Bia Crispim

05/08/2022

 

E AS MULHERES NEGRAS, TAMBÉM SÃO HEROÍNAS OU NEGRAS RAIVOSAS?

 

Lendo a coluna dessa quarta-feira (03/08/22) da colunista e amiga Ana Paula Campos, publicada aqui no Potiguar Notícias, me deparei com um título que se pareceu muito próximo à ideia que me veio à mente quando vi o vídeo em que Giovanna Ewbank parte pra cima de uma racista que havia cometido esse crime, RACISMO (SIM, RACISMO É CRIME!) contra seus filhos.

 

Na hora, meus pensamentos entraram em ebulição, e de ideias como “Menina, ela virou uma onça.”, “Uma verdadeira Juma Marruá!”, “Fogo nos racistas!”, “Eita, bicha corajosa” acompanharam outras como: “Se fosse uma mãe preta, ela teria feito isso?”, “O que ocorreria se ela fosse uma mulher negra?” “Capaz de ela ter sido presa, e não a branca racista.” 

 

Na mesma hora, entrei em contato com Ana, que já estava ciente do ocorrido e com o mesmo questionamento na mente: “Já imaginou se ela fosse preta? Era a mulher raivosa.” – me disse Ana. “Você precisa escrever sobre isso”, comentei. E não estava falando sobre o caso de uma mulher defender seus filhos de qualquer agressão, estava falando de escrever sobre uma mãe preta defendendo seus filhos de RACISMO e partindo para cima de uma racista branca e suas implicações em um mundo de pessoas pretas comuns.

 

E eis que em sua coluna, ela não só levantou essa questão, como também trouxe um exemplo real vivenciado por ela e sua filha em uma clínica de Natal. (Se você não leu, corre lá pra saber de tudo!)

 

O episódio particular de Ana não saiu na mídia, afinal, ela é uma mãe preta, não tem olhos azuis, não estava de férias na Europa, não é uma celebridade, e não é vista como alguém melhor porque adotou filhos pretos da “pobre África”. Ela é uma mãe preta vivendo em um país estruturalmente RACISTA, onde ser preto é sinônimo de subserviência, obediência e menosprezo.

 

Se a mãe das crianças vítimas de racismo fosse Ana Paula Campos, naquelas mesmas circunstâncias, em férias, na Europa, provavelmente ela seria presa, seria separada de seus filhos, perderia suas férias e ainda receberia o nome de quê? “Raivosa!”; “Mal-educada !”; “Não sabe o lugar que deve ocupar!”. Provavelmente, a mandariam pedir desculpas, engolir sua indignação, e o pior, talvez ela tivesse que “ensinar” a seus filhos que eles tinham que conviver com aquilo porque “é assim mesmo” (sempre foi); dizer a eles que ela estava errada, que se exaltou e que não era pra tanto.

 

Segundo o relato de Ana em sua coluna, o diretor da clínica disse que ela “estaria provocando medo nas pacientes.” Por quê? Por estar em defensiva? Por estar defendendo sua filha? A Giovanna Ewbank não fez o mesmo? Então, porque só ela é heroína?

 

Ana ainda comenta sobre o caso Ewbank e seus filhos: “Quando eu vi aquela mulher branca defendendo seus filhos negros, pensei na hora: eu faria o mesmo, porque somos mães e é isso que mães fazem; mães defendem suas crias! Mas vê-la continuar xingando, enquanto a outra era conduzida à delegacia, deixou-me aflita. Na mesma hora lembrei da cena que vivi e pensei: seria eu quem teria sido presa.” Enquanto a mãe branca recebe os louros, a mãe preta continua recebendo as “chibatadas”.

 

Não quero de forma alguma tirar de Giovanna Ewbank os merecidos aplausos. Todas as pessoas não-pretas deveriam tomar a mesma postura diante de casos de racismo. Deveriam se indignar e protestar, e defender, e partir pra cima se fosse necessário. RACISMO não é “coisa de preto”, afinal quem criou esse processo segregacionista não foram as pessoas pretas, foram as brancas, “supremacistas” em seus delírios de conquista e grandeza, mas inferiormente humanas em pensarem-se assim.

 

Ser ANTIRRACISTA é uma premissa inquestionável. Não podemos naturalizar esse CRIME, não podemos continuar pensando como se ainda fôssemos colônia (apesar de a metrópole insistir nisso). Não podemos esquecer que as crianças pretas filhas da mulher branca foram as verdadeiras vítimas (apesar de os holofotes estarem sobre a mãe branca), como bem lembra Ana em sua coluna, que a encerra com uma provocação que repito aqui como encerramento da minha: “Mas são crianças negras, né? Quem se comove com a violência sofrida por crianças negras?”

Ana, a você toda minha admiração e gratidão.