Fábio de Oliveira

01/08/2022

 

O RN não é feito apenas de praias

 
No final do mês de julho participei da 8ª edição da Feira dos Municípios e Produtos Artísticos do Rio Grande do Norte (FEMPTUR), uma feira de turismo que aconteceu no Centro de Convenções em Natal/RN. Eu estava junto com meus companheiros de trabalho do Gamboa do Jaguaribe, na sala de exposição de sustentabilidade – um pequeno local de exposição que diferenciava-se dos demais ali presentes. Tal experiência de participação possibilitou-nos ver e analisar o quanto o turismo aqui do nosso estado precisa avançar e direcionar seus olhares para além das praias. O RN só é feito de praias?
 
Quando pensa-se em turismo no nosso estado, a maioria das pessoas – não somente as que aqui residem, mas os visitantes de outras localidades – imagina instantaneamente as praias, as paisagens litorâneas e suas belezas naturais, os bares, os hotéis 5 estrelas que encabeçam as avaliações e os restaurantes. Não é necessário ter uma formação na área para perceber que esse tipo de turismo vem ocorrendo desde o início das atividades turísticas por aqui. Como também não é necessário ter uma especialização para compreender que o estado é, culturalmente falando, muito rico. Quando falo em cultura, aqui me refiro à dos nossos povos indígenas e negros, e não à exportada e apropriada pelo povo branco.
 
Vejamos! A cidade de Natal/RN não é feita somente das praias que enchem a tela principal das redes sociais dos natalenses, de turistas e de peças publicitárias das agências de turismo para venda de seus passeios. Também não é somente feita das arquiteturas coloniais de genocidas encobertados por uma narrativa heroica da versão do colonizador. Esses cenários não devem ser os únicos a serem transformados em cartões-postais potiguares. É importante saber e sempre lembrar que a história por aqui não começa após a Segunda Guerra Mundial. 
 
Conhecer os processos de formação histórica do RN e as resistências dos nossos povos pela produção cultural e preservação é imprescindível para inserção do turismo e apresentação de outro viés desse segmento, de forma que possam ser visibilizados e valorizados os aspectos étnicos e culturais responsáveis pelas identidades locais. Isso requer mentes abertas para compreensão das transformações ocorridas pelo modo exploratório até os dias de hoje. É confortável comer uma tainha frita com macaxeira à beira-mar e não se importar com o que vem acontecendo com as pessoas e os locais que vêm as iguarias que estão no cardápio – a minoria busca compreender essa outra faceta da realidade.
 
Essa mesma realidade observei em outras salas de exposição dos demais municípios que focam apenas nas paisagens praieiras e que excluem a história desses locais, como aconteceu em Guamaré, Galinhos, Touros, São Miguel do Gostoso e demais municípios, assim como em outras localidades do Agreste, Central e Oeste Potiguar, que têm uma vasta história, mas que foram reduzidos a uma atividade turística em que prevaleceu, em muitos casos, a versão da história do colonizador. Versão essa que é reproduzida até mesmo por turistas nacionais e internacionais – que nem são destes municípios – que frequentam esses locais. 
 
O etnoturismo não foi evidenciado como deveria ter sido e ainda não o é. Por exemplo, as comunidades dos parentes indígenas Potiguaras do Katu e Mendonça do Amarelão já atuam nesse segmento, mas não ocupam esses espaços para suas visibilidades. É imprescindível questionar a ausência dos nossos nesses eventos e cobrar ocupações.
 
De modo geral, o evento gerou oportunidades e possibilitou redes de contatos e fortalecimentos. Mas a reflexão e ações são necessários para agregar ao turismo outras vertentes para além das belezas naturais do litoral cercadas por hotéis e pousadas de 5 estrelas. Existem outras belezas naturais e outras narrativas que fazem parte do nosso estado. Afinal, o RN é terra indígena e o turismo também precisa ter um olhar decolonial, não se limitando apenas aos mesmos aspectos de sempre.