Educação Profissional em Santiago/Chile: curso de teatro com educação online

10/07/2020

Por: Andrezza Tavares (IFRN) & Bento Silva (Universidade do Minho)
Foto: Elsa Poblete Bustamante (Escuela Teatro Imagen)

Entrevista com Elsa Poblete Bustamante: “Do Chile, novas reflexões sobre a educação profissional em tempo de Pandemia

Entrevista internacional concedida por Elsa Bustamante ao Jornal Portiguar Notícias. A entrevistada é atriz, produtora, escritora e professora de educação profissional na Escuela Teatro Imagen, em Santiago/Chile, com um curriculum vitae notável no campo do teatro que vem do tempo da resistência à ditadura de Pinochet (1973-1990).  Na entrevista fala-nos da experiência educativa chilena sobre a educação profissional, relacionada ao campo do teatro, ocorrida na modalidade online em tempo de Pandemia. Considera que a performance do teatro requer a presença física de outros e isso hoje não é possível devido ao confinamento, mas, para grande surpresa, as aulas online permitiram verificar que a ferramenta tecnológica (Zoom) possibilita a aproximação social e a prática em grupo, proporcionando também a ampliação da prática da atenção e da concentração, professores e estudantes “aprenderam a ouvir” porque no online síncrono sucede, com frequência, mais do que uma pessoa falar ao mesmo tempo o que torna a comunicação ininteligível.  Entende que foi uma aprendizagem que deve ser assumida, e que no futuro deve combinar-se o cara-a-cara presencial e o recurso virtual. Para além da experiência educativa, fala-nos da sua visão sobre a situação social, econômica para o futuro do  Chile, considerando “este momento como a evidência do nó de um conflito que vem se arrastando há mais de um século”, e, para o futuro, “trazendo à tona o melhor de tudo isso, temos que no nosso país estamos esperando a construção de uma nova Constituição que, sem dúvida, refletirá novas condições em sua consulta nacional”. A entrevista, realizada integralmente no idioma espanhol (conforme segue no final), foi traduzida para a língua portuguesa pelos autores da entrevista. 

1. Em relação às metodologias de ensino adotadas pela escola de educação profissional “Escuela Teatro Imagen”, em Santiago do Chile, neste tempo de pandemia, que aspectos poderia socializar conosco da sua experiência como professora?

Temos em Santiago do Chile, a “Escuela Teatro Imagen”, onde sou professora das turmas do primeiro ano, com estudantes que entram na escola em meio às dificuldades da atual situação mundial. Decidimos não ficar paralisados pelo contingenciamento e convocamos os/as estudantes para aderirem à intenção de não perder tempo esperando uma futura "normalidade" cujos prazos não conhecemos. Convidamos a aprender que o teatro não pode parar e que somos responsáveis por isso.

Tivemos preconceitos e muita dúvida sobre o meio que as plataformas de internet oferecem para esse fim. Então, partimos para transmitir os conteúdos de uma maneira diferente. Nossa escola desenvolve a individualidade em função do coletivo e pensávamos que só poderíamos realizar o que diz respeito à prática individual, mas, buscando aprimorar a ferramenta Zoom, tivemos a surpresa de obter resultados muito bons também na prática grupal.

Espero que todas as escolas de teatro estejam descobrindo essas possibilidades, pois percebemos que algumas delas decidiram fazer apenas a formação teórica durante esses meses de isolamento. Isso sobrecarrega o estudante.

Pessoalmente, e também para a equipe da nossa escola, estou muito animada com a descoberta de novas possibilidades de ensino nessas condições.

2. Considerando a sua vasta experiência técnica profissional, como produtora e pesquisadora nacionalmente reconhecida no campo do teatro, e também como professora do campo da educação profissional, qual a sua visão sobre a situação social, econômica e ambiental para o futuro do  Chile?

