Wellington Duarte

04/02/2022

 

Moïse Kabamgabe, mais uma vítima da “barbarização” desse país

Moïse morreu porque trabalhou. Morreu porque trabalhou e, ao que tudo indica, não teria recebido pelo trabalho, cerca de R$ 200,00. Morreu porque, ao cobrar pelo que trabalhou, fez explodir a fúria assassina de três pessoas. Os assassinos contestaram que o motivo teria sido a pagamento pelo trabalho, posto que o jovem não trabalhara no quiosque nas últimas três semanas. Pelo que se viu nas câmeras de segurança, Moïse morreu porque “merecia” morrer. Aliás, um dos três assassinos, praticante de jiu-jitsu disse à polícia ter a “consciência tranquila”.

Moïse, mesmo desacordado, continuou a ser espancado selvagemente. Moïse morreu como se estivesses nos antigos matadouros, cujos animais morriam de forma inumana. O corpo ficou lá, estendido no chão, e o atendimento continuou, lembrando a música “De Frente pro Crime”, de João Bosco, que começa com “tá lá o corpo estendido no chão”. E lá ficou. O atestado de óbito traz como causa da morte traumatismo do tórax, com contusão pulmonar causada por ação contundente.

Moïse e sua família fugiram, em 2014, da guerra civil que assola a República Democrática do Congo. Fugiu porque tinha medo de morrer lá. Morreu aqui. Não pelo ódio produzido por uma guerra civil, mas pelo ódio que se espalhou pela sociedade braZileira. Matar se tornou mais comum do que se imagina, afinal o próprio presidente da república é servo da Morte.

O crime hediondo pode entrar no rol do “racismo estrutural”? Moïse morreu por ser negro? Morreu por ser negro e pobre? Morreu por ser negro, pobre e estrangeiro? Num país em que 80,0% dos negros assassinados são vítimas de racismo, e as chances de ser morto porque é negro, são 2,6 vezes maiores do que brancos, além do fato macabro de que a cada 23 minutos morre um jovem negro no BraZil, provavelmente poderemos cravar que Moïse tinha muita chance de morrer violentamente nesse país.

“Racismo estrutural” é a formalização de um conjunto de práticas institucionais, históricas, culturais e interpessoais dentro de uma sociedade que frequentemente coloca um grupo social ou étnico em uma posição melhor para ter sucesso e ao mesmo tempo prejudica outros grupos de modo consistente e constante causando disparidades que se desenvolvem entre os grupos ao longo de um período. É um conjunto de práticas, hábitos, situações e falas enraizadas em nossa cultura, promovendo direta ou indiretamente, a segregação e preconceito racial.

Será que Moïse, Moisés em francês, não foi assassinado pela inoculação do ódio nesses assassinos das práticas, falas e hábitos, que identificam o negro como um “cidadão perigoso”? Será que se esse jovem fosse um branco, teria sofrido a mesma selvageria? Um branco pobre é “quase negro”, mas acredito, como um quase leigo nas leituras do racismo, que provavelmente o jovem branco teria tido melhor sorte.

A morte brutal do jovem congolês mostra o quanto esse país foi rebaixado na escala civilizatória.  Em poucos anos nos tornamos um país que saboreia a Morte, que festeja a Morte e que anseia pela Morte do outro.

É preciso “recivilizar” esse país.