Bia Crispim

31/12/2021

 

2021 Merece uma Retrospectiva 

 

Durante esse ano escrevi sobre assuntos diversos e, apesar de uma série de turbulências, acredito que vale a pena fazermos uma retrospectiva de 2021, assim como fizera no ano anterior. Se você ficou com uma pulga atrás da orelha pra saber como fora o ano, confira a coluna “E 2020, COMO FOI?”, publicada na plataforma do Potiguar Notícias em 01 de janeiro de 2021.

Esse ano, a primeira coluna de janeiro trouxe à tona informações sobre o mês lilás, mês da Visibilidade Trans e de jogar todos os holofotes para as pautas dessa comunidade. “A necessidade dessa celebração é uma das maneiras de tornar a população Trans e suas pautas, enquanto cidadãos e cidadãs, visíveis à sociedade brasileira. E também uma forma dessa comunidade construir e reivindicar direitos básicos que ainda não são assistidos a ela.” – afirmo naquela coluna.

Ainda, naquele mês falei sobre “COMO A LETRA “T” ENTROU E MODIFICOU A SIGLA “GLS” E O ATUAL MOVIMENTO LGBTQIA+” e apresentei as ações das “ONG’s LGBTQIA+ POTIGUARES” em duas colunas seguidas nas quais destaco um pouco da história de luta e resistência dessas associações. Chamo a atenção em uma delas para o fato de que “Apesar de muita coisa ter sido feita, ainda é pouco diante de tudo aquilo que foi retirado dessa população, principalmente as trans/travestis, no tocante a direitos e à cidadania”.

Começo fevereiro com um manifesto falando de como a sociedade nos (pessoas Trans) isolam. Lá eu digo “Isolaram-nos. Isolamo-nos. Formamos guetos e de alguma maneira procuramos nos defender. Existimos e resistimos. Apesar dos olhares, das risadinhas, das cotoveladas, e dos apontamentos que só as Travestis, solitárias que andam nas ruas, durante o dia sentem. (Porque só à noite a sociedade nos aceita. Porque só à noite temos o que oferecer a ela.)/ Percebem?! Não foi a pandemia que nos isolou. (Foi) É o preconceito, a indiferença, a exclusão e a falta de empatia que nos isolam há tempos.”

A pandemia estava me fazendo, naquele momento, pensar muito sobre as perdas, os isolamentos, as tristezas e as saudades. Daí eu trouxe uma narrativa chamada “DE VOLTA À PRAÇA”, em que eu trago esses sentimentos, mas também falo de esperança. Falo também como professora, mais uma vez esperançosa com o possível retorno às aulas presenciais e termino o mês dando um adeus à Lorena, travesti que em procedimento para implante de próteses mamárias foi “abandonada pela equipe da clínica, (durante um incêndio) inalando uma alta quantidade de fumaça e gás carbónico”.

Inicio março dialogando com minha amiga, também colunista do PN, Ana Paula Campos, que trouxe naquela semana um título provocador: “Vamos brincar de matar pessoas?”, o que me fez escrever uma coluna sobre as mortes que não são virtuais, mas reais quando falamos de pessoas Trans/Travestis. “Os requintes de crueldade, o descaso social e a impunidade para com os agressores e assassinos banaliza essas mortes. É como se a sociedade estivesse se livrando de algum tipo de peste.” – afirmo. Ainda publiquei mais sobre mortes de pessoas Trans/Travestis no Brasil, mas para não deixar o mês tão carregado falei sobre metáforas e escrevi uma “CARTA A CLARICE” (Lispector? – Sim!)

Em Abril falei sobre Transfeminismo, sobre a abordagem dos travequeiros que nos (mulheres Trans/Travestis) veem apenas como objetos sexuais para seus fetiches; trouxe à tona uma reflexão sobre como a arte é uma ferramenta potente de cura para nossos monstros pessoais; fiz também uma homenagem a minha mãe (abril é mês de seu aniversário) e finalizo o mês com uma resposta revoltada àqueles que estavam chamando os professores e as professoras desse país de vagabundos/as.

Inicio maio dando um adeus para o ator Paulo Gustavo; depois falo sobre o dia 15, que é o dia do Orgulho de Ser Trans/Tavesti. Faço ainda uma menção ao apoio que a comunidade LGBTQIA+ recebeu do PT ao longo dos anos, e finalizo com a provocação sobre a existência de crianças Trans: “Crianças Trans existem e precisam da ajuda de todas as pessoas para que não se tornem adultos inexistentes.” (Fica o alerta e o pedido de cuidado para essas crianças.)