Não tenho as ferramentas para falar sobre o econômico e o social em particular. Minha visão profissional do teatro me leva a entender este momento como a evidência do nó de um conflito que vem se arrastando há mais de um século. Sabemos que os gatilhos das crises, muitas vezes inesperadas ou impensáveis, não são fatos que se desenvolvem linearmente no tempo ou no espaço.  Hoje é o vírus, aquele que detona o  "clímax" desta peça que dura mais de cem anos. Chegamos a esse ponto, cujo resultado considero imprevisível (um momento histórico que não resiste à análise de referências anteriores), por causa da imensa injustiça social a que o sistema político-econômico, ao qual estamos submetidos/as, com milhões de pessoas na pobreza e, ainda mais, na miséria. Com salários indignos, quando há, sem acesso a uma saúde decente, à instrução e a cultura. No Chile, há vários anos, o setor de educação cívica foi eliminado nas escolas, ultimamente eliminaram o setor de história e muito mais cedo os buquês artísticos. No meu país, diante da pandemia, o governo se alinhou à política de salvaguarda da economia, da segurança dos negócios, e vemos milhares de pessoas morrerem todos os dias.  Qual pode ser a forma política dessa saída? Eu não sei!!! Não posso nem imaginar!!!

O futuro imediato, aqui da imaginação, vejo-o com o crescimento da pobreza na maioria dos habitantes, por um lado, e com uma intensa e crescente luta para mudar esse modelo econômico-cultural por aqueles que se juntarão à luta da mudança iniciada em outubro de 2019 pela grande maioria dos/as chilenos/as. A pandemia mostrou que esse movimento de "despertar", bastante espontâneo, tem legitimidade histórica de longo alcance. Não é uma "invenção partidária", é que a injustiça não nos permite mais viver.

Para a arte, para o teatro e para muitas pessoas, acho que não seremos enriquecidos com essa trágica experiência. Trazendo à tona o melhor de tudo isso, temos que no nosso país estamos esperando a construção de uma nova Constituição que, sem dúvida, refletirá novas condições em sua consulta nacional.

3. Em seu ponto de vista, que transformações podem ocorrer no ensino presencial com o uso das novas tecnologias em virtude do isolamento social em 2020?

O mais provável é que muitas instituições de ensino adotem as plataformas de Internet para transmitir conhecimento. Não para toda a estrutura de seus currículos, mas pelo menos em alguns deles, combinando presencial e o recurso virtual. Pessolmente, esta ocasião da pandemia permitiu-me comprovar que a ferramenta tecnológica permite a aproximação social e a prática em grupo de múltiplas matérias. Este aprendizado deve ser assumido e mesclado com recursos de ensino clássicos.

No teatro, a performance, em sua essência, requer a presença física de outros/as e isso hoje é proibido, por isso acho que a presença do grupo será altamente valorizada após essa experiência prolongada. As aulas online nos proporcionam a ampliação da prática de atenção e de concentração. Aprendemos a ouvir, porque nesse recurso se fala mais de uma pessoa de cada vez, nada é entendido. Toda esta práctica, acredito que terá reflexos no comportamento individual, é o que vejo no grupo de recém-chegados  à nossa escola.

4. Com relação às orientações destinadas às instituições de educação profissional no Chile, no período de confinamento, você concorda com essas orientações?

Discordo, centralmente. Nosso governo demorou para parar as aulas cara a cara, presenciais, e vimos lá o primeiro grande surto. Em nossa escola, que é totalmente autônoma, não assinamos a diretriz do Ministério da Educação. Como uma gestão em conjunto com a equipe de professores decidimos cedo tomar como medidas de segurança a não realização das aulas físicas, pois, como é óbvio, no teatro é essencial a proximidade e o corpo a corpo.

Também estabelecemos, se necessário, alongar os períodos ou sessões uma vez que não podemos, em princípio, fazer nesta parte do ano a malha completa dos estudos, não apenas pelas características do ensino teatral, mas também porque há estudante que não têm em grandes horas um computador ou o espaço para participar de cada aula.

