Tiago Silva: ´Arte é essencial e neste período percebemos isso mais nitidamente`

24/11/2020

Por: CEFAS CARVALHO
 
Poeta, estudante de jornalismo, Tiago Silva vem se destacando pelos versos e pela militância cultural entre a novíssima geração de poetas e participantes de zines. É militante do Rebeldia – Juventude da Revolução Socialista, do Coletivo LGBT Auroras e também do PSTU. Tem textos jornalísticos e literários publicados em alguns sites. Autor do zine “Sangria”. ele prepara novos projetos e conversou sobre arte em tempos de pandemia e muito mais. Confira:
 
 
Você conseguiu produzir poesia durante a pandemia e o isolamento? Como foi sua vida criativa neste período? 
 
Este período de pandemia e isolamento social me causou imenso cansaço de alma. Ela nos tirou muitas coisas, muitas pessoas. O mundo é uma fratura exposta dolorosa. Estamos imersos em luto. Então, tudo isso nos afeta. As relações remotas não substituem o contato físico, o olho no olho, o café na padaria do final da tarde. O abraço! É como se fôssemos radioativos. Digo isso porque as pessoas me inspiram. Muitas ideias surgiram de conversas alheias nos ônibus (risos), por exemplo. Da observação de pessoas caminhando no Centro da cidade, no Alecrim, na feira. O mar! Sim, o mar é fonte inesgotável de inspiração. O vibrar cintilante das ondas, ir com amigos à praia, o hálito fatal do Atlântico. O mar resgata muitas lembranças da gente. E ficar longe de tudo isso, mais a tenção de contrair Covid-19 ou perder alguém...nossa criatividade fica fadigada. Mas depende. Algumas pessoas produziram muito, outras não. No meu caso, minha produção ficou mais tímida, mas presente. Alguns poemas trágicos, apocalípticos e com a temática da morte: “sem coragem para o amor/ observo sagrados anjos se atirarem pela janela/ nos meus abismos secretos vibram estrelas de níquel/ a água turva de outros outonos/ conduz à catástrofe/ sou feita de sequências oníricas e células rompidas/ sagrados profetas, derramem sobre meu corpo/ e devolvam ao mundo a esperança”. Olhava o mundo da janela e sentia. Quando tinha sorte, o vento sussurrava versos. 
 
 
A poesia alternativa/vanguardista é municiada por intervenções e eventos ao vivo, o que ficou difícil com a pandemia. Como será a poesia não convencional e os eventos presenciais no pós-pandemia?
 
 O ao vivo é vivo, intenso, brilhante, quente; um animal selvagem respirando. Temos vários elementos interagindo. Quando declamamos poemas nesses espaços, a experiência de apreciação é mais completa. Nos saraus, por exemplo, temos várias linguagens artísticas dialogando. Declamar olhando para as pessoas, circular entre a plateia, a entonação da voz, a expressão do rosto, sentir a reação das pessoas. Poder gritar versos! Tudo isso melhora a performance poética.  Há muitas e muitos poetas incríveis em Natal que resistem e não deixam a arte morrer, que acreditam na poesia. Então veio a crise sanitária e precisamos nos resguardar para manter nossa segurança. A alternativa durante a quarentema foram as lives. Mas esse “novo normal” é tão estranho...A pandemia ainda não foi embora, a crise social só aumenta, pessoas são assassinadas por serem negras. Acho que quando a vacina estiver disponível para todas e todos e pudermos pelo menos abraçar sem medo, gritaremos nossos versos com mais intensidade.
 
 
E sobre zines, fale do que você lançou e dos projetos futuros
 
 Lancei meu primeiro zine, “Sangria”, no final do ano passado. Foi fruto de um desejo indomável. Adoro a metáfora do sangue. Sangria, fazer sangrar. Amo um poema do Bandeira em que ele diz que faz versos como quem morre, como quem chora. Tem coisa mais linda? O verso vivo, verso-sangue. Intenso, quente.  Foi maravilhoso dar vida a ele, ter meus poemas materializados numa publicação. Todo o processo de criação foi maravilhoso: a escolha dos textos, pensar a capa, imprimir. Tudo bem cru, simples. Acho que isso é o mais legal. Adoro esse suporte que carrega os poemas para longe e que faz a poesia circular, sem burocracias. Ajuda a aproximar a arte. Ah, e tem uma rebeldia, uma liberdade...
 
 
Como observa a situação de poetas e músicos que viviam de eventos culturais? Como é possível ajuda-los? 
 
Os espaços culturais foram fechados durante a pandemia, como medida de segurança para conter o avanço do coronavírus. Uma situação muito difícil para as trabalhadoras e trabalhadores da cultura. Muitas agendas foram canceladas. E o Governo Federal não garantiu auxílio emergencial suficiente. As apresentações virtuais foram uma saída. A arte é essencial para podermos enfrentar esta vida que dói, para dar um pouco de sentido às coisas. Nesse período de quarentena percebemos isso mais nitidamente. Hoje, muitos espaços já estão funcionando, obedecendo protocolos de segurança. Temos artistas incríveis no nosso estado. Tenho muito orgulho de ser potiguar. Nossa poesia então...amo demais. Políticas de incentivo à cultura são muito importantes. Temos que lutar pela valorização da nossa arte.
 
 
O que você está fazendo neste momento e quais seus projetos para 2021?
 
 Estou terminando meu curso de Jornalismo na UFRN, fazendo uns bicos em comunicação e escrevendo. Tenho alguns textos na gaveta, antigos e recentes. Um novo zine, um livro...não sei ainda. O futuro é tão impreciso. Só sei que continuarei escrevendo. E lutando.