Rodrigo Bico: "A produção artística e cultural será modificada no pós-pandemia"

28/06/2020

Por: CEFAS CARVALHO
Foto: Arquivo pessoal
 
Ator, produtor cultural e ex-presidente da Fundação José Augusto, Rodrigo Bico é um artista inquieto e mesmo durante a pandemia e isolamento social, vem mostrando maneiras de interagir com os demais artistas e com o público. Em entrevista ao Portal PN, ele falou sobre o impacto da pandemia e do necessário isolamento para a classe artística, as maneiras de lidar com a situação e o papel do Poder Público diante deste cenário. Confira:
 
Como está a sua produção (criativa e operacional) nestes tempos de pandemia e isolamento?
 
No início da quarentena todos nós artistas fomos surpreendidos com o baque do cancelamento de várias ações artísticas que iríamos realizar durante o ano. Foi um prejuízo imensurável para o nosso setor. Além do abalo financeiro que nós sofremos, também passamos por um abalo emocional. Então, no início da pandemia no Brasil foi bem difícil se estabelecer e se colocar no lugar de um ser produtivo. Nesse tempo o Grupo de Teatro Facetas, Mutretas e Outras histórias, ao qual faço parte, passou um tempo esperando como o Coronavírus iria se comportar no país e como nossos gestores iam lhe dar com essa situação, quando percebemos que a coisa iria demorar mais do que imaginávamos, nós passamos a marcar reuniões pra debater nossa situação e como nós poderíamos produzir algo artisticamente e não paralisar nossas atividades, estamos no processo de pesquisa de algumas ações que realizaremos na internet e em breve vocês poderão ter acesso a elas. Nos inscrevemos em alguns editais e conseguimos aprovar a exibição virtual do nosso espetáculo “Sal, Menino Mar” pelos Centros Culturais do BNB. Individualmente tenho mesclado minha produção entre escrever textos e interpretá-los em vídeo, sendo para ações pessoais ou para encomenda de empresas, tenho feito a produção de Lives de alguns músicos como Júlio Lima, Pedro Mendes, Alex Amorim e Fuxico de Feira, realizei algumas lives pra debater a situação política e cultural do país e tenho participado de Lives de amigos e de sindicatos pra conversar e também recitar algumas poesias e contar algumas histórias. Por fim, estou fazendo a produção executiva novo álbum de Pedro Mendes que foi recentemente aprovado no Edital de Economia Criativa do SEBRAE.
 
Como avalia a situação geral dos artistas e produtores culturais potiguares nestes tempos?
 
Estamos vivendo um momento de muitas incertezas e dificuldades no campo cultural. Aqui no estado nós temos vários perfis econômicos de artistas. Artistas que vivem exclusivamente de sua arte e que não dividem renda com outros familiares como músicos de bares e restaurantes, arranjos produtivos culturais em família como circos e etc... temos artistas com carreiras consolidadas que acabam conseguindo através de sua imagem arrecadar financeiramente através de lives, shows virtuais, videoclipes... temos uma série de artistas das mais variadas linguagens que acabam sofrendo impactos de formas diferentes. Por exemplo, nós do teatro precisamos diretamente da relação com o público, nem todos artistas tem um repertório poético, ou de contação de histórias pra ir pra frente de uma câmera e conseguir algum retorno financeiro disso. E ainda temos a situação dos técnicos de palco, figurinistas, aderecistas e uma série de outros profissionais que dependiam de eventos e ações culturais como meio de sustento, e que a realização de Lives dentro de casas acabam excluindo determinados técnicos que não conseguem acessar essas produções. A falta de um mercado profissional consolidado no RN é hoje uma das grandes dificuldades que artistas e produtores culturais estão passando, muitos ainda estão conseguindo viver porque se dividem em outras funções profissionais como professor ou outra função no serviço público.
 
Como vê as políticas públicas (nacionais, estaduais e municipais) para os artistas neste período?
 
Nacionalmente temos um edital lançado pela FUNARTE com uma verba muita pequena diante da necessidade do país, o referido edital se assemelha a editais lançados no Ceará em seu tamanho financeiro. No Congresso Nacional tivemos recentemente a aprovação da Lei Aldir Blanc que após sancionada deverá realizar um repasse financeiro para estados e municípios nunca visto na história desse país, mas ainda esperamos a sanção presidencial, o repasse e a ação dos municípios e estados para que essa verba chegue até os trabalhadores da cultura. Em nível estadual temos uma atuação satisfatória do Governo do RN que vem conseguindo pagar um edital lançado no ano passado e que lançou e já pagou um edital emergencial para 105 iniciativas culturais para todo estado. No tocante as ações municipais, poucas foram as cidades que realizaram alguma coisa, destaco aqui a prefeitura de Currais Novos que lançou uma chamada pública municipal, Mossoró apesar das críticas do setor cultural conseguiu lançar um edital de fomento. São Gonçalo após muita pressão do setor cultural lançou também uma chamada pública emergencial. Prefeituras de maior arrecadação como Parnamirim e Natal não realizaram ainda nenhuma ação. A capital inclusive já declarou que não vai realizar nenhuma ação e se limitará a pagar os cachês do carnaval. De fato, essa é uma péssima notícia para os trabalhadores das artes e da cultura que vivem em Natal.
 
Acha que o fazer artístico potiguar e a relação artistas-públicos mudará no pós-pandemia?
 
A produção artística e cultural em todo o mundo será modificada, sem dúvida. Pelo menos em curto e médio prazo a convivência entre artistas e público em espaços privados será muito difícil e cheia de regulamentações. Ainda temos no meio disso tudo, um público que mesmo com determinadas liberações terá muito medo de sair de casa para assistir espetáculos e produções culturais. Acho que ainda é cedo para tirar conclusões sobre um cenário futuro. De fato, estamos aprendendo a lidar com novas ferramentas, com diversas forma de produzir artisticamente e de divulgar nossas criações. E, certamente, muitas dessas práticas deverão se incorporar em nossos trabalhos. Mas ainda assim, nada substituirá o calor do contato físico, presencial e efêmero na relação entre público e plateia.