Artista potiguar em tempos de Pandemia e Isolamento: Flávia Arruda

24/09/2020

Por: CEFAS CARVALHO
 
A escritora mossoroense Flávia Arruda  é autora do elogiado livro “As Esquinas da Minha Essência”, lançado pela editora Sarau das Letras e vem se destacando em portais culturais com crônicas e poesias atentas e sensíveis sobre o cotidiano. Confira entrevista concedida ao Portal PN sobre produzir neste período, projeto Boudoir , participação em antologias literárias e opiniões sobre aspectos diversos:
 
 
Como está sendo escrever, produzir neste período de pandemia e confinamento?
 
Nos primeiros dias foi muito difícil. O pânico que se instalou diante de todo o cenário mundial, por causa das consequências catastróficas pelo início da pandemia do corona vírus, paralisou-me de tal forma, que não conseguia sequer fechar os olhos, tampouco escrever, e quando conseguia dar um breve cochilo, eram os piores pesadelos que se apossavam de meu sono. Um dia, já não aguentando mais, resolvi que teria de reagir, sentei de frente para o computador comecei a rabiscar nada com nada, apenas exorcizando através das palavras os fantasmas que me rondavam, dali por diante não parei mais, da prosa a poesia tudo era tema a ser escrito. Tenho me dedicado a literatura bem mais que antes do confinamento, colocando as leituras em dia, revendo velhos conceitos, buscando no momento vivido reflexões para o crescimento da alma. As crônicas têm me rendido bons frutos, novas poesias nasceram desse período, as prosas poéticas têm externado aquilo que mais me une a literatura, apesar de toda dor: o amor. Iniciei projetos que nunca havia sequer imaginado, como o projeto Entre versos, luz, prosa e paixão, que nasceu de um ensaio Boudoir, em parceria com duas amigas de infância, fotógrafas profissionais, realizado em plena pandemia. Nesse período também participei do quinto volume da antologia da confraria literária Café&Poesia e do terceiro volume da Antologia Exercícios Literários, também da confraria Café&Poesia. Um, Café & Poesia 5, está preste a sair do forno; o outro, Exercícios Literários III, já está circulando entre os amantes da leitura. Nesses seis meses de confinamento arrisco dizer que produzi muito mais que nos últimos 18 meses que antecede o período pandêmico. 
 
 
Você é autora do livro "As esquinas da minha existência". Fale sobre ele.
 
As esquinas da minha existência é o meu primeiro rebento, minha iniciação no mundo literário, o meu engatinhar. Digo isso por me descobrir escritora, em 2014, e no ano seguinte (2015), ousar lançar meu primeiro livro autoral. Confesso que escrever esse livro foi mais um exercício de reconhecimento de mim, uma autorreflexão e descobertas de alguém que até então não imaginava que existisse algo tão libertador quanto escrever. As Esquinas da Minha Existência é um livro que contém crônicas diversas, algumas cheias de humor, outras irônicas e inusitadas e uma boa parte delas são prosas poéticas disfarçadas de crônicas. O livro em si está dividido em quatro partes: a 1ª parte: Os tijolos que me constroem, fala sobre a escritora e sua personalidade; na 2ª parte, Estação primeira, as crônicas são dedicadas ao amor e a família; na 3ª parte, deparamo-nos com Os becos e vielas do pensamento, que traz, em escritos, os dias e as reflexões da vida pela autora; e, por fim, na 4ª parte, Cruzando avenidas, que são crônicas voltadas para o cotidiano. Uma leitura recheada de metáforas, indagações, impressões e diversão.   
 
 
Você publica crônicas em veículos e redes. Qual seu processo de escrever crônicas? Baseia-se no que vê ou no seu universo interior?
 
