Entre a vida e a morte em ´As reflexões de Pietro Frendler` de W.R. Delcaro

26/03/2020

Por: Alexandra Vieira de Almeida
 
No romance As reflexões de Pietro Frendler, de W.R. Delcaro, bem situado temporal e espacialmente no seu Prólogo, o ano é de 2014, no Paraná, nos deparamos com um narrador em primeira pessoa que encontra algo inusitado em meio aos donativos para os acometidos pelas enchentes nesta região, um diário: “Em meio a esses livros havia uma série de cadernos repletos de anotações.” O diário é de um jovem enfermeiro que faz reflexões sobre os polos dicotômicos da vida e da morte. O lance genial do escritor é colocar o leitor dentro do texto. Ambos, com a mesma formação acadêmica, cumprem papéis na narrativa, como numa caixinha de surpresas, onde leitor e narrador se relacionam de forma a espelhar o espectador da história como os leitores de fora da narrativa, nós, que iremos acompanhar o enredo desse leitor interno que reflete para o leitor externo tudo o que se há nessa narrativa, entregando para nós a contação de uma bela experiência de um ser com relação ao mundo que o cerca.
 
Outro fator interessantíssimo é que temos um diário atípico, como numa espécie de seu revés, as vivências de Pietro Frendler não são datadas e nem localizadas, dando um tom de mistério e atemporalidade a algo que, inicialmente, a partir do Prólogo, teria uma cronologia e espacialidade, mas que pelo aspecto inventivo do texto é uma das facetas da morte em querer driblar a monotonia das horas e locais fugazes. A fidelidade na narração do diário coloca o leitor do Prólogo como uma espécie de editor que contará tudo o que leu naqueles cadernos para nós, ávidos receptores, que nos deslumbraremos com um enredo fantástico a descortinar os véus da existência em toda a sua vibração e conexão com o desconhecido. Se o diário revela autenticidade, o estatuto de verdade, temos um paradoxo, pois o narrador Pietro Frendler questiona a partir do jogo ficcional a própria vida e seus revezes que não se bastam como um corpus de verdade. A única página do prólogo revela agilidade, querendo ir direto ao ponto, sem mais delongas e desinteresse por esta narrativa inicial, pois o que importa é o diário e seu desenvolvimento em 18 capítulos e um epílogo. O que importa é aquela “história”.
 
Logo no início do diário, lidamos com um paradoxo conceitual, o parentesco entre a vida e a morte, que o senso comum vê como um abismo intransponível. O narrador mostra o espelho em que elas se miram, um parentesco sedutor que nos amedronta e nos tira do lugar comum. A prática de Pietro leva a essa conclusão, pois ele é um enfermeiro, da área de saúde, tendo que lidar com os dois extremos o tempo todo. Portanto, a experiência, os fatos contam muito. Embora relate o passado, em alguns momentos na narrativa temos a agoridade clariciana, com o “instante-já”, pois se a linha fronteiriça entre a vida e a morte o marcava, “agora” isso é um equívoco. Neste diário, também se coloca um presente da narrativa, mesmo que indeterminado no tempo em que ele se encontra. As ideias para o narrador, como ele mesmo cita, apresentam um “caráter semovente”. A escrita está permeada pela realidade, assim como esta está camuflada no ficcional, fazendo-nos lembrar do teórico Terry Eagleton que dizia sobre a mistura entre fato e ficção, nas suas simbioses. 
 
As ideias por serem mutáveis deveriam se adequar à realidade. O enfermeiro Pietro faz uma ressignificação das ideias pela sua imagem transformadora, de trânsito e mudança, nos fazendo reportar ao pré-socrático Heráclito a partir da transmutação do ser nos rios da vida. O seu romance se apresenta como “existencial” nos revelando os meandros da vida do homem em contato com aquilo que o circunda. Os reflexos entre interior e exterior explodem na sua narrativa inusitada e original, no seu poder de contar e recontar numa plêiade de significados. As concepções e verdades passam por uma “reciclagem” e “evolução” ao longo do livro. O narrador faz uma seleção, uma amostra de todo o universo. Isso, porque só podemos absorver uma parcela do real. Ao mesmo tempo, o paradoxo do diário em querer buscar o real, a verdade, quando, no entanto, Pietro observa a sua força de esmaecimento dos fatos: “É por essas e outras que não há noção que eu considere mais falsária do que a realidade”. Mas, contrariamente, para explicar a incerteza dos conceitos, o narrador se refere a esse mesmo real, como na “incerteza existencial de Elisa”, uma paciente que só sobrevive com uma dose alta de droga (noradrenalina) no seu sangue, vivendo o limite entre vida e morte. Aqui, o dado, a realidade traz segurança para suas reflexões.
 
