Iara Carvalho: “O isolamento aproximou pessoas que produzem Literatura no país"

03/11/2020

Por: CEFAS CARVALHO
 
Curraisnovense nascida em 1980 Iara Carvalho é graduada em Letras e Mestra em Estudos da Linguagem, pela UFRN, sendo há tempos uma das poetas mais significativas do Rio Grande do Norte. Foi uma das fundadoras do Grupo Casarão de Poesia, é premiada em diversos concursos literários e tem dois livros publicados, “Milagreira” (2011) e “Saraivada” (2015). Em entrevista ao Portal Potiguar Notícias, ela falou sobre processo criativo durante pandemia e isolamento, de lives literárias e sobre o novo livro que sairá em breve por uma editora paulista. Confira.
 
 
Na sua opinião, este tempo de isolamento e pandemia vai afetar a produção e divulgação artística de que maneira?
 
Sem querer romantizar um período tão difícil em tantos aspectos, penso que muitos artistas concordam que essa época de isolamento aproximou várias pessoas que estão produzindo arte nos vários cantos do país. A virtualidade acomodou diversas demandas criativas que, em “tempos normais”, ficariam mais restritas às suas cidades e regiões. Eu, por exemplo, passei a ter contato com muita gente massa fazendo literatura pelo Brasil todo, através da minha participação no Simpósio de Poetas Bêbadxs, uma iniciativa idealizada pelos poetas Andri Carvão (SP) e Thiago Medeiros (PE). Tanto tive acesso a excelentes produções de diversos lugares, quanto pude ser lida por vários olhares que nos redimensionam como escritores e seres humanos.
 
 
Conseguiu ou está conseguindo produzir poesia, arte em geral neste período, em isolamento?
 
Nesse período de isolamento, eu optei por não me cobrar nenhum tipo de produtividade, além das mais urgentes. Não que a poesia não seja urgente, mas gosto de manter com ela certa espontaneidade até o ponto da paixão virar rigor, no sentido do trabalho estético mais dedicado e criterioso. Quanto a esse aspecto, preferi me dedicar a finalizar o meu terceiro livro de poemas pra enviar à editora. Com essas escolhas, percebi maiores chances de atravessar o isolamento com um pouco de leveza, sem cobranças, primando pela liberdade que pude construir, mesmo em tempos de certo aprisionamento. Mas a poesia está aqui, ela sempre me ronda com suas saias quilométricas e coloridas, pronta pra me vestir ou me devastar.
 
 
Como acha que serão os saraus, eventos literários no chamado pós-pandemia?
 
Ainda há muito mistério rondando o que se chama de pós-pandemia ou “novo normal”, mas acredito que a experiência do isolamento ressignificou nas pessoas o sentido dos encontros presenciais. Eu imagino que, quando for possível a imunização com relação ao vírus, haverá um tempo de êxtase em tudo que envolva abraços, beijos, afetividade com toque, e isso será maravilhoso, mas, ao mesmo tempo, misterioso quanto aos perigos dos excessos. Eu, particularmente, sou adepta aos perigos, então minha torcida é que esse tempo nos chegue logo e que cada um possa ter o direito de fruir da poesia e da vida com toda a liberdade possível.
 
 
Você vai lançar seu novo livro por uma editora paulista. Pode falar sobre o livro e o processo?
 
Meu próximo livro de poemas se chama “Meia porção de sol”, uma reunião de quase cinquenta poemas escritos ao longo dos últimos cinco anos. É uma trajetória de lirismo que atravessa lembranças e deslembranças, numa tentativa de revelar as sinuosidades de ser humana, mulher, mãe, filha, poeta. Fiquei muito feliz e honrada dos meus originais terem sido apreciados e aceitos para publicação pela Editora Patuá, por cujo trabalho tenho grande admiração e respeito. Após cinco anos do lançamento de Saraivada, urge em mim a necessidade de mais uma vez vir ao mundo em forma de poesia, que é minha forma mais completa de ser.
 
 
Qual sua opinião sobre as lives literárias? E como avalia sua participação nelas?
 
Achei que esse formato foi muito interessante para divulgação dos nossos trabalhos e para interação entre poetas de vários lugares do país. A partir das lives, pude ter acesso a uma diversidade incrível de produções literárias e a muita gente instigante no cenário das letras. Além de tudo isso, está sendo um refúgio importante onde encontramos maneiras diferentes e mais leves de respirar nesses tempos tão difíceis.