Daniel Costa

23/06/2022

O MARAVILHOSO PAÍS DOS SAUDOSISTAS
 

Em 1971 a Bossa Nova já havia estourado no Carnegie Hall, mas com a ditadura militar em pleno vigor Tom Jobim foi preso e teve sua vida devassada, depois que resolveu não participar do Festival Internacional da Canção, em protesto contra a censura que tomava conta do Brasil. Antes disso, um expurgo realizado pela Comissão de Investigação Sumária, criada em 1969 pelo governo ditatorial, resultou na exoneração de Vinicius de Moraes do posto de diplomata. E nesse mesmo período, após serem encarcerados por fazerem oposição ao poder dos quartéis, Darcy Ribeiro e Milton Almeida dos Santos se viram obrigados a realizar suas pesquisas no exílio.  

 

Eram os tempos da propaganda ufanista, bem retratada pelo slogan “Brasil, ame-o ou deixe-o”, que capturou a mente de incontáveis pessoas e que fez com que a maioria delas não fosse capaz de perceber que se vivia num país de fachada, não apenas em razão da censura e das perseguições, mas também diante de um cenário de abandono cruel, um verdadeiro massacre em massa cometido contra parte majoritária da população brasileira, principalmente das pessoas que moravam nas regiões norte e nordeste do país.

 

Enquanto magníficas músicas nasciam no exílio e a seleção de 70 jogava o fino da bola, ainda que sem João Saldanha no comando técnico, os habitantes do interior do Rio Grande do Norte, por exemplo, em sua quase totalidade, sobreviviam em estado de completa pobreza e no mais absoluto abandono. Eram ignorados pelos governos constituídos: federal, estadual e municipais. Nem de longe se ouvia falar em políticas públicas com objetivo de incluí-los na sociedade.

 

Uma parte dessas pessoas morava nas vilas que sediavam os municípios; outra, residia nas propriedades rurais, onde o chefe da família trabalhava fazendo o serviço pesado e embolsando migalhas; e outros tantos jaziam em casebres de taipa, esburacados, sem piso fixo, vivendo sujos, com roupas rasgadas e com fome.

 

Para muitos, falar em escolas era assunto impensável, já que pais e filhos eram todos analfabetos. Mesmo para os poucos privilegiados que tinham acesso aos colégios do interior, tudo acontecia de forma deficiente. É que o ensino oferecido não passava do chamado nível primário. Curso Ginasial apenas em pouquíssimas cidades, e o Científico (segundo grau), existia no máximo em seis municípios do estado inteiro. O curso universitário, por sua vez, se restringia à capital e somente os ricos do interior tinham acesso; até porque as vagas em residências universitárias não passavam de meia dúzia.

 

Assistência à saúde também era vista como coisa sobrenatural. Normalmente, aquelas pessoas nasciam, viviam e morriam sem jamais conhecer um médico. Remédios, apenas chás. Uma infecção intestinal matava; uma pneumonia matava; pressão alta, taxa de glicose alta, cálculo biliar, infecção de alça intestinal, tudo matava.

 

Não se falava em SUS, sistema por meio do qual, bem ou mal, sem demora, ou com demora, toda população é atendida. Naqueles tempos, somente tinham acesso a consultas médicas, a exames e a internações hospitalares os privilegiados que pudessem pagar, ou os empregados com carteiras de trabalho devidamente assinadas, com comprovação dos recolhimentos regulares para o então INPS, hoje INSS.

 

Nas cidades pequenas, em regra, ninguém tinha carteira assinada. Mesmo nas capitais do nordeste e do norte, a grande maioria da população não tinha. O abandono era tão visível e marcante, que o grande sonho dos jovens interioranos era subir no pau de arara e viajar para o Triângulo Mineiro, quando, sem dinheiro para saldar o trajeto, acabavam sendo vendidos como escravos aos fazendeiros da região. 

 

O mais incrível é que nunca se viu qualquer crítica sobre tal quadro de desamparo total, de morticínio em massa que era cometido contra essa parte majoritária da população. Inclusive, para alguns saudosistas, aqueles foram tempos de ouro em que música, ciência, futebol e política forjavam uma sociedade maravilhosa, ainda que a maioria das pessoas vivesse no país do pesadelo.