Ana Paula Campos

11/05/2022

 

POMBAGIRA É O DEMÔNIO?

 

A primeira coisa que faço quando inicio um ano letivo é conversar com educandes e seus familiares sobre a minha religião. Faço isso pelo fato de andar pela escola todos os dias orgulhosamente com minhas contas no pescoço. Não escondo minha fé e exijo o devido respeito.

Mas não sou ingênua. Eu sei que muitos adultos, e até mesmo crianças, quando olham para mim veem uma pessoa ligada a coisas ruins. Sei disso pela forma como me olham ou até por ter visto uma criança se benzendo quando me viu caminhando em sua direção.

Geralmente inicio uma conversa rápida sobre a razão de termos medo de pessoas que seguem as religiões de matriz africana e sobre como a ignorância sobre estas religiões só aumenta esse medo. Vou explicando sobre os Orixás, sobre o amor e o zelo que eles/as têm por mim e sigo falando sobre as demais entidades e encantados da floresta. Explico que o medo que muitos sentem de Exú, por exemplo, é fruto de todo um projeto colonial para criar uma imagem oposta ao Deus cristão deles. Para existir o bem, precisa haver o mal.

Em geral, as coisas caminham bem ao longo do ano, com as crianças respeitando meu Sagrado. Aqui, acolá uma vê a imagem de Exú no meu caderno e pergunta: “é seu oríxa, professora? No que eu respondo sorrindo: É Orixá, abençoada. E assim vamos seguindo.

Mas este ano, uma aluna branca e loira tem demonstrado um incômodo visível em relação a isto. Esses dias ela me viu com uma conta da minha Pombagira e pegou no tridente dizendo: “parece o tridente do Aquaman...” Expliquei que na verdade se tratava do tridente da Exú mulher. Imediatamente ela soltou o artefato e disse com expressão de reprovação: “na minha religião dizem que ela é o demônio”.

Nem pisquei. Falei num salto: Demônio é uma criação de vocês. Não existe isso na minha religião, então, fique com ele para você!”