Andreia Braz

11/01/2022

 

Louvor de Nelson Patriota – Parte I

 

Escrevemos porque não queremos morrer. Esta é a razão profunda do ato de escrever.

José Saramago

 

No dia 06 de janeiro, Dia de Reis, completou-se ano da partida do meu amigo Nelson Patriota. Talvez um sinal de que sua partida não deve ser lembrada com tristeza, mas com gratidão por tudo que ele foi, produziu e viveu em seus 71 anos de existência e também pelo privilégio de tê-lo como amigo e parceiro de trabalho. Isso me fez lembrar uma declaração de Jorge Luis Borges: “[...] Bergson já dizia que a memória é seletiva, que a memória escolhe. Em meu caso, prefere escolher as felicidades”. Afinal, ele soube aproveitar o melhor da vida e desfrutou de viagens, eventos culturais, momentos partilhados com os amigos e familiares, sempre regados a um bom vinho e um prato saboroso. Não dispensava uma boa carne: costelinha suína e carneiro estavam na sua lista de preferência. Também apreciava um bacalhau à portuguesa e uma galinha guisada. Sempre equilibrado, não dispensava os legumes cozidos/assados e uma boa salada, regada a azeite e limão.

Nelson era um apreciador da boa mesa. Conhecia os melhores queijos e vinhos e sabia combiná-los perfeitamente. Sempre lembrava com carinho e saudade os jantares preparados pelo amigo Pedro Vicente Costa Sobrinho, que nos deixou há alguns anos, e os encontros na casa dele, na companhia da esposa e de outros amigos. 

Viajar era outra de suas paixões. Todas as vezes que voltava de São Paulo, me contava as novidades da pauliceia e tudo que estava rolando por lá em termos de concertos, filmes, peças de teatro. Era tão bom escutar seus relatos de viagem! Eu ficava imaginando cada passeio dele e morrendo de vontade de conhecer aqueles lugares. Um deles é a Sala São Paulo, localizada no histórico prédio da Estrada de Ferro Sorocabana, sede da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (OSESP), uma das mais importantes casas de concertos e eventos do Brasil. Amante da música clássica, sempre assistia a algum concerto quando estava na terra da garoa. Outros dois lugares que ele amava: a Livraria Cultura do Conjunto Nacional e o Cine Belas Artes. Lembro, também, do seu encantamento com o Museu da Língua Portuguesa, onde esteve dois dias antes de o local ser atingido por um incêndio, em 2015. Eu já havia comprado minha passagem para visitar a exposição “Câmara Cascudo – O Tempo e eu (e vc)”, que estava abrigada no local e foi totalmente destruída pelo fogo. Aquele seria também o momento de visitar meus primos que vivem na cidade e minha irmã caçula, Cristina, que à época morava lá. Acabei desistindo da viagem. Em 2017, finalmente, consegui visitá-los e conhecer Sampa. Foram tantas alegrias, descobertas, partilhas, reencontros... Na companhia do meu sobrinho Lucas Cavalcanti, fui ao Cine Belas Artes, à Livraria Cultura, conheci a Vila Madalena, o Parque Ibirapuera... 

Retornemos às viagens de Nelson. De volta à província, imediatamente me convocava para nosso almoço semanal. A convocação irrecusável chegava por e-mail ou WhatsApp, sempre no mesmo horário, às 10:30. Com uma pontualidade britânica, às 12h me aguardava para o almoço, seguido de um café com os amigos da confraria. Nessas ocasiões eu sempre ganhava um livro de presente. O último que ele me trouxe foi Veneno antimonotonia: os melhores poemas e canções contra o tédio (Objetiva, 2005), organizado por Eucanaã Ferraz. Leitura necessária para esse momento incerto que vivemos, uma boa dose de poesia e delicadeza. Poemas escolhidos, de Emily Dicknson, e um volume de crônicas de Martha Medeiros, Quem diria que viver ia dar nisso, também compõem esse acervo lítero-sentimental. 

