Artista potiguar durante a pandemia e o isolamento: Ana de Santana

04/08/2020

Por: CEFAS CARVALHO
 
Caicoense, Ana de Santana é poeta, escritora e doutora em Literatura pela UFRN sendo bastante conhecida do cenário cultural potiguar pelos livros lançados e pela militância cultural. Ela conversou com o Portal PN sobre o que pensa da produção cultural neste período. Confira:
 
 
Como está sendo sua produção literária-cultural durante  este isolamento?
 
Não posso dizer que mudou muito. Tenho atravessado problemas de saúde na família e isso acabou me confinando há algum tempo, desde antes da pandemia. Concluí uns textos acadêmicos (artigos e capítulos de livros) e sigo escrevendo poesia e agora me dedicando também à narrativa, coisa que adiei por muito tempo por causa das benditas produções acadêmicas.
 
 
Está conseguindo consumir mais cultura? Acredita que de maneira geral as pessoas passaram a ler mais?
 
Sim, estou consumindo mais cultura. Vendo mais filmes e séries, lendo umas 3 vezes mais literatura, participando de lives culturais. Infelizmente, não tenho consumido espetáculos teatrais e  shows, a não ser alguns organizados virtualmente. Nesse ponto, até aumentei o consumo; antes precisaria sair de casa e eu não estava podendo fazer isso. Eu acredito que, de uma maneira geral, as pessoas estão lendo mais sim. O que não quer dizer que aumentou o número de leitores, aumentou sim o número de livros lidos, mas, provavelmente, pelos mesmos leitores de sempre. Eu penso que, dificilmente, uma pessoa se torna leitor numa pandemia. Ao contrário, talvez até muitos processos formativos tenham sido prejudicados com a paralisação das aulas. 
 
 
Quais seus projetos literários durante este período ou para o pós-pandemia?
 
Eu estou finalizando um livro de poesia. Na verdade, o livro já estava pronto, mas, quando voltou com as observações do editor, ao invés de apenas fazer as pequenas revisões, acabei mudando quase tudo (coitado de Márcio Simões que terá que ler tudo de novo). Eu sou do tipo que reescreve milhões de vezes um poema. Enquanto não  é publicado tenho uma relação muito estranha com os versos. Tem dias que ele me agrada do jeito que está, em outros dias, acho que está ruim e aí reescrevo. O título do livro é Bicicletas para descer ladeiras à noite, que é também título de uma xilogravura de Muirakytan  Macedo, com quem tenho a honra de estar casada. Esse livro tem uma proposta diferente, porque não tem o compromisso social que teve À unha. É um livro que tem muitas dicções. Uma delas é amorosa, compõe, talvez, mais da metade da obra. Aí estão poemas dedicados, poemas escritos a partir de pessoas que amo. O restante não segue uma linha coesa. Tento escapar da armadilha da emoção. Sabe, isso de que parece que toda poesia tem que  abordar a profundidade do instante ou das coisas?  Então são poemas que ora são amargos, ora são risíveis, ora não são nem uma coisa nem outra, estão ali na superfície, sem nenhuma pretensão de afundar ou levitar ninguém. Nessa finalização do livro, estou experimentando escapar das rimas, mas pense numa coisa difícil. Estou tentando escrever sobre isso, não sei o que vai sair. Fora a poesia, estou trabalhando em uma narrativa. É a história de uma amiga que foi ganhar a vida como faxineira em Nova Yorque. É uma espécie de biografia romanceada, vamos dizer assim. Tem uma parte também autobiográfica, mas estou decidindo se mantenho ou não. Dei uma parada para poder finalizar o de poesia, que deveria ter sido publicado agora em julho, mas eu não consigo parar de reescrever, espero me livrar do danado até o final desta semana. A narrativa foi iniciada no final do ano passado, está mais ou menos na metade. Eu nunca escrevi no gênero prosa, a não ser os textos acadêmicos, então será um teste para mim. Tomara que eu me saia bem, senão, o jeito é cair fora (rs)
 
 
Qual a sua opinião sobre as lives literárias?
 
Talvez o que tenha acontecido de mais criativo no isolamento tenha sido a popularização do formato das lives. Eu gosto de estar em casa e gosto do circuito cultural também, então achei isso ótimo. Não costumo sair para ver os artistas. Nem mesmo minha filha, Maria fxntes, que lançou recentemente o álbum Salmoura, costumava me ter na platéia. E olhe que ela está no meio artístico há uns dez anos. Recentemente, ela ganhou o primeiro lugar na categoria autoral geral, do “Música transforma 2020”,  que faz parte do projeto “Som sem plugs”. Pois bem, fiquei feliz demais por poder assisti-la sem sair de casa (rs).  O problema das lives é que pipocou. São muitas e acaba que algumas disputam o mesmo público e no mesmo horário. Mas eu acho que, após a pandemia, voltam as modalidade presenciais e diminuem as lives, aí talvez elas sejam repensadas para atender o público que gosta de ficar em casa. No caso específico das lives literárias, eu penso que elas vieram para ficar, especialmente aquelas que geram discussão ou a leitura apenas, sem a performance própria das produções mais orais da contemporaneidade, em que há uma relação muito próxima do verso com a voz e com o corpo. Acredito que as batalhas de MC’s , que trazem fortemente as temáticas políticas e sociais comuns ao rap e hip hop, são mais impactantes quando realizadas presencialmente. De qualquer forma, está difícil prever qualquer coisa no Brasil. Tenho a impressão de que estou numa distopia, então tenho dificuldade de pensar o futuro.
 
 
Como acha que serão os lançamentos e eventos literários no chamado "novo normal".
 
Até isso de falar em  “novo normal”  me parece estranho. Eu penso que logo teremos uma vacina e voltaremos ao velho normal. Não acredito que, coletivamente, tiremos grandes lições. Basta ver as filas para entrar em shopping. O que é isso senão a prova de que continuamos os mesmos e vivemos, talvez, até pior do que nossos pais? Não sou do tipo muito saudosista não. Sempre achei que, bem ou mal, ainda que com alguns retrocessos, a gente caminha mesmo é para a frente. Mas, sabe, estou refletindo sobre isso. Talvez a gente dê algum salto em algum momento, talvez a gente vá devagarzinho, talvez a gente fique um tempo estacionado, mas uma coisa é certa: os lançamentos e os eventos literários continuarão, ainda que ao lado da perversidade, das péssimas políticas, de tudo que há de ruim. Eu acho que, no que diz respeito ao campo da literatura, demoraremos mais um pouco a voltar ao antigo esquema de lançamentos e eventos, mas eles voltarão como antes. As pessoas gostam de se encontrar e quem gosta de literatura vai para onde sabe que tem gente que também gosta de literatura. A diferença é que teremos outras opções, outras modalidades de encontros. Por exemplo: sábado, dia 1º de agosto,  houve o encontro do Leia Mulheres, oportunidade em que tive a alegria de discutir com um monte de mulheres (e um homem) a proposta feminista do meu livro À unha. Ficamos mais ou menos 3horas discutindo literatura. Os encontros antes eram presenciais,  em espaços cuidadosamente escolhidos. Não sei se os encontros do Leia Mulheres no “novo normal” permanecerão virtuais ou voltarão a ser como antes, se haverá alternância das modalidades. Espero que sejam virtuais, com um ou outro encontro físico. No fim das contas, a vida é assim como uma receita de filé à parmegiana em que a gente troca o filé pela alcatra e a farinha de rosca pela de trigo, dependendo do que se tem em casa. (Falei de receita só porque lembrei de uma live sua com Théo e que eu me diverti com a conversa de vcs.)