Rousi Flor: ´Como artistas, temos que aprender a lição e criar um mercado novo`

27/11/2020

Por: CEFAS CARVALHO
Foto: Gustavo Matos
 
 
Alagoana que fez vida e carreira artística em Natal (e em Pium/Parnamirim) e também morou em Olinda, Rousi Flor de Caeté é cantora e compositora. Tem projetos de destaque como o álbum/performance Pedra Flor e uma militância cultural nas redes sociais. Confira entrevista que ela concedeu para o Portal PN:
 
Você vem realizando pelas redes sociais o experimento/performance Pedra Flor. Fale sobre esse projeto.
 
Quando comecei a cantar minhas composições eu não conhecia o mercado musical, sai experimentando e as situações foram se configurando no tempo. Moro em Natal a 32 anos, mas em 2015 senti uma grande necessidade de ir para a terra onde nasci, Maceió, e lá fiz uma música chamada Canto de Transição. Por acaso, conheci um coletivo de músicos independentes que desenvolviam um estúdio experimental e embarcamos juntos. Em 2016 voltei lá para gravar. Lancei quatro músicas nesse período, no YouTube mesmo, nessa viagem conheci um produtor que acreditou no trabalho e propôs uma ponte entre mim e uma cantora pernambucana. Abri o show dela em Pium, aqui no RN, e lancei estas músicas. De lá pra cá foram vários movimentos assim até eu entender que o que eu queria mesmo era me expressar. Do ponto de vista do mercado eu errei e acertei, pois não me preocupava com perfeccionismo, mas em fazer, então gastei muito dinheiro, apostei fichas onde não precisava, perdi tempo. Foi aí que entendi que era exatamente esse movimento de errância que me impulsionava a criar. Era o processo que me interessava e descobri que a arte era uma grande aliada para eu me conhecer melhor. Além da música, que foi uma grande parceira de autocuras, outras linguagens surgiram: o teatro, o cinema, a percussão, a poesia, a dança. Tudo que eu amava fazer podia juntar e fazer num lugar só, que era o palco. Foi desse lugar de errância e experimentação que surgiu Pedra Flor. A primeira apresentação foi em 2018, de lá pra cá foram várias apresentações com um roteiro mínimo fixo que são as músicas autorais e os temas( feminismo, autoconhecimento, ancestralidade, espiritualidade e a vivência como mulher não branca no Brasil) o restante é improvisação com o público e cada experimento traz temas novos, é muito rico o aprendizado. A performance abriu caminhos para que eu investigasse o meu corpo nas intersecções entre estas linguagens, me conhecesse melhor como mulher, artista. Quando veio o isolamento demorei muito para trazer a performance para a internet, na verdade, nem trouxe, o que faço recentemente são lives experimentando temas de Pedra Flor junto ao público. E daí é outra pegada, porque o público da internet é outro. É um novo começo. O tema desta semana é sobre a Reconexão com a criança interior, que para mim é de onde partiu a performance. Ela partiu das memórias infantis de dor, mas é um lugar que criei para brincar, pois não consigo dissociar a arte da espontaneidade infantil, que muitos de nós perdemos.
 
 
Vem conseguindo escrever, compor, produzir arte durante este período de pandemia e isolamento?
 
A pandemia não acabou e está aí o aumento de casos. Então tenho me cuidado como posso e permaneço isolada. Durante os primeiros meses de isolamento meu foco foi o cuidado. Busquei mudar hábitos de forma rápida e ver no que poderia contribuir com outras pessoas, mesmo isolada. Três meses depois eu quis fechar alguns ciclos, conclui e lancei um livro e duas músicas. A partir daí voltei a compor músicas e a criar a performance. 
 
 
Qual a importãncia das lives para artistas neste período?
 
