Wellington Duarte

25/02/2022

 

Ucrânia: mocinho contra vilão ou recomposição da nova ordem mundial?

Uma guerra na Europa moderna não é novidade. Entre março de 1991 e novembro de 2001, uma sangrenta guerra civil ocorreu nos Balcãs, que deixou entre 140 mil e 200 mil mortos. Esse cataclismo civilizatório ocorreu na Iugoslávia, um país que abrigava diversas etnias e que, em meio a crise do “mundo soviético” e de uma fortíssima crise econômica, sua estrutura estatal ruiu e as diversas repúblicas entraram em guerra civil. Portanto, há apenas 22 anos no “berço da civilização ocidental”, ocorreu um banho de sangue sob a vista grossa dos “ocidentais”. 

Sem sair da Europa, problemas étnicos e/ou fronteiriços já tiveram como consequências violências localizadas, como no caso dos escombros da guerra civil iugoslava, quando os EUA/União Europeia/OTAN “criaram” o Estado de Kosovo, desmembrando, na prática o território da República da Sérvia e isso não foi feito com flores e rodas de ciranda, mas com o bombardeio de Belgrado.

Essa atitude da Rússia, de entrar nas repúblicas autônomas, criadas em 2014, Donetsk e Lugansk, depois do início da guerra civil na Ucrânia, dá a impressão de que Putin é o “malvadão” que ataca um país soberano e a Ucrânia, tadinha, é um pobre país inofensivo, que defende a democracia. Isso é senso comum. Na geopolítica não há “bonzinhos” e “malvadões” e nada é feito de forma aleatória. Se a guerra é o colapso das negociações, então elas existiam, e, portanto, havia um ambiente beligerante entre a Rússia e a Ucrânia.

A Ucrânia nasceu como Estado em plena I Guerra e nos escombros do regime czarista, em 1917, mas, palco de sangrentas disputas entre nacionalistas e bolcheviques, não conseguiu construir uma estrutura estatal efetiva, mesmo depois de ter sido proclamada a República Soviética Ucraniana, tudo isso em meio a uma guerra de libertação posto que tropas alemãs estavam ocupando parte dos territórios (1919-21) e só em 1922, com a criação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, é que a Ucrânia passa a construir sua estrutura republicana. Foram anos difíceis, com gravíssimas crises alimentares (1929-32) e de rebeliões dos grandes proprietários de terras e com as políticas genocidas perpetradas pelos nazistas, depois da invasão da URSS, em junho de 1942.

A partir de 1990, especificamente julho, depois que foi aprovada uma Declaração de Soberania (16/07/1990), a Declaração de Independência (24/08/1991) e a independência efetiva (26/12/1991), a partir da dissolução da URSS, a Ucrânia vem atravessando transformações que trouxeram crescente instabilidade à região que os “ocidentais” chamam de “limítrofe”, uma espécie de “bolsão de proteção” contra a Rússia e isso fez com que houvesse um crescente envolvimento de organizações não-governamentais estadunidense na luta política interna da Ucrânia.

O golpe eleitoral de novembro-dezembro de 2004, chamado no Ocidente de “Revolução Laranja” instalou um sistema de poder onde as oligarquias locais dividiram o país em “áreas de interesse” e naquele momento, as comunidades russas do leste (Donbass) já demonstravam receios de que o governo de Kiev passa-se a tratar essa região, majoritariamente russa, como um espaço de segundo grau na esfera das relações políticas e as disputas internas fizerem emergir grupos fascistas, saudosistas que veneravam o bandido nazista Stepan Bandera, toleradas pelo governo.

Em janeiro de 2014 os fascistas depuseram o presidente Viktor Yanukovych, ele mesmo um oligarca, que não apoiava a entrada da Ucrânia na União Europeia e se aproximava da Rússia. Milícias fascistas se aproveitaram da crescente insatisfação com o governo e engrossaram as manifestações, logo transformadas em ataques aos prédios do governo e no final de fevereiro os grupos fascistas tomaram o poder.

No leste do país as comunidades russas se revoltaram contra o golpe e foram selvagemente reprimidas, o que fez surgir as repúblicas populares de Donetsk e Luganski, que, ajudadas por Moscou, impuseram uma vergonhosa derrota às forças ucranianas, que embora tenha assinado dois acordos de paz (Minsk I e Minsk II), nunca aceitou e desrespeitou muitas vezes os acordos de paz.

Nos 8 anos seguintes o que se viu foi o enrijecimento político de Kiev, com as bandas fascistas cada vez mais ativas, incluindo a furiosa perseguição aos comunistas, a depredação de cemitérios de soldados soviéticos e a “ucranização” do país. Um discurso cada vez mais anti-russo e um aceno para a possibilidade de entrada do país na OTAN, apoiada e articulada abertamente pelos EUA, começou a fazer com que Moscou “endurecesse o pescoço”.

Putin, que já teve o desprazer de ver, nas suas barbas, o EUA intervir na Georgia, tornando-a basicamente um protetorado agressivo, o que desencadeou guerras curtas com a Rússia em 2008 e 2011; e de ver a tentativa, escandalosamente pública, de derrubar um presidente de Belarus, Aleksandr Lukashenko, e isso deixou claro que os EUA pretendiam expandir a OTAN para as fronteiras russas.

Para os leigos é mais comum, num conflito desses, eleger o “bom” e o “mal” e, nesse caso, somos tentados a ver o governo ucraniano como vítima de um gigante agressor. Mas não tomemos o que é pelo que gostaríamos que fosse.

A Ucrânia está sendo devorada pelo urso e percebe-se claramente que não passou de bucha de canhão contra a Rússia, afinal suas forças militares, mesmo modernizadas pela OTAN, não são páreo para a poderosa máquina militar russa. Mas por que o governo ucraniano caiu nessa cilada? Imaginavam que as tropas da OTAN viriam em seu socorro? Que garantias os EUA e a OTAN lhe deram para que continuasse com sua postura agressiva em Donbass?

As semanas que precederam o conflito deixou claro que a Rússia tinha exigido garantias de que a Ucrânia não entrasse para a OTAN e que está parasse sua expansão, e o que “ouviu” foi um sonoro silêncio tanto da OTAN, como dos EUA. Lembrando que a União Europeia optou por seguir as ações estadunidenses.

O mundo, que nunca deixou de ser assombrado pelas guerras, agora vê, mais uma vez, no Velho Mundo, as armas falarem mais alto.

E o futuro?