Daniel Costa

12/07/2022

 

MACHISMO SELVAGEM

 

Camille Paglia uma vez escreveu que se não há nenhum Mozart mulher, também não existe nenhuma mulher Jack Estripador. Lembrei-me dessa frase ao ler a notícia do médico anestesista que foi preso por estuprar suas pacientes no momento do parto. Deu ânsia de vômito. Nessas horas, ser pai de uma garota aumenta em muito os decibéis de revolta. Causa arrepios pensar que não são poucos os homens capazes de realizar barbaridades desse naipe e que a minha filha, quando estiver com idade suficiente para sair de casa com as suas próprias pernas, estará sujeita a tal nível de violência. Isso me faz questionar não apenas o grau de machismo que existe na sociedade em pleno século XXI, mas também o que fazer para combatê-lo.

O presidente da república destila misoginia pra tudo quanto é lado; os casos de violência doméstica e de mulheres assassinadas pelos seus ex-companheiros são estampados diariamente nas páginas dos jornais; os cargos de direção se encontram ocupados majoritariamente pelos homens; os salários são desiguais; e as pesquisas dão conta de que as mulheres estão trabalhando quase oito horas a mais por semana. A verdade é que quando a gente para pra refletir, a conclusão é a de que pouca coisa mudou, senão mesmo piorou. A sociedade está impregnada de machismo. Ele é mesmo estrutural.

O escritor espanhol Javier Cercas, em artigo publicado no jornal El País, se perguntou como é que as mulheres ainda nos aguentam diante de tanta exploração. Como elas ainda não formaram um grande batalhão para sair por aí cortando pintos a perder de vista?  A minha tese é a de que as mulheres são seres humanos superiores, muito mais complexos e, portanto, capazes de pensar a vida de forma mais racional. Essa atitude bestial de retalhar corpos humanos faz parte mesmo é do ideário masculino. Nós é que agimos assim, dentro de contornos simplórios e instintivos. Até mesmo porque, não ter a consciência da complexidade da existência é viver menosprezando a vida.

Mas isso não significa dizer que as mulheres não devam reagir de maneira agressiva contra essa dominação estrutural. Nesse particular, eu sou amplamente favorável às ações extremistas do movimento feminista. Não vejo possibilidade de mudança se a coisa caminhar de outra forma. É preciso que o machismo seja vomitado nas nossas caras. Sou a favor de um feminismo do tipo divulgado por Virginie Despentes, que se posiciona de forma disruptiva não apenas contra o machismo, mas também contra o próprio ideal da supermulher, que deve ser eternamente feliz, sedutora, casada e bem-sucedida.

O feminismo não é selvagem. Selvagem é o machismo. É preciso que nós homens reflitamos sobre isso. Quais as práticas machistas que teimamos em perpetuar? Quais as atitudes machistas que eu destilo contra as mulheres que estão ao meu redor? Quais delas eu jamais gostaria que minha filha tenha que suportar?