Theo Alves entrevista a escritora Viviane Ferreira Santiago

29/11/2020

Por: THEO ALVES
A escritora Viviane Ferreira Santiago foi a grande vencedora do Prêmio Guarulhos, vencendo como Escritora do Ano e levando o 3º lugar na categoria Livro do Ano, com seu livro As Dez Marias.  A autora radicada no estado de São Paulo já venceu prêmios nas mais diversas categorias, como romance e literatura infantil, por exemplo. Viviane, que faz uma literatura que tem conquistado reconhecimento em todo o país ao vencer inúmeros prêmios e concursos nacionais, acaba de publicar “As Meninas de 22: Maiores que o Mundo” (Editora Patuá), em que reúne uma interessante pesquisa sobre o papel das mulheres na Semana de Arte Moderna de 1922 e ficção a partir dessas histórias reais. Conversamos com Viviane Ferreira Santiago a respeito de seu trabalho.
 
 
Viviane, você acaba de ganhar o Prêmio Guarulhos como Escritora do Ano, além de ter seu livro As Dez Marias também premiado como 3º lugar na categoria Livro do Ano. Sua lista de projetos e livros premiados nos últimos anos é enorme. Em que aspectos essas conquistas são importantes para você e o que elas dizem de seu trabalho?
 
Prêmios literários não determinam a qualidade de uma obra, no entanto, eles legitimam a mesma diante do público leitor e da crítica. Impulsionam as vendas e, principalmente, se o momento for aproveitado, geram uma alavanca momentânea na carreira do autor, de onde ele pode gerir bons contatos e contratos. Pessoalmente, cada prêmio representa muito para mim; é colheita de estudo, disciplina e intenso trabalho.
 
 
Seu livro mais recente é o romance As Meninas de 22: Maiores que O Mundo, que trata da presença feminina na realização da Semana de Arte Moderna de 1922. Como foi o processo de pesquisa para a realização deste trabalho e como é escrever sobre personagens reais em um universo criado por você?
 
Eu já me interessava por alguns nomes femininos do período Modernista. Havia lido biografias e livros de Pagu. Em 2019, quando os editais do PROAC expresso foram abertos, vi que haviam trazido a temática do centenário da Semana da Arte Moderna. Li alguns artigos e, de imediato, percebi a escassez de conteúdos contemporâneos sobre a importância que essas mulheres representaram para a arte na década de 20, deixando um legado e abertura para que novas artistas pudessem emergir no cenário nacional. Depois de definida a angulação do projeto e de ele ter sido selecionado para recepção da bolsa, dediquei-me por dois meses a uma pesquisa mais aprofundada sobre os cinco nomes femininos que protagonizam a obra. Já durante a criação, senti que o livro estava ficando técnico demais, então optei por mesclar uma narrativa histórica e jornalística com a ficção, embasada em fatos verídicos sobre As Meninas de 22.  Não é difícil trazer mulheres reais para o meu universo. Infelizmente, no Brasil, o caminho para igualdade de gênero caminha a passos lentos. Desse modo, a verossimilhança coloca-me muito próxima às minhas personagens.
 
 (“O PROAC Expresso Editais é um programa de investimento direto do Estado em projetos culturais através de concursos regulamentados na forma de editais. Cada edital é direcionado a um determinado segmento artístico e/ou cultural e, assim, encaminhado a moradores do Estado de São Paulo.”)
 
 
As lutas femininas estão presentes de maneira muito clara tanto em As Dez Marias quanto em As Meninas de 22. Que diferenças há no protagonismo feminino nos dois livros?
 
VFS: As Dez Marias mostra a mulher com um olhar mais doloroso e visceral sobre a luta diária enfrentada pelo feminino. São terrenos com consistências diferentes. As Dez Marias está mais focado em evidenciar as tormentas às quais somos expostas ao nos definirmos por mulheres, e o quanto a opressão, machismo e violência contra a mulher têm se perpetuado no país. E mais que isso: mostra até mesmo a conivência do Estado e da sociedade com essa condição.
 
As Meninas de 22, em contrapartida, traz figuras femininas que se assentam no território majoritariamente masculino e brilham. O preço pago por isso? Altíssimo. Pagu tentou suicídio por três vezes. É um livro que posiciona, ele recupera um protagonismo negado historicamente. 
 
 
Que relações você enxerga entre o papel desempenhado pelas artistas da Semana de Arte Moderna de 1922 e as que estão a escrever literatura nos nossos dias? Você, por exemplo, se sente herdeira dessa linhagem de artistas tão importantes para a história das artes brasileiras?
 
Herdeira legítima. Ser mulher e escrever literatura no Brasil foi e ainda é uma grande ousadia.
 
Claro que uma mulher que escreva hoje em dia possui muitos privilégios que foram negados às nossas ancestrais; na década de 20, uma mulher não podia sequer ter direito ao voto. Usavam de pseudônimos masculinos para se preservarem. Eu me sinto muito privilegiada por ser uma agente/mulher da literatura. Assumo firmemente o papel de tornar o cenário nacional mais receptivo e igualitário para as que virão depois de mim, assim como as que vieram antes me permitem hoje o direito a ter meu nome divulgado em uma entrevista feita por um homem, que me concede espaço para falar sobre o que sou como artista e mulher. 
 
 
O que alimenta e instiga você enquanto escritora? O que você tem lido, visto, ouvido e como essas coisas causam impacto no que você produz?
 
Enquanto estou escrevendo um livro busco não ler gêneros semelhantes, acredito ser inevitável algum tipo de influência. Tenho muitos desejos que me impulsionam como escritora. Antes de tudo, ser lida pelo maior número possível de leitores que minha literatura possa alcançar. 
 
Li recentemente Theo Alves, “Por que não enterramos o cão?”, Mário Baggio, “Espantos para uso diário”, e Emir Rossoni com “Domanda Nisio”. Esses, de contos. Todos, extraordinários. Estou lendo Controle de Natalia Borges Polesso e uma leva grande de livros infantis.
 
Estou assistindo Desalma (Globoplay) de Ana Paula Maia. O anterior foi o Gambito da Rainha (Netflix). Tenho escutado muito Belchior, Oswaldo Montenegro e Maria Rita. 
 
 
Quanto ao seu processo de trabalho com a literatura, como ele acontece? Que relações o seu processo de escrita tem entre o universo interior da autora e o mundo para além de você?
 
Minha vivência e minha realidade são muito fortes em tudo que escrevo. Tenho uma mente extremamente criativa e preciso me monitorar para não perder o foco de determinado projeto.
 
Quando tenho uma ideia que julgo boa o bastante, anoto, mas não inicio de imediato a criação do livro. Espero que ele, antes, crie caminhos em minha mente, como se pudesse, de certo modo, estar se escrevendo por dentro, para que só depois eu o coloque para fora. Como um filho, que antes de nascer passa por todo um processo de desenvolvimento e amadurecimento do próprio organismo, para só depois vir ao mundo.
 
 
Atualmente, o escritor precisa cumprir uma série de trabalhos que estão além de escrever os próprios livros. Cabe ao autor, por exemplo, divulgar, vender e distribuir sua obra. Como você lida com essas atividades e que papel as redes sociais desempenham no seu trabalho como autora?
 
Acredito que ninguém mais que o próprio autor deseja ver seu livro circulando. Seria muito triste escrever um livro para não ser lido por ninguém. Então assumo o papel de trabalhar no que posso o marketing de minhas obras. As redes sociais, sem dúvidas, encurtaram o caminho que nos leva ao leitor. Minhas vendas são 90% pelas redes sociais. A maior parte delas para leitores com os quais só possuo contato virtual.