Eu vejo como uma forma de se aproximar das pessoas e se expressar. Profissionalmente é uma boa estratégia para mobilizar o público.O legal do ao vivo é que você sente a energia do outro. Fico imaginando como seria para o artista se não tivéssemos internet, embora eu acredite que este retorno ao ambiente criativo mais natural e orgânico possível é uma espécie de cura, sem querer ser apocalíptica, eu acho que devemos nos imaginar sem toda essa estrutura montada aí e repensar o verdadeiro papel do artista no mundo e para si mesmo. Ao mesmo tempo, esse processo solitário se materializa como arte no momento da partilha e aí só as lives salvam.
 
Do ponto de vista financeiro, acho importante o público compreender o quanto está sendo doloroso este momento para artistas que sobrevivem da arte e contribuir o quanto puder financeiramente com as lives.
 
Muito importante também é a criação de redes, conhecer novos artistas, dialogar com pessoas de lugares diferentes. Isso eu acho fantástico.
 
 
Como acha que será o cenário musical e de apresentações ao vivo no pós-pandemia?
 
Tenho acompanhado alguns festivais de música e alguns artistas. Acho sinceramente que a ficha não caiu e estamos tentando dar continuidade ao que já existe. É um movimento condicionado ainda a abertura dos estabelecimentos e não ao fim da pandemia e isso é totalmente compreensível porque é disso que vivemos. 
 
Uma coisa que achei positiva são os editais da Lei Aldir Blanc, são muitas oportunidades, os editais estão diversificados, porém não sei como ficarão as oportunidades quando passar a pandemia. 
 
As apresentações ao vivo presenciais, diante de uma vacina, seguirão como antes, acredito, mas o formato online acho que veio pra ficar, pois mesmo antes da pandemia a gente já consumia muita coisa pela internet.
 
Acredito que temos que virar o jogo politico, como já estamos fazendo nas urnas e isso dirá muito do futuro, se recuperarmos a construção da democracia.
 
Um vez recuperada é aprender a lição e tentar como artistas criar um mercado novo, com novos valores. Vejo ser criado o mesmo ciclo vicioso na arte: subversão, originalidade, arte independente, explosão de público, cooptação pelas grandes marcas e no final um trabalho que muito se distancia de toda a essência inicial. E o artista sempre na gangorra entre ganhar dinheiro e fazer o que acredita. Não culpo.
 
Eu tenho esperanças numa virada em 2022, mas até lá é luta e resistência.
 
 
Quais seus projetos culturais para 2021, contando que a vacina já estará disponível?
 
Estando viva, rss, quero gravar. Tenho mais de 40 composições, muitas estão disponíveis no YouTube e soundcloud, mas quase todas são gravações caseiras. Depois de gravar, quero levar a performance Pedra Flor para onde ainda não levei. Se eu não estiver mais por aqui fica a mensagem de que eu fiz tudo que pude e quis até agora como artista, que o sucesso importa muito, mas não deve ser a nossa principal meta, pois mesmo que ele venha, tem o seu tempo, que é o tempo da vida em si. No final das contas a arte de artistas incríveis só se tornaram importantes para a humanidade quando eles se foram e outros artistas incríveis são até hoje anônimos. 
 
E o que é um artista para ele mesmo? Alguém que correu atrás do sucesso ou viveu o presente como pôde, mas com inteireza e verdade?
 
Se a arte faz sentido para nós enquanto estamos vivos, nos mobiliza, nos permite ser e ir além, já chegamos lá. As outras coisas são consequências.
 
Nós morremos e esta é a grande lição da pandemia, buscar o sucesso é viver no futuro, que pode ser interrompido e exemplos não faltam.
 
Da forma como o mercado está o artista pode sacrificar muitas coisas e isso não é mais importante do que saborear cada passo dado com leveza, com cuidado e amor a si mesmo e à vida.
 
Sonhar acordado, ter prazer do acordar ao dormir, amar a vida e poder partilhar isso é estar presente no único tempo real, que é o aqui e agora.
 
Então eu desejo a mim e a todos nós artistas muitas realizações no presente e isso vale tanto para uma criação num quarto quanto para a aprovação num edital ou likes nas redes.
 
É sobre o que importa.
 
É sobre humildade, aprendizado e sustentabilidade fazendo o que se ama que quero falar e viver hoje, em 2021 e além.