Junho se inicia com uma homenagem a minha avó, há 21 anos ausente, minha GRANDE LEOA. Depois me revolto com a filha de Silvio Santos que se fez de ignorante na TV sobre a comunidade LGBTQIA+. Volto a tratar sobre o assunto das crianças Trans e finalizo o mês para ALÉM DO ARCO-ÍRIS alertando que nossas existências estão para além do mês do orgulho. “A verdadeira e genuína visibilidade, o real respeito dar-se-ia com nossa normatização, com nossa ocupação efetiva no mercado de trabalho, com nossa garantia de direitos, com nossa permanência nas escolas e universidades, com o fim do nosso medo de existir dentro de uma sociedade tão LGBTIA+fóbica.”

Lá se foi metade do ano... E haja assunto, hein?!

O pontapé inicial de julho é dado contra um apresentador homofóbico que destilou ódio e preconceito em seu programa sensacionalista. Apresento um levantamento feito pela ANTRA – Associação Nacional de Trans e Travestis –  acerca dos números de mortes no 1º semestre. Aplaudo a iniciativa da FRENTE NACIONAL TRANSPOLÍTICA, assim também como o TRANSCIDADANIA e finalizo com um grande desabafo: “Se por um lado o ódio produz intolerantes, assassinos, pessoas cruéis e desumanas, por outro ele produz, vítimas, extermínios, pânico, medo, insegurança. Ele produz adoecimento mental, síndromes de convívio social, inferiorizações e baixas autoestimas... Não produz nada de bom, em nenhum dos casos./ Porém, da mesma forma que esse ódio nos chega diariamente, há também os discursos de amor, que também nos chegam e que são tão poderosos, tão arrebatadores e certamente bem mais eficazes que aqueles que produzem (des)humanidades.”

Agosto também é um mês lilás, mas dessa vez essa cor está ligada às questões sobre a violência contra a mulher. Além de trazer essa discussão falo também das relações que permanecem ou não “QUANDO UMA TRAVESTI SE REENCONTRA COM AMIGOS DE INFÂNCIA”. Levanto a discussão acerca da genitalização das pessoas e finalizo com uma crítica a programas de TV.

O “DESABAFO DE UMA EDUCADORA” dá o start em setembro. Seguido de uma homenagem ao meu pai, que partira há poucos dias antes de escrever a coluna daquela semana tão dolorida e estranha. A falta de assunto, o branco que dá na cabeça de quem escreve de vez em quando. Fecho o mês falando sobre a “VERGONHA” que nos (LGBTQIA+) ensinam a ter de nossa existências, mas que precisamos transformá-la em orgulho. 

Outubro começa, mais uma vez, com uma revolta, agora contra a falácia da ideologia de gênero e contra as pessoas que a propagam. Uma reflexão sobre artistas LGBTQIA+ e sua própria comunidade e a relação entre produção e consumo da arte LGBTQIA+ foi levantada. Falo também do prazer de reencontrar uma ex-aluna como minha professora na pós e a maravilha que é essa inversão de papéis. Cito o caso da Travesti que foi enterrada como homem e  faço uma crítica mais uma vez aos discursos de ódio por parte dos poderosos para com pessoas Trans/Travestis.

Minha maternidade felina entra em pauta no comecinho de novembro, falo da minha relação com meus 11 gatos e o quanto isso me faz bem. Também tive que dizer a uma amiga, diante de seu assombro ao me ver ser tratada por “SENHORA” que: “O respeito é algo que aprendi a ter (por mim e pelo outro) e a ensinar enquanto profissional de educação. Sei que quando entro em uma sala de aula nova, a primeira lição que ensino é que nem todos são iguais; a segunda, que uma Travesti pode ser professora ou o que ela quiser; a terceira, que o respeito mútuo será um ingrediente essencial para conduzirmos não só nossas aulas, mas para construirmos boas relações dentro e fora da escola.” Falei também das nossas “ARMADURAS”, do quanto a vida pode nos encouraçar e termino com um conto erótico. (Ousada, ela, hein?!)

E dezembro? Até semana passada foram quatro colunas. Na primeira exponho a experiência de junto com o Coletivo de Mulheres Chá das Marias de Parelhas/RN, mobilizar a sociedade numa marcha contra o feminicídio. Em seguida, falo sobre amar ao próximo, independente de quem ele seja (Ensinamento muito grandioso, sobretudo no mês do nascimento de Cristo, não acha?!). Para quem não está nem aí para os/as professores/as, escrevi um relato desembestado, sem vírgula ou ponto para retratar nossa correria de final de ano. E na semana do Natal, chorei e celebrei junto com os meus o nosso pai que partira em setembro.

Quer ler tudo de novo? Acesse a coluna de Bia Crispim no Potiguar Notícias.

No mais, desejo a todas as pessoas que me leem um grandioso novo ano. E que nós, apesar de nossas perdas e desalentos, apesar das pedras no caminho, saibamos aprender e crescer. Que nos amemos mais, que nos humanizemos mais!

Felicidade, paz e amor!