´Uma noite entre mil` nessa quarentena

20/05/2020

Por: JEANNE ARAÚJO
 
 
Deixei muitos livros para trás quando vim passar a quarentena aqui no Seridó. Assim que foram suspensas as aulas, eu organizei tudo o que pude para descer ao sertão. Na correria, trouxe apenas alguns livros que estavam na pilha, enorme, de livros a serem lidos. Deixei outros que queria muito ler, mas não podia trazer tudo. 
 
Trouxe no bizaco, como dizia meu avô, livros de poesia, Hilda Hilst que não ando sem ela de jeito nenhum, e alguns de prosa. Os livros de poesia que gosto muito, sempre ficam à cabeceira de minha cama e sempre viajo com eles. Eu sei, é uma mania, mas é assim. Os outros livros que trouxe, não escolhi, simplesmente tirei da pilha que estava na escrivaninha ao lado da estante. Os livros que vão sendo lidos eu vou colocando na estante, os não-lidos vão ficando nessa mesinha, ao lado, onde também fica o notebook, canetas e papéis.
 
Já por aqui, no Seridó e passado os dias angustiantes em que não conseguia ler e nem escrever, tamanha era a ansiedade com tudo o que estava acontecendo, resolvi ver quais os livros que tinha trazido e entre eles, encontrei o livro de Carmen Vasconcelos, Uma noite entre mil. Teria que ser com esta leitura que eu queria começar a quarentena. 
 
Eu conheci a escrita de Carmen assim que cheguei em Natal, lá por volta dos anos 90 e foi Tácito Costa quem me apresentou. Ele me emprestou alguns livros de autores potiguares e entre eles, a poesia de Carmen, pela qual me apaixonei. Carmen escreve para mim, sim, é isso mesmo que você leu, ela escreve para mim. Porque alguns autores conseguem essa proeza, o leitor acha que o escritor está escrevendo para ele e isso acontece comigo e com Carmen. No seu livro Uma noite entre mil, logo na apresentação, ela escreve:
 
“Tenho, sempre tive, um jeito lento de perceber as coisas. Talvez não seja bom para a saúde, nem para as finanças e nem mesmo para os afetos. Não sou pragmática, compreendo as coisas longamente, noturnamente. É uma espécie de contemplação. As coisas passam, eu retenho suas almas. Olhando-as, compreendo-me um pouco também, eu que sou feita de coisas breves.”
 
Pronto, lá vou eu atrás de minhas canetinhas coloridas para sublinhar o que ela me fala. E assim vou lendo os textos poéticos, uma prosa que vai se diluindo noite adentro, me encantando, me fazendo rir, me encontrando no texto dessa mulher que consegue ver tão bem a alma das mulheres, como uma bruxa que nos olha e diz eu sei o que vai aí dentro desse corpo e dessa alma. Vem cá que eu vou te contar. E a gente vai, pega em sua mão, acende as fogueiras e adentra nesse mundo onde ela nos leva com sua literatura, esse mundo que nos é tão caro e tão difícil de entenderem.