Sim, escrevo quinzenalmente para o Jornal de Fato de Mossoró e para o Blog Ponto de Vista, além de alimentar minhas redes sociais quase diariamente com poesias, prosas e crônicas. Interessante você perguntar como se dá o meu processo criativo de construção dos escritos. Na verdade, não existe uma única forma de gestação, cada nascimento se dá de um jeito bem próprio. Por exemplo, já acordei nas madrugadas, inúmeras vezes, para escrever, ouvindo conselhos das estrelas, vendo a lua me observar, mandando-me recados da noite, cochichando sons que só se ouve nos primeiros raios de sol, quando os pássaros nos anunciam um novo dia. Já escrevi diversas crônicas a partir de cenas vistas no meu cotidiano, como a cena de uma mulher de saltos altos cambaleando sobre uma calçada esburacada, a cena de um menino fazendo arremesso de cuspe para sua mãe ao sair do colégio dizendo o que tinha aprendido naquele dia, sobre o que pode dizer uma manga tirada do pé ou mesmo uma topada no meio da rua... Eu creio que a escrita nasce em mim quando algo me chama a atenção, ou seja, por mais que o tema seja algo que eu tenha visto, sempre estará relacionado com o meu universo interior. Costumo dizer que só consigo escrever aquilo que sinto, ou seja, sangro em letras.
 
 
Você tem uma poesia de autodescoberta, passional, que evoca amor e corpo. Fale sobre sua obra poética.
 
O amor me define, em todas as suas nuances. Não sei falar sobre nada que não esteja relacionado àquilo em que acredito e sinto. Não tenho muitas verdades, e acho que isso me motiva. As dúvidas que me povoam são meu gás para buscar estratégias de sobrevivência nesse mundo cheio de ódio, rancor, falsidade, carregado de ego e de disputa. Aprendi que a minha maior concorrente sou eu mesma, não é sobre a matéria e, sim, sobre o espírito, sobre a alma. Sempre busco leveza em meus textos, os leitores mais atentos tendem a descobrir mais coisas nas entrelinhas, no entanto, gosto de conversar com as palavras sobre minhas dores e meus amores, minhas descobertas e minhas interrogações que, diga-se de passagem, são, em números, bem maiores que as minhas afirmações.
 
 
Nas redes sociais você tem uma postura literária e pessoal de empoderamento feminino e autoestima. Como foi esse processo e qual o retorno que recebe das mulheres?
 
Esse é um assunto que praticamente não abordo diretamente nos meus textos, mas que foi o estopim para tudo que me proponho e me impulsiona a escrever, por muitos anos estive em uma relação abusiva, sofri vários tipos de pressões e tantas outras coisas que tão combatidas pela bandeira feminista. Não havia intenção, ou algo preestabelecido, ou uma causa específica, eu estava apenas tentando me redescobrir, me encontrar e me permitir àquilo que mais tenho apreço na vida: o amor. Não escolhi bandeira, acho que ela me escolheu, esse empoderamento feminino e autoestima que você fala vem nascendo naturalmente, pois, nem sempre foi assim. Entretanto, tudo começa quando entendemos que padrões de beleza, biotipos, idade, gênero são conceitos que não devem ser definidos, definitivos ou determinantes em nossas vidas, por isso sou muito grata por todas as minhas interrogações, foram elas que me levaram a questionar o porquê das coisas serem assim. Quando conseguimos nos amar por completo os pecados e culpas que nos incutiram ao longo de nossa existência se dissipam dando lugar a alegria de se ver, de se viver, de se querer e se amar. Ah, isso não quer dizer que há alguns pedaços indesejáveis, pelo contrário, eu me gosto apesar deles. Não é fácil, confesso, porém, não é impossível. E eu me enxergo alguém que soube se olhar através do espelho e rasgar as vestes da hipocrisia tecida por uma sociedade que nos intoxica com protótipos de felicidade construídos em salas de cirurgias plásticas. Acho que uma boa parcela desse empoderamento feminino chega para mim através do presente que recebi de duas amigas fotógrafas, o ensaio sensual, que revela uma beleza que nem eu enxergava, a beleza que há em toda mulher, aquela que sai da leveza da alma. Tenho recebido muitos retornos, alguns negativos, porém, a maioria são retornos positivos, principalmente das mulheres. Delas, já recebi depoimentos fortes, pois, muitas veem, em mim, a força e o incentivo que lhes faltam. Importante dizer que essa nova fase que tem se revelado para mim é a força que eu estava precisando para continuar, ou seja, precisamos umas das outras para conseguirmos superar nossos obstáculos comuns e próprios.