Só que as perspectivas de Pietro são peneiradas pelos sentidos dele, dando-lhe insegurança, fazendo-o pensar na loucura. As certezas são postas em xeque pelo narrador, dando um tom enigmático e labiríntico à narrativa. Pietro usa dados da realidade concreta para tentar explicar conceitos abstratos. Outro fator importante na sua história é a mistura entre literatura e ciência, onde somos inteirados o tempo todo por termos médicos. Temos, além disso, siglas da área da medicina, enriquecendo seu livro com outra área de conhecimento, diferente das artes. Há também, como na arte, a imprecisão na ciência: “Há a vida, há uma série de informações desconexas baseadas num caos bio-neuro-psíquico-químico e então há a morte”. Como bem observa Pietro, a medicina é um meio de vencer a morte e prolongar a vida. Há uma “tensão” nesta relação flutuante. Além da relação ciência x literatura, a outra ponte é entre filosofia x literatura, pois a obra de Delcaro trabalha com as questões. O título bem revela isso em toda sua potência cristalina. 
Com relação ao além-túmulo, o narrador é cheio de incertezas, mas um fator incomum que o acomete ao longo da narrativa e que aqui não nos compete explicitar para não tirar a surpresa do leitor o põe no limiar das dúvidas. A vestimenta da área da medicina bem representa esta luta pela vida e contra o luto. Até um texto sagrado budista, o Bardo Thodol ele cita, mostrando-nos sua obsessão pelo tema da morte, que se reflete nas 154 páginas do livro. O narrador bem nos apresenta que não é o detentor de uma verdade única. Será que ele não busca a referência religiosa como descarga, um alívio para o tema da morte? Mas ele atua por suposições: “Se for assim...” O que ultrapassa o limite do real é o desconhecido. Mas ele tem uma “empatia controlada” e diferente de outros profissionais carrega uma extrema sensibilidade e ele se recorda do primeiro paciente que viu morrer. A morte como “serenidade”, o semblante que revela “plenitude” e que desfaz a “tensão” da vida. Tudo isso num mendigo. Se a vida é um “tipo de resistência”, a morte é o “relaxamento”. E a medicina tem seus limites. 
 
Se Pietro, no âmbito teórico e acadêmico, tinha sua fixação pela morte, é na prática que ele tenta compreender mais detalhadamente esse desafio mórbido. A enfermagem é sua maior prática para seu entendimento sobre o morrer. Mas nessas reflexões sobre a morte, o narrador acaba por pensar em outras questões da humanidade como a nossa violência e agressividade natas. Toda uma reação sensória do corpo, a temática corporal é sentida pelo leitor ao se deparar com Pietro. Ele percebe a reação comum à humanidade, o que nos iguala: “Quase todos têm essa pequena queda pelo caos”. O filósofo Nietzsche já nos falou sobre a força caótica que o movia. Sua narrativa apresenta agilidade, mas não é imediatista. Ela tem o tempo da reflexão, da maturação. Há um detalhe, um marco que muda o rumo de Pietro, as suas conversas com Cecília, uma técnica de enfermagem de quarenta e três anos. Algo tão pequeno o transforma e se torna grandioso e também epifânico. Ela contava histórias que traziam um intenso fascínio ao narrador. E aqui, como nas bonecas russas, temos histórias dentro de histórias: a narrativa de Pietro dentro do Prólogo, as narrativas de Cecília dentro dos diários, intercalando e conectando enredos os mais diversos, todos girando em torno de um núcleo comum: a morte. Pois, nas histórias de Cecília, na Emergência, temos um “cenário de guerra”. Pietro não se alonga nas histórias, tornando-as elípticas e resumidas. Mas a vida não é só biológica, há poeticidade nela. Há outras questões envolvidas e é isso o que Pietro nos mostra, o “mistério” da morte em sua potência poética, saindo apenas da visão nua e crua do real. Mas ele é de um “niilismo irrevogável”, eis o paradoxo, pois os seres buscam “símbolos” para driblarem a morte. 
 
