Andreia Braz

04/01/2022

 

Um réveillon inusitado

Eu não tinha planos de sair de casa no dia 31 de dezembro, mas um convite de última hora acabou mudando o rumo das coisas. Um amigo do meu namorado nos convidou para ver a queima de fogos na Praia dos Artistas. Na verdade, a queima de fogos aconteceria na Ponte Newton Navarro, entre a Praia do Forte e a Redinha, pois a tradicional queima de fogos só foi realizada em dois locais, sendo o outro a Praia de Ponta Negra. Detalhe: em conversa com Lula no dia anterior, presumi que ele não queria sair no réveillon e/ou que preferia ficar sozinho. Confesso que isso me deixou meio desapontada porque costumamos nos ver às sextas-feiras e aos sábados, e o réveillon caiu justamente numa sexta, assim como o Natal. Mas tudo não passou de um mal-entendido, causado talvez pela distância da comunicação virtual. 

Voltemos ao convite para o réveillon. Eu e Lula chegamos mais cedo na praia e decidimos ficar em um restaurante esperando Gilney. Foi uma ótima ideia porque conversamos bastante e assim pude conhecer mais um pouco de sua história de vida. Afinal, começo de namoro também é isso, tempo para se conhecer, se (re)descobrir e descobrir o outro. Nesse aspecto, temos uma relação incrível. Somos pura sintonia. Costumo dizer que nosso namoro é fruto de um encontro de almas. Lula adora conversar e nossos papos são muito estimulantes e cheios de aprendizado. Ah, e quase sempre muito divertidos também. Aliás, ele faz tantas brincadeiras que às vezes preciso perguntar se está falando sério. Ele tem sido meu melhor interlocutor nos últimos tempos, além de um porto seguro nos dias incertos. Ele é colo, afeto, presença. 

Mas a melhor parte da noite ainda estaria por vir. A presença de Gilney tornou o passeio muito mais divertido. Quando chegou ao restaurante, foi logo tirando uma garrafinha de cachaça do bolso e bebendo a primeira dose. Era uma cachaça paraibana cujo nome não me recordo. Ficamos um tempo por lá conversando antes da queima de fogos. Quando o restaurante fechou, nos dirigimos até a orla.

Havia mesas e cadeiras por toda a extensão da orla e um grande número de vendedores ambulantes comercializando todo tipo de comida, desde churros, cachorro quente, sanduíches, tortas doces e salgadas, pipoca, maçã do amor... Em alguns momentos, o lugar me fez lembrar uma festa de interior, daquelas com parque de diversão e tudo. Um clima tranquilo e festivo. Além dos ambulantes, havia algumas mesas com famílias compartilhando a ceia de Ano-Novo. Mesas fartas, bebidas e comidas diversas. Gente alegre, sorridente, embalada pela música que invadia a praia. Sofrência, forró, sertanejo, brega funk, pancadão. Tinha música pra todo gosto.

Apesar do clima festivo, não pude deixar de observar o descaso com aquele lugar, calçadas esburacadas, bancos danificados, falta de acessibilidade para pessoas com mobilidade reduzida, ausência de banheiros públicos e outros problemas estruturais que já deveriam ter sido resolvidos há tempos. Um abandono total. Com uma reforma, e manutenção do local, a orla ganharia novas cores e poderia atrair muito mais potiguares e turistas que visitam a cidade. Comparando o lugar com outras praias do Nordeste, Lula citou a orla de Tambaú, em João Pessoa, que é superbonita e bem cuidada. 

Voltemos à programação do réveillon. Nossa primeira parada foi uma barraca de cachorro-quente, que Gilney pediu para “cortar em quinze pedaços” e comeu de garfo e faca, enquanto saboreava uma cerveja bem gelada. Ficamos ali por um tempo conversando e cantando algumas músicas da Legião Urbana (“Eu sei”, “Teatro dos vampiros”, “Eduardo e Mônica”). Depois, Lula recordou algumas histórias engraçadas com Gilney e a turma deles (Tânia, Beto, Simone, Laudecy, Aluizio). A história dos cachorros foi a melhor de todas. Às vezes, me pego rindo sozinha quando lembro dessa e de outras histórias contadas naquela noite. Há alguns anos, eles estavam em uma casa de praia e Lula acordou mais cedo e ficou na frente da casa enquanto a galera dormia. Quando observava alguns cachorros que passavam em frente à residência, chegou Gilney e, depois de alguns minutos de conversa, aos prantos, declarou: “eles não estão aqui por acaso”.

