Andrea Nogueira

25/11/2021

 

Somos as descendentes das bruxas que não conseguiram queimar

 

Todos sabem que o mundo já viveu uma “caça às bruxas”. Era uma caça às mulheres que faziam coisas que os homens não conseguiam explicar, pois escapavam da compreensão da ciência da época. Coisas como fazer remédios caseiros, possuir técnicas de parteiras, suas capacidades intuitivas, a menstruação e a própria fertilidade foram dons que levaram muitas mulheres às fogueiras.

Se as mulheres se reunissem para conversas sobre formas de cuidado à saúde, já seriam identificadas como numa reunião de bruxas. Haviam, portanto, bruxas jovens ou idosas, deficientes ou não, bonitas ou “feias”. A questão girava em torno de existir pessoas qualificadas socialmente como inferiores aos homens (as mulheres), mas que conseguiam fazer trabalhos “de homens” ou que somente aos homens caberia (segundo a cultura da época), e ainda pior se fizessem algo jamais realizado por um.

O que hoje conhecemos como protagonismo feminino, empreendedorismo da mulher, sexto sentido ou mulher maravilha, já foi massivamente chamado de “pacto com o demônio”. E não adiantava negar. Se a mulher negasse a bruxaria, seria queimada. Se admitisse, seria enforcada antes da queima. Mas a condenação à morte era certa. Afinal, ninguém queria dividir o mundo com pessoas extraordinárias que não fossem homens.

As novas gerações podem se espantar com a narrativa histórica, mas alguns “sobreviventes” ou descendentes desse patriarcado tão maléfico à sociedade ainda relembra (sem saudades, é o que esperamos) a dicotomia dos comportamentos sociais dispensados aos homens e às mulheres.

Não à toa, as bruxas são ícones dos movimentos feministas. Mas ainda há quem tente desvirtuar as mulheres aguerridas atuais relacionando os seus ícones com as bruxas que voam e cozinham pessoas em caldeirões (aquelas contadas nas histórias infantis). Não falta quem acuse uma feminista de bruxa, considerando os piores conceitos dados à esta figura emblemática. Quem tenta destruir o movimento feminista não traz à tona aquelas “bruxas” queimadas por serem inteligentes, perspicazes, criativas, ou simplesmente ousadas no sentido de decidirem protagonizar suas próprias vidas. Por isso é importante olhar de perto todas as pessoas que falam mal desse movimento tão salutar para a evolução da sociedade.

As feministas de hoje são a resistência de toda uma sociedade maculada pela desigualdade. E são também a esperança de um mundo verdadeiramente igualitário. E se isso é ser bruxa nos tempos hodiernos, digo que sou uma das descendentes das bruxas que não conseguiram queimar.