Em Cabo Verde, um olhar de mães (encarregadas de educação) sobre EaD

31/07/2020

Por: Andrezza Tavares (IFRN) & Bento Silva (Universidade do Minho)
Foto: Bento Silva (Universidade do Minho)

Olhar sobre ensino a distância em Cabo Verde em tempos de pandemia

 

Entrevista internacional concedida ao portal de jornalismo Potiguar Notícias por Ana Cristina Pires Ferreira e Patrícia Dantas dos Reis, duas cidadãs cabo-verdianas. As entrevistadas lançam um olhar sobre o ensino a distância em Cabo Verde neste tempo de pandemia a partir da observação da experiência de uma professora do 2º ano do ensino básico e do que vivenciaram com suas filhas, como encarregadas de educação. Consideram que a transição das salas de aula para suas casas, com uso de aplicativos de comunicação, como o viber e o messenger, foi uma “tarefa hercúlea!”. Nem todos os jovens se envolveram da mesma forma e intensidade, pois, estando em casa, tiveram “a sensação de estar de “férias”. No entanto, apesar de vários constrangimentos, consideram que “este é um caso de sucesso porque houve um enorme interesse da professora e dos encarregados de educação em fazer com que os alunos mantivessem contacto com a “escola” em casa”.

1. A pandemia levou ao encerramento das escolas, em muitos países, e pensamos que em Cabo Verde, vosso país, aconteceu o mesmo. Quais foram as medidas alternativas tomadas face a isso?

Com a chegada do novo Coronavírus SARS2 a Cabo Verde, a 23 de Março anteciparam-se as férias dos alunos e as escolas encerradas como medida de prevenção. Cabo Verde, à semelhança de outros países, avançou para um programa de ensino à distância “Estudar e Aprender em Casa” via TV e Rádio, que abrangeu conteúdos do Pré-escolar ao 12º ano, e foi realizado de 27 de abril a 26 de junho. Como forma de assegurar o acesso aos alunos mais desfavorecidos optou-se pela distribuição de materiais de trabalho em suporte de papel. No entanto, o potencial do ensino à distancia acabaria por ficar por explorar, visto pouco ou nada de seguimento e de avaliação em relação a essas aulas acontecerem.

2. Para esta entrevista, optaram por olhar para essa experiência a partir do vosso lugar de mães, encarregadas de educação, com filhas a frequentar e escola e que, agora, passaram a ter o processo de ensino-aprendizagem em casa, através desse programa de ensino à distância. No vosso entender, como ocorreu a experiência educativa, por exemplo, no envolvimento dos alunos e nas formas de comunicar com as tecnologias?

Houve diversidade de opções metodológicas e pedagógicas, mas olharemos para uma experiência, em particular, de uma professora do 2º ano do ensino básico.

Primeiramente, à relação pedagógica tripartida entre conteúdo, aluno e docente, junta-se um quarto elemento que se torna incontornável, o encarregado de educação. Com efeito, o processo educativo e a interação pedagógica, tanto para alunos como para o professor passa por trocarem, obrigatoriamente, as salas de aula pelas suas casas, pelo uso de aplicativos de comunicação atuais, banalizados, como o viber e o messenger, de forma a receber e enviar os exercícios e dar orientações aos seus educandos através dos seus encarregados de educação. Que tarefa hercúlea! Com efeito, nem todos se envolvem da mesma forma e intensidade.

Segundo, pressionada pela necessidade de manter a proximidade com os alunos na interação pedagógica e de monitorizar o processo de aprendizagem, tal como recomendado pela UNESCO, o recurso a plataformas gratuitas, seja para comunicação assíncrona (google classroom), seja para comunicação síncrona (zoom), impõem-se. E aí percebe-se o esforço titânico em reinventar formas de ensinar, permeado com o descohecimento das plataformas digitais, sem olvidar que os alunos, estando em casa, têm a sensação de estar de “férias”, portanto, a sua atenção e motivação eram diminutas, sobretudo para enviar os trabalhos pedidos (só 30% entregavam num espaço de 48h); situação a ser explicada e “contrariada” pelos encarregados de educação, alguns deles a trabalhar continuamente.

3. Ao longo deste processo, nessa tarefa hercúlea, como apelidaram, sentiram que houve constrangimentos? Se sim, chegaram a ser ultrapassados?

Os constrangimentos foram mitigados, muito porque se percebeu que era uma situação de remedeio e era melhor fazer o que estava a ser proposto ad hoc do que nada. Em relação à monitorização do processo de aprendizagem, a evolução deu-se no sentido de se passar a realizar os exercícios nos momentos síncronos, numa aproximação a uma espécie de classe invertida.

Este é um caso de sucesso porque houve um enorme interesse da professora e dos encarregados de educação em fazer com que os alunos mantivessem contacto com a “escola” em casa.

4. No recomeço do próximo ano letivo, qual acham que será o principal desafio?

Apesar deste esforço, aquilo que parece ser uma certeza é a necessidade de remediar aprendizagens e recuperar conteúdos que ficaram por trabalhar este ano, o que se configura como um desafio, tendo em conta que a situação epidemiológica no país e no mundo ainda está por estabilizar.

Nota: Esta entrevista publicada no Portal de Jornalismo Potiguar Notícias integra o repertório de publicações do Projeto pluri-institucional intitulado “Diálogos sobre Capital Cultural e Práxis do Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN) - IV EDIÇÃO”. O Projeto, vinculado à Diretoria de Extensão (DIREX) do campus IFRN Natal Central e ao Programa de Pós-Graduação Acadêmica em Educação Profissional PPGEP do IFRN, articula práxis do campo epistêmico da Educação a partir de atividades de ensino, pesquisa, extensão, inovação e internacionalização com o campo da comunicação social a partir da dinâmica de produções jornalísticas por meio de diversos canais de diálogo social como: portal de jornal eletrônico, TV web, TV aberta, rádio e redes sociais. O objetivo do referido Projeto de Extensão do IFRN é socializar ideias e práxis colaboradoras da educação de qualidade social, de desenvolvimento humano e social por meio da veiculação de notícias em dispositivos de amplo alcance e difusão de comunicação social. Para mais informações sobre o Projeto contacte a coordenadora: andrezza.tavares@ifrn.edu.br.  

 

Fonte: Ana Cristina Pires Ferreira & Patrícia Dantas dos Reis