Diário Coronavixe

25/03/2020

Por: KALINA PAIVA
 
Kathianna estava na paz do seu lar, ouvindo "O dia em que a terra parou", do profético endiabrado Raul Seixas, quando foi desafiada por uma amiga psicóloga a escrever um diário, no qual registraria suas reações durante os quarentas dias de completo isolamento social. Mora sozinha com um gato marrom. É professora. Sua memória só falha quando está muito cansada, após a maratona de uma semana com os “projetos de endividar gente” do Ensino Fundamental I. Fora a intolerância à lactose, está vendendo saúde física e mental. Gritou “Namastê!” para si mesma, quando soube que ia ter férias antecipadas da escola por causa do coronavírus. Antes, passou no supermercado e comprou provisões para 40 dias. Não era mais uma mulher, mas um soldado entrando para treinamento do BOPE, porém com uma leve diferença: além dos alimentos, tinha caixas de luvas e de máscaras, um celular com acesso ao mundo e muito álcool em gel. 
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Todos os dias, conforme o combinado com a amiga, o acesso à internet só era disponibilizado das 18h às 19h, período em que deveria escrever. Assim, aquela candidata à sobrevivente passou a postar uma espécie de relatório para que seu estado de saúde fosse avaliado pela amiga que propôs a tal experiência. A seguir, alguns trechos de seus relatórios. 
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Primeiro dia. “Meu nome é Kathianna Gomes de Jesus. Estou outra pessoa! Passei o dia inteiro curtindo a minha casa. Fazia muito tempo que eu não ficava assim, sem fazer nada. Só tenho duas queixas: tentei ver filme na NetFlix, mas fiz um acordo com a minha amiga psicóloga. Segundo ela, é uma prática detox da rede mundial de computadores. (Risadas) O jeito foi me contentar com os DVD´s que existem aqui. Essa comida do supermercado está longe de parecer com o tempero de mainha. (Gargalhada) Um mais trinta e nove dá quarenta. Encerro.” 
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Uma semana depois. “Kathianna Gomes. E o jeito? Já tentei filar o wi-fi do vizinho, mas a internet dele tem senha e ele parece o Van Gogh de mau humor. Então é melhor não atiçá-lo. Gosto da minha orelha. (Risadas) Eu acho que ele é parente do finado seu Lunga. Uma semana mais algumas são iguais às outras. Câmbio, desligo.” 
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Um mês depois. “(Risadas.) Meu nome é Kathianna Maldita Gomes. Que tédio! Tentei roubar a senha do wi-fi do vizinho. Subornei a empregada da casa dele, mas ela nem quis chegar perto por causa do corona. Ela não sabe ler, mas prometeu se esforçar para conseguir. Certeza de que estou na Idade da Pedra Polida. Mais um pouquinho e volto duas casas para o Paleolítico! Já comi a guarnição para 40 dias. Só tem patê de presunto, pão e ovo. Mais um pouco e eu defeco um pinto! Quarenta menos dez custa caro, muito caro! The end!” 
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Na mente dela, a quarentena parece se estender por causa da doença. 
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Dois meses depois. “Silvana, você sabe quem sou? Kathy qualquer coisa. Não aguento mais as negativas da empregada. Ela me prometeu dar a senha do wi-fi. Ela é desumana! Insiste em não falar comigo, mantendo a distância de dois metros e se recusa a admitir que não é solidária. Brigamos feio. Dois mais dois são quatro. Não. Aliás, sim. Encerro.” 
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Quatro meses. “Ando escutando vozes da empregada por volta de 3 da manhã. Será que Van Gogh não escuta? Ela falou mal da minha mãe! Cantou Ovelha Negra, da Rita Lee, em falsete. Certeza que foi uma indireta pra mim. Não consigo dormir com a voz desafinada dela. Se ela continuar assim, vou colocar para fora o meu estilo tapuia de ser. Estou maravilhosamente bem, cheia de disposição, vendendo saúde e lúcida, translúcida! Com licença, estão batendo na porta nesta madrugada fria. Preciso pegar o álcool em gel que, pelo menos, poderia ser quente!” 
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Sexto mês. “Meu nome é Kathy. Kathy Perry. Isso é tudo por hoje.” 
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Oitavo mês. “(Gargalhadas)” 
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Nono mês. “Kathy aqui. Matei a SmartTV. Estávamos discutindo muito. Eu queria pipoca com tempero sazon e ela fez uma sugestão deselegante. Disse que eu não colocasse porque era cancerígeno. Agora, está mortinha. Não me arrependo. Ontem, recebi uma visita de um vendedor de plano de saúde. Não sei como ele conseguiu entrar aqui. Cinco mais quatro é igual ao quadrado da hipotenusa. Finish.” 
Décimo mês. “Meu nome não é Johnny. Três vezes três, não. Comecei um projeto incrível. Com partes da SmartTV e algumas pipocas, construi um homem: Wilson, que é primo de Sexta-feira ou seria de Robinson Crusoé?” 
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Um ano. “Catherine Zeta Jones aqui. Sinto falta de cera depilatória. Estou parecendo a Monga, a mulher macaca. O homem que construi com as partes da finada SmartTV ficou um chuchuzinho, mas infelizmente nossas escolhas políticas não combinavam. Ele fugiu com a empregada do vizinho. Dois mais dois é dois mesmo, menos uma: eu.” 
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Décimo-quarto mês. “Os pelos do meu sovaco estão boicotando minha saúde mental. Fazem um barulho parecido com aqueles robôs de Minority Report e já tentaram me estrangular. Tenho assistido a SmartTV ungida e estou adorando a nova série NetFlix. A internet está ótima! That ´s all folks.” 
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Décimo-quinto mês. Aqui fala Janaína Paschoal. Encontrei pegadas humanas ao redor da goiabeira que nasceu na minha sala. Estou de olho. O relatório, eu envio depois. Dois mais um faz cócegas nos meus pés. Plim, plim.” 
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No dia seguinte. “Grande novidade. Há outra mulher aqui! Seu nome é Kathianna, Kathianna Gomes, mas como a encontrei numa segunda a chamarei de “Sexta”. E aqui sextou! Ela não fala comigo, mas dá spoiler de todas as séries que assisto. (Risadas). Talvez tenha que matá-la”. 
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Assim que recebeu o relatório, a psicóloga Silvana achou melhor entrar na residência. Tinham se passado 40 dias. Encontraram Kathy com um chicote, digno do filme 50 tons de cinza, prestes a surrar seu próprio corpo, emitindo o gemidão do whatsApp.