Bia Crispim

26/11/2021

 

E ELES SOPRAVAM EM SEUS OUVIDOS

 

Hoje, trago para vocês, leitores e leitoras, um conto (erótico?!) publicado em 2011 no meu blog. Ele foi escrito em uma noite de sono inquieto, depois de uma longa conversa e partilha com meu amado Juliano Varela. A ti, meu querido, dedico a coluna de hoje. Vamos ao conto:

 

Sua vida estava ali. Sentada na grande poltrona de balanço, a Velha-que-nada-via, ouvia demais. Durante o dia, dormia. Mas quando a noite chegava, lá estava ela, desperta. Caminhava o mesmo caminho, do quarto (seu mundo de segredos) para a varanda. Sentava-se e seus sonares auditivos iniciavam o conhecimento do mundo, que se abria em imagens acústicas dentro de sua cabeça. As formas avolumavam-se e até cheiro seus ouvidos sentiam.

 

Aprendeu a ouvir e depois a se calar. Guardadora de segredos do universo, não poderia traí-lo. Escutava e aconselhava. Orientava. Nada mais. Um dia, duas partes iguais diferentes apoderaram-se de seus ouvidos e sopraram-lhe vida de suas bocas, de suas vidas.

 

A boca de um fabricava imagens sedutoras, torpes, de embriaguez de sentidos e sentimentos confusos. Deixava-a excitada com o turbilhão de ações, feitos. Inquietude! E dentro dela tudo era sentido: o perigo, a audácia, a ousadia, o frio na barriga, a penetração, o gozo e o nojo que ficava. Seu ouvido canalizava para si a vida que não lhe pertencia.

 

Ouvia cada história como se ela as vivesse e se encantava com isso. 
Durante o dia seguinte, seu sono era inquieto, trêmulo, espasmódico, convulsivo. Acordava de supetão, vendo-se tomada pelo Deus Eros, comida, sugada, dilacerada carne e vísceras. Prostrada e ofegante, tornava a dormir, como quem morresse.

 

Segredos que ficavam em seu quarto, depois de enfiados ouvido adentro.

 

A outra boca lambia-lhe a orelha, sensação sensível de menina virgem bolinada. A doçura invadia seu canal auditivo e açucarava seus outros canais e sua alma. Amolecia-se, deformava-se em algo pegajoso e gosmento. Era gozo. Umidade de bicho gente apaixonado. 

 

Seu ouvido escutava insinuações. Tornava-se sinuosa, ondulada. Preenchia-se de sons e vibrações leves e harmônicas, mas não menos tentadoras. Talvez, mais! Gozava lento, em movimentos de águas calmas que sentia deslizar por todo o corpo. Água na boca, nas partes, ovulava de desejo e sedução.

 

Quando o dia abria seus olhos quentes, ela já dormia sonhos virginais de primeiras sensações. De primeiro beijo roubado. Movia-se na cama como gata no cio. Despertava com olhos brilhantes ainda molhados. E com a audição em polvorosa, tentando possuir mais de tudo aquilo. 

 

Fome de sexo guloso e possessivo. Queria aquelas bocas para si. Cada uma em um dos lados. Cada uma em um de seus ouvidos. Velha fuxiqueira sedenta dos mundos que não lhe pertenciam. Turíbulo que guardava tanto segredo, daquela boca de um, daqueles lábios do outro, do mundo e de si mesma.

 

Havia dias, que prenha, paria sonhos contados por uns lábios, paria sonhos da outra boca, paria seus sonhos de imagens que só as palavras podiam construir quando penetravam seus ouvidos. E ficava desejosa de ouvir mais.

 

A noite, com todo seu silêncio conversador, falava muito para ela. E alegrava-se quando o Astro-Rei despedia-se. A escuridão iluminava sua mente e do breu, as coisas todas surgiam. Sentada, majestosamente, em sua cadeira trono de balanço, percebeu sua condição de Rainha e como quem manda em tudo, como quem pode tudo, ordenou a construção de mais dois tronos, onde colocou, à direita, em um ouvido, um Contador de Histórias, e à esquerda, um Cantador de Outras Histórias. Um visceral e outro sonhador, para poder ter um mundo completo dentro de si.

 

Sentada perto dela, eles seriam capazes de soprar brisas, ventos ou ventanias em seus ouvidos e, assim, refrescar, ascender ou apagar o fogo que flamejava em seus olhos.