Ana Paula Campos

03/08/2022

 

NÓS, MULHERES NEGRAS, TAMBÉM SOMOS HEROÍNAS OU NEGRAS RAIVOSAS?

 

Eu não pretendo me estender muito nesta discussão. Primeiro porque este acontecimento ativou alguns gatilhos em mim, e segundo porque acredito que já foi amplamente discutido. Mas vou aproveitar a escrita para expurgar a minha dor.

            Quando eu vi a cena de uma mulher branca gritando, xingando e ameaçando bater na racista que violentou seus filhos negros e, em seguida, a cena da mesma mulher tornando a xingar a outra enquanto a observava ser conduzida à delegacia, imediatamente lembrei do episódio de racismo que sofri na unidade de fisioterapia da UNIMED, com minha filha. Na ocasião, uma mulher branca e racista colou-se diante de nós, interrompendo nossa passagem, esperando, quem sabe, que eu abaixasse minha cabeça e deixasse o caminho livre para ela passar.

            Ao perceber o salto da racista e sua atitude, segurei a mão da minha filha, mantive-me firme, de cabeça erguida e EM SILÊNCIO. Apenas quando ela, agindo como uma criança mimada que não tem o que quer, gritou: “meu deus, o que é isso?!”, retruquei, dizendo: “compre uma clínica para você, querida!” Isso e apenas isso foi o suficiente para que esta racista se dirigisse à direção do estabelecimento e alegasse estar com medo de mim.

            Fui chamada pelo diretor do estabelecimento ao final da terapia para ser informada da situação. Em sua fala, eu estaria provocando medo nas pacientes. Enquanto entrava na sala, fui observada, com pavor nos olhos, por outras pessoas brancas que estavam no local. Precisei impostar a voz e deixar claro que isto se caracterizava como um caso de RACISMO e que ela estava se fundamentando no mito da “negra raivosa” para justificar sua fala.

            Quando eu vi aquela mulher branca defendendo seus filhos negros, pensei na hora: eu faria o mesmo, porque somos mães e é isso que mães fazem; mães defendem suas crias! Mas vê-la continuar xingando, enquanto a outra era conduzida à delegacia, deixou-me aflita. Na mesma hora lembrei da cena que vivi e pensei: seria eu quem teria sido presa.

            Dias depois de postar um texto sobre o que passei na terapia com minha filha, várias pessoas até deixaram de me seguir – ah, o proletariado que acha que é amigue dos donos das empresas. Não recebi títulos honrosos como os que recebeu a mãe branca. “Heroína”, “Exemplo de mãe” e até “Deveria entrar para a História”. Mães negras travam uma batalha desde a hora que sabemos da nossa gestação, e sabemos bem o que é proteger os nossos, mas somos “as barraqueiras do rolê”.

            Quando eu estava grávida de Giovana, comentei certa vez: “minha filha vai nascer pretinha com o cabelo pixaim”. Na mesma hora, ouvi de uma branca: “mulher, não diga isso com sua filha, não”. Confesso que fraquejei. Quando ela nasceu e vi que era branca, senti alívio pelo que ela não iria passar neste país. Mas aí veio a questão da surdez, de gênero, de religião... O fato é que minha filha foi violentada ainda na minha barriga. Eu fui violentada no momento em que estamos mais sensíveis. Ninguém me acolheu.

            E por falar em acolhimento, em nenhum momento vi comentários ou postagens de alguém perguntando como estavam as crianças ou dando notícias delas. ELAS é que foram as vítimas! Mas são crianças negras, né? Quem se comove com a violência sofrida por crianças negras?

 

“Mãe, mas eles não viram que eu estava de uniforme?” Marcos Vinícius, 14 anos. Morto a tiros por um blindado da polícia, em 2018.