Wellington Duarte

04/03/2022

 

Que Guerra é essa afinal?

Parem tudo que estiverem fazendo e peguem o mapa da Europa. Aliás, peguem os mapas da Europa de 1900, 1918, 1950 e 1995. Por quê? Porque esses quatro mapas mostram muito do que há por trás desse conflito que hoje sangra, mais uma vez, a Europa.

O de 1900 mostra uma Europa do século XIX, cujas linhas fronteiriças foram, muitas vezes, feitas a partir de interesses de famílias de nobres e da aristocracia e da perspectiva de que as nações poderosas eram essencialmente fortes quanto mais territórios tivessem. O de 1918 mostra uma Europa nascida dos escombros da Primeira Guerra, a mais selvagem de todas as guerras, com o esfacelamento dos impérios e o nascimento da “questão nacional” como força propulsora das relações internacionais. O de 1950 já reflete o fim da Segunda Guerra, a mais devastadora de todas as guerras, cujas relações internacionais passaram a ser demarcadas pelo crivo ideológico de sistemas antagônicos que, por mais incrível que pareça, trouxeram uma paz duradoura na Europa. O de 1995 mostra a desintegração do “mundo soviético”, incluindo a desintegração de países e uma recomposição dos mapas retornando ao começo do século XX.

Com esses quatro mapas na mão, pegue a informação da política estadunidense do “grande porrete”, Big Stick em inglês, que também se remete ao começo do século XX e foi delineada pelo então vice-presidente republicano, Theodore Roosevelt, que posteriormente se tornaria presidente depois do assassinato do presidente William McKinley. Na perspectiva de Roosevelt, que tomou o termo emprestado de um provérbio africano, "fale com suavidade e tenha à mão um grande porrete", deixando claro que o poder para retaliar estava disponível, caso fosse necessário. E isso se tornou a política externa dos EUA, que nas décadas seguintes interveio em vários países da América Latina e, depois de 1945, no mundo todo.

Em seguida vá no Google e veja o que é a Organização do Tratado Atlântico Norte (OTAN), um pacto de natureza militar, assinado em 4 de abril de 1949, já com o estabelecimento das disputas com a URSS, menos de dois anos depois do fim da Guerra na Europa e seis anos antes da assinatura do Tratado de Amizade, Cooperação e Assistência Mútua, o chamado Pacto de Varsóvia, liderado pela URSS e dissolvido em 1° de julho de 1991. Se a OTAN foi criada devido ao “perigo soviético” seria lógico que sem esse perigo ela deixasse de existir, o que não ocorreu e, pelo contrário, sua estrutura militar expandiu-se e suas ações saíram da Europa. A OTAN tornou-se a milícia dos EUA.

Bem, com esses ingredientes podemos ter o formato de uma análise menos tosca do que ocorre na Europa. Obviamente isso não basta e seria necessário ter uma base mais sólida, que só pode ser encontrada em textos de natureza científica. Sem essa base corremos o perigo de nos tornarmos “analistas de Facebook”, ou pior, “analistas de mesa de bar”, que soltam opiniões muitas vezes acompanhadas de uma dose etílica mais excessiva. 

Numa época em que a leitura se tornou um suplício, recorrer a um livro que foi escrito entre janeiro e junho de 1916, pode ser uma ação ineficaz. Mas esse ensaio, depois transformado em livro, tem muito a nos dizer, especialmente pela ação organizada, fomentada pelo Eixo EUA-OTAN-UNIÃO EUROPEIA, de “apagamento/cancelamento” de uma nação inteira, no caso a Rússia. Trata-se de “Imperialismo: fase superior do capitalismo”, escrito em plena Primeira Guerra pelo russo Vladimir Ilyich Ulianov, que ficaria conhecido como Lenin. Nesse escrito Lenin descreve a formação do oligopólio, pelo entrelaçamento do capital bancário e industrial, para criar uma oligarquia financeira, e explica a função do capital financeiro na geração de lucros da colonialismo de exploração inerente ao imperialismo, como estágio final do capitalismo.

Não ficou claro? Observem como o Capital rapidamente respondeu ao “chamado” do Eixo, para apagar/cancelar a Rússia. É um método novo de cercamento do Grande Capital totalmente alinhado com os interesses dos EUA e que mostra o entrelaçamento dos seus interesses e revela um sombrio aviso aos Estados Nacionais que não comunguem com o Eixo: se não se submeterem aos interesses destes, serão “cancelados”. Nem os gatos russos escaparam do cerco, já que a Federação Internacional dos Gatos os proibiu de participar de concursos internacionais, e nem mesmo a vodca russa de um resort de uma pequena praia do litoral sul de Rio Grande do Norte escapou, visto que o “Praia Bonita” suspendeu a vodca russa, apoiando a Ucrânia.

Vale a pena olhar essa Guerra como uma reformatação da geopolítica mundial e a Rússia, que fez uma aposta arriscada, ao tentar voltar ao “jogo do poder” e acabar com o unilateralismo imposto pelos EUA depois do fim da URSS, e não como um “Fla x Flu”, como tem tem sido feita pela grande mídia.

Nenhuma Guerra trás felicidade. Simples assim.