ALFAMA, Joia de Lisboa…

28/11/2020


 

ALFAMA, Joia de Lisboa…
 
 
Alfama é considerado o bairro mais antigo de Lisboa, século VIII, e hoje é a joia de Lisboa, porém em outrora beirava a marginalidade, ficou ao abandono e a criminalidade prosperou; somente em meados da década de 90 começou a recuperação e atualmente é um belo exemplo a seguir. Muitos de seus prédios foram construídos e reconstruídos várias vezes, pelos romanos, árabes, portugueses e ao longo do tempo povos que lá passaram fizeram a sua história.
 
Uma curiosidade é que este bairro foi pouquíssimo atingido no terremoto de 1755. Está foi uma grande questão filosófica do séc. XVIII, a zona de Lisboa dos conventos, das pessoas ricas, inquisição, supostamente as mais santas foram quase destruídas na sua totalidade, enquanto Alfama era onde viviam as pessoas inconvenientes para à sociedade na época, ficou praticamente intacta. As coisas são determinadas por Deus ou são atribuídas a obras do acaso…
 
Alfama inicia a partir da Sé, Igreja de Santa Maria que nos reporta ao séc. XII, mas antes foi uma mesquita dos Almorávidas, mouros que dominaram a região por séculos e, anteriormente, seria um templo romano, pois sempre que Lisboa era ocupada existia alguma coisa neste sítio. Sua construção iniciou em 1143, somente após a reconquista cristã aos mouros e demorou por volta de 100 anos a ser concluída.
 
A estrutura viária vem desde o tempo dos romanos, a Sé ao centro e passagem pelo lado esquerdo e direito, pois é uma realidade que tem centenas de anos, com pormenores e construções diferentes. No seu interior há uma capela gótica onde encontramos no mesmo espaço vários tipos de arquitetura, pois na época das reconstruções não se preocupavam com estilo dominante daquele período em que foi construída. 
 
As igrejas eram utilizadas como fortalezas para defesa da região com paredes grossas, portas muito reforçadas e onde a luz penetra através de pequenas aberturas, arte românica nos séculos XI e XII. Serviam de refúgio às populações em situações de ataque inimigo, todavia as instituições religiosas participaram ativamente no processo de reconquistas.
 
Ainda mais adiante, o Bispo de Lisboa que era Dom Martinho Zamora foi atirado de cima desta igreja, a torre norte, 1383. Ocorreu uma disputa dinástica que vem a ser D. João I e a Rainha regente que estava mais ao lado dos espanhóis, então ao tomar partido dos castelhanos pagou o preço de sua escolha.
 
Lisboa era cercada por muralhas e possuía cerca de 20 ou 30 portas, todas tinha um nome, a Porta de Alfama acabou por nominar o bairro que significa fonte de águas quentes, águas boas (al-hamma) em árabe e nesta zona havia em abundância. Uma das torres que ainda existe por lá foi construída exatamente para proteger a recolha d’água e possibilitar somente o acesso de quem estaria dentro das muralhas, caso a cidade fosse sitiada.
 
Cabe destacar, todas as cidades portuguesas que existiam castelos sempre têm o “Beco do Quebra Costas”, era uma rua estreita que descia do castelo onde os defensores atiravam de cima de suas muralhas todo tipo de pedras, pedregulhos, coisas pesadas, azeite quente, quem recebia não ficava em bom estado, motivo do nome.
 
Este bairro pitoresco é conhecido, também, como o reino do fado. As casas de fado iniciam nas Cruzes da Sé e os shows incluem ementas com preços em torno de 40 euros por pessoa, mas há lugares que cobram apenas pela consumação que é o caso da Tasca do Chico na Rua dos Remédios. O fado começou a ter sucesso entre burgueses, intelectuais e aristocratas, mas estava muito associado a marginalidade, aos bairros populares e a população mais empobrecida.
 
Tive a oportunidade de caminhar pelas ruas e becos de Alfama em boa companhia de João Correia (João do Tuk), profissional do turismo que apresenta Lisboa aos visitantes com seus vastos conhecimentos da história portuguesa, durante o percurso passamos por várias tascas que são pequenos restaurantes que servem comida local, farta, bom preço, como também, um bom café. Aproveitamos para saborear um café na Tasca São Miguel, uma pequena pausa para apreciar e conhecer melhor os costumes é fundamental.
 
Um fato interessante que ocorreu na Rua do Salvador, as precedências eram muito importantes na organização social, portanto houve uma disputa entre dois nobres, um deles teriam que recuar para o outro passar, e assim, estaria a aceitar quem era menos importante que o outro se retrocedesse, então foi necessário o Rei D. Pedro II  intervir na discussão e, posteriormente, afixou as regras no local. Entretanto é considerado o sinal de trânsito mais antigo do mundo, 1686, e o mais curioso era a penalidade se caso não cumprissem, seria o exílio para o Rio de Janeiro que na altura não era conhecida como a cidade maravilhosa, cheia de encantos mil, coração do nosso Brasil…
 
O bairro é muito rico com belas histórias e inúmeras curiosidades, impossível descrever neste pequeno espaço. 
 
Tantos cantos, recantos e encantos portugueses…