Wellington Duarte

27/03/2022

 

O “Poder Militar” e a democracia 

As forças armadas são parte do Estado. É um aparelho que nasceu e forma o conteúdos dos chamados Estados nacionais. São, portanto, formações históricas. Já o PODER MILITAR é uma praga que infesta todos os tipos de regime, mesmo os que não necessariamente se orientam pela democracia representativa. Essa praga, nas nossas paragens, nasceu com a República e sempre esteve presente na nossa história republicana, sendo que na maioria das vezes essa presença foi funesta e deletéria. E esse PODER MILITAR está de volta.

A própria escolha do vice, na chapa do Mandrião, em 2018, já tinha estabelecido a forma de como os militares voltariam ao poder. Quem não lembra das peripécias do general Mourão, então Comandante Militar do Sul, exonerado em outubro de 2015 por suas declarações golpistas e por ter permitido uma homenagem ao assassino Calos Brilhante Ulstra, endeusado até hoje por boa parte dos militares, que tem uma visão tosca da Ditadura. Mourão colocado numa obscura Secretária de Economia e Finanças do Exército, novamente soltou o verbo contra Temer e foi exonerado em dezembro de 2017. Dois meses depois passou para a reserva e embarcou na ensandecida nau fascista de Bolsonaro tornando-se vice-presidente da República.

A volta dos militares, dessa vez, movida por gratificações e privilégios, infestou a estrutura estatal e mais de cinco mil militares se enfiaram no Executivo. Mas não ficou apenas nisso. Essa infestação atingiu o Legislativo, com a candidatura de milhares de militares, das mais diversas patentes, a maioria das policiais militares, viram um sinal verde para ocupar esse espaço público da esfera política. E hoje temos centenas de militares exercendo cargos públicos, a grande maioria defensora da ditadura e que vê os Direitos Humanos como “direitos dos bandidos” e, apoiado por grande parte da sociedade, defende o bordão “bandido bom é bandido morto”, podendo incluir aí os “comunistas” e “petistas”.

Um dos expoentes dessa volta ao poder dos militares, é o general Braga Netto, uma figura sombria, interventor do Rio de Janeiro de fevereiro a dezembro de 2018, como uma espécie de “rei do Rio” e que, passados dez meses, foi um estrondoso fracasso. Braga Neto tornou-se secretário de Segurança do Rio de Janeiro em 16 de fevereiro e a vereadora do PSOL, Marielle Franco, que vinha denunciando as milícias, foi assassinada, junto com Anderson Mathias, em 14 de março, crime que parece ser o mais espetacular da história da humanidade, visto que até hoje a polícia não consegue esclarecê-lo por completo.

Braga Neto foi para a reserva (aposentou-se) em fevereiro de 2020 e enfiou-se no governo fascista na chefia da Casa Civil da Presidência da República, tornando-se uma eminência parda do regime, protegendo o capitão cloroquina, passando panos quentes nas diatribes do presidente e foi premiado com o Ministério da Defesa em março de 2021. Agora Bolsonaro o indicará o general de pijama para vice na sua chapa, visto que o patético Mourão busca seu próprio espaço.

A presença de Braga Neto na chapa de Bolsonaro fortalece a premissa de que o PODER MILITAR está de volta, retomando a ideia de um “partido militar”, que significa a penetração, no aparelho estatal, do ponto de vista dos generais na direção dos “negócios de Estado”, ou seja, uma tutela que, se não é explícita, está lá e influencia na tomada de decisões do Executivo, do Legislativo e do Judiciário. O “cabo e o soldado” estão de prontidão.

Esse PODER MILITAR é a nova geração de militares que nunca aceitou qualquer julgamento histórico a respeito do período sinistro em que este país foi governado pelos generais. Os militares jamais aceitaram o relatório da Comissão da Verdade, que expôs as entranhas desse período: censura, sequestros, torturas, assassinatos e corrupção desenfreada, explicitado em três livros de José Carlos de Assis, “A Dupla Face da Corrupção”, “A Chave do Tesouro” e “Os Mandarins da República”, que mostra os mega casos de corrupção nesse período. Essa geração está no poder.

Ela se articular para seguir no poder. Mourão é candidato ao Senado pelo Republicanos do RS; Santos Cruz, é candidato ao Senado pelo Podemos, no RJ. Sérgio Etchegoyen, ex-ministro de Bolsonaro, crítico do relatório da Comissão da Verdade quando era general da ativa, que paira como uma sombra, com ramificações na cadeia militar da ativa. Essas figuras sombrias não são aqueles velhotes que tomam chá e ladram nas tardes do Clube Militar. Estão operando para que o PODER MILITAR se consolide no poder.

O PODER MILITAR conseguiu que Bolsonaro separa-se as forças armadas da lógica do funcionalismo público, distribuindo benesses e privilégios que compraram, na prática, o apoio inconteste de boa parte do generalato a esse governo corrupto e decadente. E qualquer reação é imediatamente respondida com expurgos, bastando ver como Bolsonaro enquadrou a Polícia Federal e “militarizou” o Ministério da Saúde, cujas consequências estão espalhadas nos cemitérios do país.

O PODER MILITAR voltou e só com o aprofundamento da democracia este cancro será combatido. É necessário transformar, pela primeira vez na nossa história, o PODER MILITAR em FORÇAS ARMADAS. Talvez, com isso, tenhamos enfim, nos livrado dessa ameaça.