A segunda parada foi num quiosque onde estava tocando Marília Mendonça. clássicos como “Infiel” e “Todo mundo vai sofrer” animavam a noite de quem esperava a entrada do novo ano. No quiosque vizinho estava tocando João Gomes. Sofrência e piseiro dividindo o coração dos fãs. Nos divertimos muito nesse momento e até um fato inusitado aconteceu: Gilney caiu da cadeira e levou a mesa junto. Foi copo e cerveja pra todo lado. Felizmente, ele não se machucou (a queda foi na areia), e ainda garantiu boa parte das risadas da noite. Foi impossível não rir daquela situação. Ele levantou completamente desorientado e perguntou: “O que foi que houve?”. Enquanto estava se recompondo, Lula perguntou: “Já vai, amigo?”. Caímos todos na gargalhada.

A terceira e última parada foi no calçadão. Lula queria tomar uma água de coco e Gilney resolveu gravar um vídeo de Chica Preta, a simpática vendedora que nos atendeu. Foi muito divertido esse momento. Quando foi interrompida por Gilney, ela falou: “deixe eu contar minha história”. Nos contou que, apesar de tudo, era uma pessoa feliz e estava alegre por estar ali trabalhando naquela noite, mesmo com um problema de saúde. Ela tem 62 anos e vive nas imediações da praia. Falou também da esperança em dias melhores e da necessidade de adquirir novas caixas de isopor para comercializar seus produtos. Com alegria, nos disse que algumas pessoas estão fazendo uma vaquinha para comprar um novo carrinho no qual voltará a vender seus lanches e bebidas. Aquela mulher é o retrato do Brasil. 

Sua fala me fez lembrar uma declaração de Ariano Suassuna sobre as festas populares do Brasil. Segundo ele, dizem que “o povo brasileiro é irresponsável porque passa fome e se veste bem no carnaval”. Na visão do escritor, no entanto, essas festas são “um protesto do sonho contra a injustiça. Eles estão mostrando que têm direito a uma vida digna e justa”. 

A fala de Chica Preta me fez lembrar também uma canção de Gonzaguinha, “E vamos à luta”, que retrata muito bem o nosso povo, pessoas como ela, que trabalham duro, levam uma vida de sacrifício e luta, são vítimas da desigualdade e da injustiça de um país que agride e mata pessoas pela cor de sua pele, sua religião ou orientação sexual, e mesmo assim estão sempre com um sorriso no rosto e o coração cheio de esperança. Sem falar na solidariedade, uma das características mais marcantes do nosso povo.  Refiro-me a estes versos de Gonzaguinha: “Aquele que sabe que é negro / o coro da gente / E segura a batida da vida o ano inteiro / Aquele que sabe o sufoco de um jogo tão duro / E apesar dos pesares ainda se orgulha de ser brasileiro”.

Ao final da noite, quando voltávamos para casa, fiquei pensando no quanto foi especial aquele momento. Por mais lugar-comum que seja essa declaração, o que eu enxerguei ali, especialmente, foi o valor das coisas simples e a felicidade de poder vivenciar momentos como aqueles junto a quem se ama. Afinal, como disse Guimarães Rosa, “Felicidade se acha é em horinhas de descuido”. Lula pensa da mesma forma e até conversamos sobre isso pouco tempo antes de sairmos da praia. Quando nos despedimos de Gilney, agradeci novamente pelo convite e pela noite agradável que compartilhamos juntos. 

Para finalizar esta crônica de Ano-Novo, algumas palavras para o meu garoto, em agradecimento a essa noite tão divertida e inusitada que marcou nosso primeiro réveillon juntos. Que essa seja a tônica dos nossos dias, meu amor. Que os dias sejam leves, ensolarados, cheios de afeto e esperança. E nos dias cinzentos que não faltem abraços, sorrisos, música, poesia... Que esse seja o prenúncio de um novo ano. Que seja, também, o prenúncio de um novo tempo. Um tempo onde possamos ser quem somos e vivenciarmos a simplicidade/grandeza de momentos como aqueles. Obrigada por estar comigo nessa caminhada, meu bem. Sigamos. Feliz Ano-Novo!