No que diz respeito à educação escolar, existem diretrizes que nem todos podem assumir. Há áreas rurais onde os/as jovens não têm rede de internet e os/as professores/as implantaram estratégias criativas para continuar a receber seus estudantes, dignos/as de aplausos. São iniciativas individuais à custa do sacrifício pessoal destes/as professores/as. Outros/as professores/as, de acordo com indicações centrais, cobram aos jovens tarefas após o horário de aula, o que é uma imprudência nas condições de confinamento obrigatório para um/uma jovem. 

 

Nota: Esta entrevista publicada no Portal de Jornalismo Potiguar Notícias integra o repertório de publicações do Projeto pluri-institucional intitulado “Diálogos sobre Capital Cultural e Práxis do Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN) - IV EDIÇÃO”. O Projeto, vinculado à Diretoria de Extensão (DIREX) do campus IFRN Natal Central e ao Programa de Pós-Graduação Acadêmica em Educação Profissional PPGEP do IFRN, articula práxis do campo epistêmico da Educação a partir de atividades de ensino, pesquisa, extensão, inovação e internacionalização com o campo da comunicação social a partir da dinâmica de produções jornalísticas por meio de diversos canais de diálogo social como: portal de jornal eletrônico, TV web, TV aberta, rádio e redes sociais. O objetivo do referido Projeto de Extensão do IFRN é socializar ideias e práxis colaboradoras da educação de qualidade social, de desenvolvimento humano e social por meio da veiculação de notícias em dispositivos de amplo alcance e difusão de comunicação social. Para mais informações sobre o Projeto contacte a coordenadora: andrezza.tavares@ifrn.edu.br.  

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Entrevista no orignal, em espanhol

1. La actividad docente en pandemia?

Tenemos en Santiago de Chile, la Escuela Teatro Imagen, donde soy profesora este año de un primer año, de alumnos que ingresan en medio de las dificultades de la presente situación mundial. Decidimos no paralizarnos por la contingencia y convocamos a l@s estudiantes a sumarse a la intención de no perder tiempo esperando una “normalidad” futura cuyos plazos desconocemos. Invitamos a aprender que el teatro no se detiene y que somos los responsables de que eso sea así.

Teníamos prejuicios y muchas dudas respecto al medio que ofrecen las plataformas de internet para este objetivo. Nos propusimos entonces impartir las materias de otro modo. Nuestra escuela desarrolla la individualidad en función de lo colectivo y pensamos que solo podríamos enfrentar lo relativo a la práctica individual, pero buscando potenciar la herramienta Zoom, nos llevamos la sorpresa de obtener muy buenos resultados también en la práctica grupal.

Espero que todas las escuelas de teatro estén descubriendo estas posibilidades, pues me enteré que algunas de ellas decidieron hacer solo los ramos teóricos durante estos meses. Eso abruma al o la estudiante.

En lo personal –y también al equipo de nuestra escuela-, me entusiasma ampliamente el descubrimiento de nuevas posibilidades de la enseñanza en estas condiciones.

2. Vision objetiva ante la situacion social, economica y ambiental para el futuro de Chile?

No tengo las herramientas para hablar de lo económico y social en particular, mi visión de profesional del teatro me lleva a entender este momento como la evidencia del nudo de un conflicto que se arrastra hace más de un siglo. Sabemos que los detonantes de las crisis, muchas veces son inesperados o impensados, los hechos no se desarrollan linealmente en el tiempo ni en el espacio. Hoy es el virus, el que detona el “climax” de esta obra de teatro que dura ya más de cien años. Llegamos a este punto, cuyo desenlace considero impredecible (un momento histórico que no resiste análisis desde referentes anteriores), debido a la inmensa injusticia social a la que nos ha sometido el sistema político-económico al que estamos sometid@s, con millones de personas en la pobreza y más aún, en la miseria. Con sueldos indignos, cuando los hay, sin acceso a una Salud digna, sin acceso a la instrucción y menos a la Educación y a la Cultura. En Chile eliminaron hace ya varios años el ramo de Educación Cívica en los colegios, últimamente eliminaron el ramo de Historia y mucho antes los ramos artísticos. En mi país, ante la pandemia, el gobierno se alineó con la política de resguardar lo económico, la seguridad de las empresas, el negocio y hoy, ya mes de junio, intentan remar al revés sin posibilidad de control y vemos morir a miles de personas a diario. ¿Cuál puede ser la forma política de esta salida? Yo no lo sé, ni puedo imaginarlo.

