O artista potiguar em tempos de pandemia e isolamento: Bucka Dantas

13/09/2020

Por: CEFAS CARVALHO
Cineasta, militante cultural, inquieto e produtivo, Bucka Dantas é natural de Currais Novos e mora atualmente em Natal, embora tenha muitos projetos no Seridó. Bucka, foi diretor e produtor do projeto Brasil Total, na Rede Globo, entre 2002 e 2004, e consultor do Canal Futura entre 2005 e 2009, onde contribuiu com os projetos “A Cor da Cultura” e “Revelando os Brasis”. Em 2004 realizou o filme-documentário “Fabião das Queimadas – Poeta da liberdade”, produzido para o Programa DOCTV, filme vencedor do 1° Festival de Cinema e Sertão do Ceará, em 2005, e convidado para participar do VI Imacom, no mesmo ano, em Cuba. Em 2006 cria, em parceria com Geraldo Cavalcanti, o “Cinema Processo”, para o qual realizam o filme “Viva o Cinema Brasileiro!” com artistas convidados. Dirigiu diversos outros curtas e clipes e em bate papo com o Portal PN falou como está sendo a produção neste período e quais os projetos. Confira:
 
 
Recentemente você dirigiu o recém lançado clipe de "My World", de Babal. Como foi essa experiência?
 
Muito prazeroso. Recebi o convite de Babal como um presente. O considero um artista fenomenal, de uma criatividade musical ímpar, singular. Babal tem uma facilidade criativa musical que me impressiona. A trilha sonora que ele criou para meu filme “Fabião das Queimadas” é premiada, por exemplo. "My World" é um blues, meu estilo de música preferido, criado por Babal e seu irmã João Galvão. Então que foi mais um motivo pra aceitar fazer. Assim que ouvi me veio em mente os últimos clipes do Leonardo Cohen, em cuja fonte bebemos descaradamente. Convidei meu parceiro Teotônio Roque para assinar a fotografia e Castelo Casado para a luz. A luz é praticamente uma personagem nesse clipe, de tão significativa que ficou. Gravamos em dois ambientes: na vila da mina Brejui, em Currais Novos, e no Teatro de Cultura Popular Chico Daniel, aqui em Natal. O clipe, par além da música, narra uma história subjacente à memória afetiva da personagem fictícia daquele músico, que não é Babal [embora representado por ele]. Reminiscências de uma vida não vivida, idealizada. Tem um roteiro circular, terminando no mesmo ponto em que começa, sugerindo um lugar comum na vida nômade de bluesman. A parte técnica de captação e montagem é de um jovem talento, Xablair. Gostei demais do resultado.
 
 
Seu filme "Meu Tempo é Quando?", em parceria com Rosalia Figueiredo, foi selecionado na sessão Drive In Natal, que terá exibição em outubro. Fale sobre esse trabalho e a expectativa desta exibição.
 
O filme, na realidade, é de Rosália com participação minha. É um poema cinematografado. Uma história de amor em suspensão, com os silêncios marcando e pontuando o tempo das coisas. Sem pressa, que deixa as imagens respirarem. Foi gravado em 2015 e pra nós é uma felicidade eu ainda desperte interesse em um festival. Foi feito como uma joia que se possa ter numa caixinha, a ser destacada em momentos de ternura. A música no final, do João Salinas, reflete esse clima. Curiosamente, é também um filme do qual faço parte e que tem a trilha sonora premiada. É um bom sinal, não é [posto que sou um músico muito frustrado].
 
 
Está conseguindo mesmo confinado escrever roteiros, ter ideias e produzir arte?
 
Rapaz, te confesso aqui que comecei essa história de fazer cinema querendo ser roteirista. Uma paixão que, infelizmente, percebi que não era a minha praia. Terminei me transformando em diretor, que pra mim me parece um trabalho mais da ordem sentimental que da técnica. Digo isso pra te responder que não tô fazendo roteiro, mas adaptando um antigo pra um romance. E isso depois de assistir suas lives com Theo Alves e Jeanne Araújo. Mas a coisa tá indo bem mais devagar do que gosto de pensar ser satisfatório. Mas durante essa pandemia fiz dois trabalhos [além do clipe de Babal] que me deram muito prazer. Um clipe para o programa RN + Saudável, com música de Pedrinho Mendes e Paula Érica. Gravado com a participação de vários artistas, cada um em sua casa. O outro, de proposição minha mesmo, foi uma versão gravada do poema “Instrucciones para capear el mal tempo”, do dramaturgo argentino Alejandro Robino, com a participação do próprio autor e de vários artistas do Brasil [a única participação estrangeira, além de Alejandro, é de Mathieu Duvignaud, artista francês]. Esse poema é largamente [e equivocadamente] apontado na internet como de autoria do escritor, jornalista, poeta e militante político argentino Paco Urondo (1930-1976), desaparecido desde 17 de junho de 1976 [curiosamente, o dia de meu aniversário]. No entanto, é de autoria mesmo do Alejandro, também militante de esquerda. O fiz como um documento histórico, uma mensagem para a posteridade do que estávamos fazendo nesses tempos que denomino Nova Idade das Trevas a vigorar tanto no Brasil quanto no mundo.
 
 
Como acha que será o cinema enquanto experiência coletiva e externa no chamado novo normal?
 
Deverá seguir célere no sentido do Prêt-à-porter. Um cinema sem o que julgo ser a sua alma, que é a experiência coletiva de fruição. O cinema é uma arte do século XX, da eletricidade. Vejo um paralelo sedutor entre o cinema e a figura ficcional do conde Drácula. Ambos do final do século XIX, que se beneficiam da inventividade aristocrática para uma existência na penumbra. Surgiu para ser apreciado em comunidade, numa catarse grupal e em ambiente escuro, difuso, sugestivo e profundamente lúdico e criativo. Chega no século 21 como uma experiência particular, solitária, quase que banal e para distrair. Cinema como expressão de arte nunca será distração, diversão. Será sempre um discurso político cultural e deverá sobreviver em templos, catedrais subterrâneas e subversivas ao status quo. Continuará sua evolução para a apreciação individual, mas a sua feitura coletiva deverá se manter.
 
 
Quais os seus proximos projetos?
 
Duas frentes: literatura  cinema. Na escritura, coisas pra criança [meu filho tem 4 anos e quero fazer antes do letramento dele] e um atrevimento na ficção/distopia. Vamos ver no que dá. Em cinema, não tenho interesse mais no experimentalismo. Já fiz isso e fui muito feliz. Tô até num mestrado em cinema, buscando as raízes conceituais do Cinema Processo, que criei no início dos anos 2000 com o auxílio criativo de Geraldo Cavalcanti, Mathieu, Henrique Fontes e uma galera muito massa, resultando no filme-processo-manifesto “Viva o Cinema Brasileiro!”. Passei alguns anos parado, desapontado até. Mas finalmente cheguei a uma confluência de interesses que, creio, vai me permitir realizar o que já tenho planejado há uns 20 anos. Uma coisa de cada vez e sem pressa. Um curta e um longa. Já foi dada a largada e será levada a cabo por pessoas capacitadas em cada etapa e saberes. Gostaria de não deixar público ainda o que será, até para que as coisas sejam o que devem ser. Mas estamos bastante esperançosos, afinal, é de esperança que se vale a pena viver.