O narrador é de uma extrema melancolia e tédio. Ele sente um amargor diante da vida até que um fato o modifica para sempre no carnaval. O romance é de uma delicadeza e crueldade ao mesmo tempo ao tratar da morte. Há uma reviravolta no texto, pois a frieza inicial é substituída pela paixão, nos seus contrastes mais belos, pois o enfermeiro se apaixona por uma mulher de nome incomum. No carnaval, ela está vestida com cores antagônicas, o preto e o vermelho, representando a figura feminina da morte mexicana Catrina: “Sua composição inteira era de uma sensualidade fora do comum”. Ele que era discreto, diante dela se torna indiscreto. Ele muda sua pulsão de morte, pelo reflorestamento da vida, Eros e Tânatos, como explicou Freud, e, Bataille continuou com sua “afirmação da vida na morte.” Pois Pietro se apaixona por uma mulher fantasiada de morte, mas que pulsa vitalidade em todos os poros e o anima num átimo de existência. 
 
O nome dela, Mahtab. Além disso, eles têm algo em comum, pois ela estava cursando medicina. Essa imprevisibilidade, esse momento especial o deixa desestabilizado. Ele não estava acostumado a esses encontros, flertes. Dizia o filósofo Pascal: “O coração tem razões que a própria razão desconhece”. Este lastro misterioso do amor é o contraponto necessário para seu equilíbrio diante da obsessão pela morte. O caos encontra um pouso e se ordena através do par, do número dois, de uma dualidade necessária para a harmonia do corpo. E, por isso, diferente de seus colegas de trabalho que fazem uma diabolização pela banalidade, Pietro tem uma postura não maniqueísta, sem julgamentos e, anteriormente, na narrativa, até mentia para os pacientes, para confortá-los, com mensagens positivas e de esperança, apesar de seu desalento. Ele salva vidas, independente se será do mocinho ou do bandido. Também como na vida e na morte, a linha é tênue entre a crença e a descrença na vida de Pietro. E é a partir das histórias de seus pacientes, cada um tem a sua narrativa diferente, que o narrador vai se relembrar da sua própria história com seus pais. Cabe aqui o leitor fazer os links entre o passado de Pietro com seus familiares com relação ao seu momento atual. Ele herdou o silêncio, característica que ele carrega ao longo da vida. Os pacientes são o leitmotiv que o leva às reflexões. Além das referências ao imaginário grego, temos referências ao Oriente, revelando o domínio dos conhecimentos do narrador.
 
Portanto, na lógica do romance, é difícil explicar o mundo, a existência. Há um véu de loucura e perdição. A vida é “desprovida de qualquer sentido?” Como dizia o grande Guimarães Rosa, “Viver é muito perigoso”. Para Pietro, a consciência finda com a morte. Ele é pessimista com relação à humanidade e se inclui nela, já que é um ser que faz parte do todo. É belíssima a passagem de sua conexão com a natureza num dos capítulos do livro, fazendo-o regressar à infância e que o leitor tire suas próprias conclusões. Como disse Epicuro: “A morte não é nada para nós, pois quando existimos, não existe a morte, e quando existe a morte, não existimos mais.”
 
“As reflexões de Pietro Frendler”, romance. Autor: W.R. Delcaro. Penalux, 154 págs., R$ 40,00, 2019. 
 
Disponível em:
 
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E-mail: vendas@editorapenalux.com.br
 
A resenhista
Alexandra Vieira de Almeida é Doutora em Literatura Comparada pela UERJ. Também é poeta, contista, cronista, crítica literária e ensaísta. Publicou os primeiros livros de poemas em 2011, pela editora Multifoco: “40 poemas” e “Painel”. “Oferta” é seu terceiro livro de poemas, pela editora Scortecci. Ganhou alguns prêmios literários. Publica suas poesias em revistas, jornais e alternativos por todo o Brasil. Em 2016 publicou o livro “Dormindo no Verbo”, pela Editora Penalux. 
 
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