El futuro inmediato, más acá de la imaginación, lo veo con una tremenda caída hacia la pobreza de la mayoría de los habitantes por una parte y con una intensa y creciente lucha por cambiar este modelo económico-cultural por parte de quienes se sumarán a la lucha de cambio iniciada en octubre de 2019 por una gran mayoría de chilen@s. La pandemia ha dejado ver que ese movimiento de “despertar”, más bien espontáneo, tiene una legitimidad histórica de largo alcance. No es un “invento partidista”, es que la injusticia ya no permite vivir.

Al Arte, al Teatro y a muchas personas, creo que nos veremos enriquecidos con esta trágica experiencia, sacando lo mejor de todo esto y en lo propio de nuestro país, nos espera la construcción de una nueva Constitución que sin duda en su consulta nacional recogerá nuevas condiciones, pese a quien le pese.

3. Transformaciones en la enseñanza presencial relacionada con el uso de nuevas tecnologías por causa del aislamiento social obligatorio en 2020?

Lo más probable es que muchas instancias de enseñanza adopten las plataformas de internet para transmitir conocimientos. Quizás no en todos sus ramos, pero al menos en algunos de ellos, combinando lo presencial y el recurso virtual. Esta ocasión en lo personal, me ha permitido comprobar que esta herramienta tecnológica permite el acercamiento social. Permite la práctica en grupo de múltiples materias. Este aprendizaje debiera asumirse y fundirse con los recursos de enseñanza clásicos.

La actuación, en su esencia requiere de la presencia física de otr@s y eso nos está hoy vedado, por lo que pienso que se valorará mucho, después de esta experiencia prolongada, la presencia del grupo. Las clases por internet, nos aportan una práctica no solo de atención y concentración, pues quien está en otra cosa durante una clase queda muy en evidencia, sino también de respeto al otro, de atención. Aprendemos a escuchar, pues en este recurso si habla más de una persona a la vez, no se entiende nada. Toda esta práctica, creo que tendrá continuidad en el comportamiento individual, es lo que veo en el grupo de recién ingresados a nuestra escuela.

4. Orientaciones dadas a las instituciones de enseñanza para su implementacion ante la contingencia. Usted está de acuerdo con esas orientaciones?

Estoy en desacuerdo, en lo central, nuestro gobierno demoró en detener las clases presenciales y vimos allí el primer gran brote. En nuestra escuela que es del todo autónoma, no nos suscribimos a la directriz del Ministerio de Educación, como dirección en conjunto con el equipo de profesores, decidimos temprano tomar como medidas de seguridad el no asistir físicamente a las clases, ya que, como es obvio en el teatro es imprescindible la cercanía y el cuerpo de el o la otr@.

También nos propusimos, si es necesario, alargaremos los períodos o las sesiones, puesto que no podemos en principio hacer en esta parte del año la malla completa de estudios, no solo por las características de la enseñanza teatral, sino también porque hay estudiantes que no disponen en horarios amplios de un computador o del espacio en que se instalan a participar en cada clase.

Respecto a la enseñanza escolar, hay orientaciones que no todos pueden asumir. Hay aquí, zonas rurales en que l@s niñ@s no tienen red de internet y ahí l@s profesor@s han desplegado una voluntad creativa para seguir acogiendo a sus estudiantes, dignas de aplaudirse. Son iniciativas individuales a costa del sacrificio personal de es@s profesor@s. Otr@s, según indicaciones centrales cubren de tareas extra horario de clases a l@s niñ@s, lo que es una imprudencia en condiciones de encierro obligatorio para un@ chiquit@.

 

 

Fonte: Elsa Poblete Bustamante (Escuela Teatro Imagen)