Daniel Costa

06/01/2022

 

FANTASMAS DA JUVENTUDE

Ele falou que está ficando velho. Aí bateu aquela tristeza. Logo o cara que sempre destilou um ar de eterna juventude à moda Dean Moriarty, cheio de viagens e histórias pra contar. Certamente ele não sabia que a sua maneira de passear pela vida contaminava os outros, e que durante os momentos em que eu o ouvia falar sobre as garotas que se vestiam bem e atiravam centavos aos mendigos, sentia-me tomado pela sensação de entrar numa máquina do tempo e voltar ao passado, quando as infinitas portas da existência estavam abertas e tudo parecia se encontrar ao alcance das mãos. 

É possível que a tristeza, e até mesmo o choque que experimentei ao ouvir suas palavras, tenham ocorrido porque me vi refletido no espelho daquela constatação. É como se o pouco que ainda sobrasse da minha própria juventude tivesse entrado pelo ralo no exato momento em que ele solenemente declarou a vitória do tempo. De forma que agora só conseguirei me aproximar da garotada com um certo distanciamento, com medo de ser considerado uma espécie de Gustav von Aschenbach. 

Mas eu o compreendo. Os dias seguem obstinadamente em direção ao grand finale e é melhor não ficar parado. É preciso tocar nos fios brancos da barba, procurar outros caminhos, reinventar e reivindicar outros espaços e formas de viver. Até mesmo porque, como dizia Nicanor Parra, “as cartas por jogar são somente duas: o presente e o dia de amanhã. E nem sequer duas, porque é fato estabelecido que o presente não existe, senão na medida em que se torna passado...como a juventude”. 

Agora, eu tenho quase certeza de que o meu bom amigo, aquele que cantava a plenos pulmões “Bell Bottom Blues”, apenas ainda existe na minha memória. É por isso que hoje sou capturado pela sensação de que nunca mais o encontrarei, mesmo que saia por aí a sua procura, todas as noites, de bar em bar, flanando entre os fantasmas da juventude.