Ana Paula Campos

22/06/2022

 

CALMA, ANA PAULA

 

Eu sempre sei a percepção das pessoas a meu respeito através de terceiros. Muito raramente alguém diz para mim o que pensa sobre mim. Mas toda vez que me relatam o modo como sou vista ou mesmo de como escrevo, uma coisa é comum: eu sou a raivosa do rolê.

 

Já me disseram que minha escrita é muito crítica e que sou revoltada com tudo e todos. Já ouvi que tenho cara de poucos amigues e quando não gosto de alguém isso fica nítido. Eu gostaria de desmentir tudo isso, mas não posso. É tudo verdade. Contudo, penso que rotular pessoas apenas pelas suas narrativas ou expressões é cruel e leviano. Nossa vida é bem mais complexa que isso e literatura negra explica... é, porque Freud decerto achava que pessoas negras nem tinham psiquê.

 

Pessoas racializadas, assim que colocam os pés neste mundo, são informadas de como a sociedade opera. Aprendemos desde cedo como somos vistos e descobrimos que somos o outro do normal. Existe um padrão universal e nós somos o oposto disso. Em vão muites de nós passamos a vida toda tentando se encaixar nestes padrões. Porém, um belo dia acordamos e nos damos conta de que pessoas brancas são apenas pessoas brancas, e enquanto resgatamos nossos valores civilizatórios, vamos olhando para nós com mais amor.

 

O fato é que esta tomada de consciência é dolorosa demais. Quando vou ao shopping com a minha família, sempre ando de cabeça erguida e cara amarrada. Também já observei que não ando de mãos dadas com meu companheiro. Sigo na frente de todes. Certa vez, minha filha perguntou: “mamãe, por que você sempre anda assim?” , e simulou a forma como eu estava. Falei sem pestanejar: “porque se eu baixar a cabeça, eles passam por cima de mim”.

 

Eu queria muito poder sair com minha família e apenas aproveitar um final de semana tranquilo, mas não posso. Ando na frente, abrindo o caminho para quem eu amo. Direcionando olhares de defesa a quem ousar encarar os meus.

 

Outra vez, um dos meus alunos me perguntou: “por que você sempre lancha sozinha?” Desta vez não disse toda a verdade. Falei que não faço questão de me misturar com gente mediucre. Não menti, mas não é tão simples assim. Entro na escola com minhas batas africanas e minhas contas de terreiro, e percebo os olhares de rejeição de algumas pessoas. Observo crianças se benzendo com medo de mim e não raramente meus alunos me contam que me chamaram de “macumbeira”. Eu sou e tenho orgulho disso, mas tudo isso machuca demais. Eu sigo de cabeça erguida, mas é doloroso estar em um lugar onde as pessoas te odeiam.

 

Algumas vezes fiquei sabendo que dizem que sou “metida e arrogante”. Eu fico me perguntando se estas mesmas pessoas que dizem isso se questionam sobre suas atitudes racistas e homofóbicas. Sem dúvida que não. Afinal, bons são os outros. Deve ser muito insuportável para pessoas racistas conviverem no mesmo espaço de uma mulher negra, gorda, cacheada, com valores civilizatórios africanos e indígenas à mostra e que carrega o status de “referência sobre questões étnico-raciais”, e tudo isso sem baixar a cabeça.

 

Mas sim, eu estou com raiva. Não tem como ser diferente. Ando tensa, apreensiva porque nunca sei de que lado vem a bofetada racista. Olhares, comentários, exclusões... Estou com raiva de como o mundo nos trata, raiva das mortes diárias; ando puta!

 

Gostaria de escrever sobre coisas leves e engraçadas, mas ainda não consigo. Todos os dias nosso povo sofre alguma violência e, sendo eu a primeira pessoa negra a ocupar o espaço de uma coluna de jornal no RN, dominando majoritariemente por pessoas brancas e do sexo masculino, não posso me dar ao luxo de não denunciar em nome de quem não tem sua voz ouvida nestes espaços. 

 

É impressionante como quem lê minha coluna não se admira com o número de mortes de jovens negros e indígenas ou de ataques a terreiros e aldeias. Veem uma mulher negra-indígena conciente de si e afiada no discurso dos seus e logo a rotulam de raivosa. Eu deveria estar feliz com tudo isso?