Bia Crispim

24/12/2021

 

NATAL SEM CORDAS

 

O Natal desse ano será fora de tom.

Não há cordas afinadas.

Nem ensaios de cantorias durante todo o dia.

Não haverá questionamentos sobre qual seria a melhor nota para essa ou aquela canção.

 

Toda uma vida foi assim... 

Papai e mamãe, algumas das minhas irmãs cantoras de igreja se ajuntavam ao redor de um violão, sempre limpo, sempre afinado, sempre pronto para acompanhar a voz macia, doce, porém firme da minha mãe. 

 

Sempre pronto para acompanhar o coral de filhas, de netos/as, de genros e noras, de bisnetos/as... Papai e seus inseparáveis instrumentos estavam sempre prontos. Instrumentos filhos, ele os paria. E os mimava, e os ensinava a cantar as mais lindas melodias, os mais belos chorinhos, os mais animados forrós...

 

Na simples grandiosa celebração natalina da família Almeida todo mundo participa. 

Há um trecho da celebração escrita por mamãe para cada um. 

Há passagens bíblicas a serem proferidas.

Há quem cante, quem toque, quem puxe a música ou a oração.

Há reflexões, pedidos, agradecimentos...

 

Esse ano haverá saudade, lágrimas, lembranças... Muitas...

Haverá coral choroso desacompanhado de cordas que tanto alegraram e harmonizaram nossos fins de tarde, nossas confraternizações, nossas noites de dia comum na varanda de casa.

 

Cantaremos fora do tom. Cataremos sem cordas, sem a presença de nosso pai, sem a presença de seu violão e de sua voz... 

Mas cantaremos para celebrar seu legado, cantaremos para celebrar a família que ele e mamãe souberam construir, cantaremos por sua memória, cantaremos emanados/as de orações, bons sentimentos e amor, mesmo que desafinados/as, mesmo que sem cordas, para que seu espírito celebre esse Natal junto conosco.

 

A você, nosso pai, dedicaremos cada oração, cada pensamento e cada nota da noite de hoje. 

A você, nosso pai, dedicamos este poema de Manoel de Barros: 

 

A voz do meu pai
 

Abro os olhos.

Não vejo mais meu pai.

Não ouço mais a voz de meu pai.

Estou só. Estou simples.

Não como essa poderosa

voz da terra

com que me estás chamando, pai —

porque as cores se misturam

em teu filho ainda

e a nudez e o despojamento

não se fizeram em seu canto;

mas, simples por só acreditar

que com meus passos incertos

eu governo a manhã

feito os bandos de andorinha

nas frondes do ingazeiro.

 

Bom Natal a todas as pessoas que me leem e as suas famílias também.