No meu aniversário de 39 anos, ele me presenteou com três obras que havia lido recentemente: Ascensão, de Stephen King, A paciente silenciosa, de Alex Michaelides, e Só garotos, de Pathy Smith. Lembro exatamente da frase que ele disse ao me entregar os exemplares: “Acho que você vai gostar muito desses livros, Andreia”. A rotina extenuante de trabalho e outras obrigações cotidianas não me permitiram ler tais obras a tempo de conversar com ele. Aliás, acho que essa é uma angústia de todo leitor, os livros ainda não lidos. Tantos assuntos/vivências ficaram pendentes... Que saudade das nossas conversas sobre literatura, meu amigo! 

Eu amava escutá-lo falar sobre suas paixões literárias, sempre nos convencendo a querer devorar aqueles livros todos que ele lia. Foi assim com Elena Ferrante, Murakami e tantos outros autores que ele me apresentou, inclusive autores potiguares como Américo de Oliveira Costa, Renard Perez, Otacílio Alecrim. Sua paixão pelos livros era algo contagiante. Aliás, ele sempre reforçava a importância da leitura tanto para o ofício da revisão como para a escrita. Afinal, “sem ler ninguém escreve”, como diz Saramago. Mas Nelson também lembrava algo fundamental sobre o fazer literário: “a matéria da literatura é a vida”. Eu achava a coisa mais linda quando ele dizia isso.

Quando falou do romance holandês Tirza, de Arnon Grunberg, alguns amigos da confraria não resistiram e compraram o livro. Eu tomei emprestado o dele. Lembro das nossas conversas empolgantes sobre a narrativa e a ansiedade para saber o que aconteceria a cada novo capítulo. Eleito pela revista De Groene Amsterdammer como o romance mais importante do século XXI, “Tirza é, ao mesmo tempo, um romance assustador e fascinante, divertido e sinistro, a história de um homem em desesperada, embora inútil, busca por salvação”, diz a resenha da obra disponível no site da Amazon. 

Embora não seja fácil aceitar a partida dos que amamos, com o passar do tempo, a saudade vai ocupando o lugar da tristeza e as boas lembranças vão preenchendo nosso coração. Nada substitui a presença de um amigo, sabemos, mas as recordações do que vivemos servem para aplacar a dor lancinante da partida. Vez por outra, me pego escutando Chico e lembrando de você, aí a gente se encontra “num tempo da delicadeza” e você me diz “que a vida ainda vale / O sorriso que eu tenho / Pra lhe dar...”. Agora estou lendo algumas declarações de José Saramago sobre o ofício do escritor e imagino o quanto você iria gostar desse livro, adquirido naquelas feiras a que costumávamos ir juntos no shopping. Uma relíquia. Organizada por Fernando Gómez Aguilera, As palavras de Saramago: catálogo de reflexões pessoais, literárias e políticas, é uma publicação da Companhia das Letras.

Assim, evocar a presença de Nelson Patriota é também uma forma de agradecer por ter desfrutado do seu afeto e de sua amizade. Nelson foi um amigo no sentido mais profundo desse termo. Conhecia meu âmago e, sendo ele tão introspectivo, gostava do meu jeito espontâneo e sempre dizia que admirava meu entusiasmo perante a vida, minha alegria... E quantas vezes gargalhamos juntos com histórias divertidas e situações inusitadas! Talvez isso defina a amizade, essa sensação de completude/aceitação em meio a tantas lacunas e tantas imperfeições. “E como sempre singular comigo. / Um bicho igual a mim, simples e humano”, no dizer do mestre Vinicius, em seu “Soneto do Amigo”.

Para finalizar meu preito de saudade, dedico-lhe este poema de Zila Mamede, escrito em homenagem a Manuel Bandeira:

 

Penso-te

como quem sonha uma estrela

que inventou na madrugada

e no desejo de guardá-la

viva.

Penso-te

como o claro silêncio permanente

da neve,

como a branca surpresa

de uma flor nascente.

Meu pensamento ama-te.