parece ter suas qualidades, já que ganhou um Prêmio Jabuti, mas alguns alunos e pais não gostaram das discussões trazidas pela obra. 


O livro aborda de modo profundo as questões raciais e nos põe em constrangimento quando temos de confrontar a nossa própria branquitude. Nós, que sempre somos o normal, o invisível, temos direito a ficarmos incomodados quando somos indiretamente racializados por uma obra de literatura e quando são expostas as nossas ações violentas em razão de preconceitos e de manutenção de poder, que não abrimos mão. Foi desse modo que os alunos e pais se sentiram, então, utilizaram o pretexto de palavras não adequadas à faixa etária do Ensino Médio. Claro que não nos importamos com xingamentos de personagens de autores brancos, mas essa escritora negra precisa ser mais comportada ao escrever seus textos, se quiser entrar para o cânone literário brasileiro. 


Assim, nos vimos obrigados a modificar o processo pedagógico dessa docente. Sabemos que isso foi uma dupla violência: racial e de gênero, desrespeitando totalmente a intelectualidade dessa professora negra ao censurarmos um livro de uma escritora negra, mas o mais importante para nós é o dinheiro dos pais dos alunos insatisfeitos. O que é uma professora negra de 17 anos de instituição frente ao dinheiro de pais racistas? O que é um livro de literatura negra frente ao nosso gênio Monteiro Lobato? O fato de Lobato ser eugenista não invalida a sua obra e as passagens racistas dos livros de Lobato são fruto do momento histórico e muito menos agressivas que palavrões do livro "Olhos D'água". Temos certeza de que nenhum pai se importará com a leitura de uma obra do "pai da literatura infantil brasileira". 


Retornando ao caso, a professora, não satisfeita com a nossa decisão, de forma acintosa, resolveu divulgar o fato nas suas redes sociais, o que nos obrigou a afastá-la das funções dessa turma, pois os pais e alunos sentiram-se constrangidos com as publicações verdadeiras. É óbvio que não desejávamos assumir o nosso racismo, é importante transparecermos o ideal de respeito às diversidades étnica, racial e de gênero, pois é assim que construímos uma democracia racial. 


Portanto, antes de nos acusarem, venham conhecer a nossa proposta pedagógica, ela é bem bonita, com escrita atenta ao politicamente correto, mas vida real é vida real, temos de garantir o nosso dinheiro e garantiremos, mesmo que precisemos cometer racismo contra uma professora da nossa instituição. 


Colégio VR

 

Por David Alves

 

David Alves (@davidalves) é poeta, membro do coletivo Enegrescência, professor de língua portuguesa e mestrando em Estudos Étnicos e Africanos (Pós-Afro/UFBA). Tem poemas publicados em antologias como Enegrescência Coletânea Poética, da qual foi também organizador, e Cadernos Negros volumes 41 e 43.