Fábio de Oliveira

29/11/2021

 

Logísticas do consumo e práticas reais da sustentabilidade

Ano após ano e gestão após gestão, enfrentamos os mesmos problemas ambientais e climáticos, que continuam afetando todas as formas de coexistências. Mas nós, povos indígenas, estamos isentos desta conta existencial. Somos atingidos por essa sistêmica estrutura colonizadora, que desembarcou há séculos na Pindorama, que só visa ao lucro, e que vem dizimando nossas vidas a todo custo e valor. Essas perdas estão cada vez mais acentuadas em prol de uma sociedade progressista. Mas que progresso é esse e pra quem é?

Às vezes, costumo perguntar às pessoas nas aulas de campo, no sítio histórico e ecológico Gamboa do Jaguaribe, quem destrói a natureza e o que elas costumam consumir com frequência. A resposta não me surpreende, mas saber a resposta não é o suficiente. Materializar a solução requer muitas mudanças, inclusive internas, das quais a maioria não está disposta a fazê-las e podemos começar minimamente pela redução de consumo. 

Poucas pessoas conseguem refletir sobre qual é a relação que as degradações ambientais, climáticas e culturais têm com o crescente consumo de carne, de açúcar, de produtos industrializados, de combustíveis, de obras licenciadas dentro de áreas de proteção ambiental, e tantos outros fatores que alongariam esse parágrafo. Fatores estes que não são considerados, porque somos parte principal dessa logística de consumo.

Se há uma demanda de consumo, também há de produtividade, que gerará lucros às grandes empresas que estão por trás de toda essa logística de consumo. É aí que as atividades produtivas desenvolvidas pelo ser humano caem em campo. O meio ambiente e as biodiversidades são exterminados por meio dos desmatamentos e queimadas em proporções exponenciais, para atender os prazeres e às vaidades do consumo a nível global.

No decorrer dos anos, acontecem conferências e fóruns mundiais para os governos debaterem sobre soluções climáticas e ambientais e tivemos recentemente a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, em Glasgow. Mas estamos no século XXI e não vemos nenhuma melhoria. Acredito que não basta traçar metas e meios sustentáveis para o mundo, se não houver uma quebra do nível de consumo das pessoas – que ainda está em alta. O planeta Terra não suporta esse ritmo acelerado de consumo e a tendência é entrar em um colapso.

Enquanto as grandes corporações tiverem mais poderes que o Governo Público, para tomadas de decisões, as falácias da sustentabilidade continuarão sendo reproduzidas através do negaciosismo do aquecimento global e efeito estufa. A logística do consumo e a ignorância continuarão nos dominando.

Já passou do tempo de nós, povos indígenas, ocuparmos cargos representativos para debater as questões ambientais e climáticas e movimentar ações, de fato, efetivas nesses encontros globais. Porque agora é questão de sobrevivência pois não há ninguém melhor que o próprio indígena para articular ações em prol da natureza. Já estamos atrasados demais; talvez essa seja uma das formas de adiar o fim do mundo, preconizado por Krenak.

Precisamos repensar a ideia de progresso e pensar em formas de nos mantermos vivos. Os lutos constantes precisam cessar. Sem os povos indígenas, sem terras demarcadas, não ha soluções sustentáveis para o mundo.