Ana Paula Campos

12/01/2022

 

NÃO QUERO MAIS ESCREVER 

Já faz um tempo que venho me sentindo assim. Sei que em um primeiro momento a impressão que dá é que estou desistindo da coluna, mas não se trata disso. Ando cansada de escrever. Não da tarefa em si. Eu gosto de escrever. Também não se trata de não saber sobre o que escrever. Eu sei. Só não quero. 

Pode parecer confuso para algumas pessoas e talvez seja mesmo. O fato é que, para pessoas negras, escrever é sempre um ato de reviver dores e traumas do passado – mesmo do presente, porque somos violentades constantemente – e reviver tudo isso nunca é fácil. Cada vez que me proponho a escrever sobre um assunto, ele sempre vem carregado de dores que, na maioria das vezes, não estão curadas. O fato de alinhar as ideias para expressar tudo na escrita é doloroso e cansativo. 

Eu até compreendo que seja um ato altruísta, uma vez que outras pessoas, em alguns momentos, leem e se identificam com os escritos e talvez isso possa ajudar no processo de cura de outres leitores também, mas eu, sinceramente, não gostaria de ter que carregar esta missão comigo. Ando cansada. 

Desde a virada do ano, venho me isolando mais. Não só fisicamente, mas principalmente mentalmente. Praticamente não entro nas redes sociais e evito falar com as pessoas sobre questões mais sérias e polêmicas. Em contrapartida, venho cada vez mais ocupando meu tempo com a leitura dos livros que estavam na fila. Não sei se fiz a melhor escolha agora porque, dependendo dos livros que leio, gatilhos são ativados e memórias retornam com força total. Dores e traumas que eu julgava sanados, não estão nem perto disso. Cada memória vem carregada de pessoas que eu, sinceramente, gostaria de esquecer. 

Com a sensação de que minha cabeça vai explodir, se eu não dividir isso com alguém, ponho-me a escrever, confiando em quem está lendo. Acreditando que encontrarei um colo sensível e uma escuta generosa, ainda que virtual e tantas vezes desconhecida, escrevo. Parece que, por mais que sejamos fortes ou queiramos nos proteger do contato com pessoas que podem nos ferir, acabamos recorrendo a elas em um processo de refúgio. Irônico, né? 

Ando cansada. Parece que tenho que de me explicar sobre tudo. Justificar falhas, acertos, conquistas, derrotas, atitudes, desejos. Não sei se a escrita é um processo de cura, como eu pensava. Pelo menos não está sendo comigo. Ou quem sabe esse processo seja dolorosamente longo e eu precise expurgar a dor ainda por alguns anos, até, literalmente, vencer minhas dores pelo cansaço. 

Escrever, comumente me tira do estupor que estou tentando me impor. Obriga-me a compreender situações e até mesmo perdoar pessoas que nesse momento eu não pretendo. Quero manter a raiva e a mágoa bem vivas. Pode ser que assim, tudo isso sirva como um escudo de proteção contra outras pessoas más. As pessoas não são más deliberadamente. Pelo menos eu não acredito nisso. Mas elas acabam nos ferindo com as lascas do que está quebrado nelas. Eu mesma faço isso todos os dias, enquanto tento juntar meus cacos. 

Mas aqui estou eu, lembrando-me da dor que causei a pessoas queridas. Lembrando-me que quero ficar escondida no meu mundo particular. Estou aqui mais uma vez, lembrando que está doendo e eu queria tanto esquecer que dói...