Wellington Duarte

08/01/2022

 

Você sabe o que é nojo de classe?

Candelária. Bairro de classe média, com uma população próxima dos 27 mil habitantes, uma renda média mensal de R$ 5.200,00, bem acima dos R$ 1.210,00 de Natal.

Candelária. Hora do Pão, uma conveniência bem localizada, na Prudente de Morais, onde pessoas de classe média a frequentam.

Chego na Hora do Pão, final da tarde, por volta das 18 horas. Estaciono meu carro e sou abordado educadamente por um homem que aparenta uns 40-45 anos, que pede “perdão” para se aproximar de mim, e diz que SE eu puder, dê-lhe uma ajuda monetária. Eu dialogo com ele. Digo que não uso mais dinheiro vivo. Pergunto se posso trazer comida, e ele diz “tudo bem senhor!”.

Me volto para entrar na padaria e o mesmo homem se dirige a uma mulher que dirige um Honda Civic, carro de classe média, para lhe pedir uns trocados, e tenta ajudá-la a fazer manobra. A mulher, de maneira ríspida, diz que “é piloto” e não precisa da ajuda dele. E sai rasgando pneu numa ruela pequena. Nos dois nos olhamos em silêncio.

Vou na conveniência e compro alimentos para o homem. Coisa simples: pão, mortadela, salsicha e refrigerante, cujo valor não chega aos R$ 50, o mesmo valor de 5 cervejas. Quando chego ao carro, o homem se aproxima e eu aperto sua mão e lhe dou a comida. Ele fica surpreso. Diz que é padeiro e confeiteiro. Em seguida chama uma outra pessoa, que se aproxima timidamente. Este parece estar na faixa dos 50 anos. É um professor de biologia. Eu estendo a mão e ele hesita, mas acaba apertando.

Homens na faixa produtiva de trabalho, com profissões definidas, vivendo na rua. Nunca os tinha visto por ali. Mas em frente a essa conveniência já vi meninos que pediam comida “para levar para casa”, famílias inteiras que pareciam estar com medo de se aproximar das pessoas.

Mas o que sempre me chama a atenção é a falta de empatia dos chamado “classe média”. Certamente essas pessoas são religiosas, frequentadoras de missas ou cultos, que se acham “pessoas de bem”, letradas, o que não significa ser inteligente. Essas pessoas olham esses novos pedintes com um olhar repulsivo. Como se essas pessoas merecessem estar ali.

Os que lá frequentam certamente tem renda. E uma renda razoável, na maioria dos casos. Não tem a mínima ideia do que é “passar fome”. No máximo “ficam com fome”. Tem um teto.

Eu observo. Esse é o nojo de classe, uma versão sombria da luta de classes, que surgiu nesse país desde que se instalou no país um governo que se dedicou a destruir as estruturas estatais. O ogro que chegou em 2019, achou pouco. Ele se dispôs a destruir a própria população.

Espero que um dia eu veja que não há mais pedintes na porta da conveniência., mas só com uma profunda revolução cultural, os “classe média” se tornarão humanos novamente.