Pablo Capistrano: ´O brasileiro lê pouco devido à falta de acesso ao livro`

07/01/2021

Por: CEFAS CARVALHO
 
Nascido em Natal no dia 7 de Fevereiro ´do ano da Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1974`, como ele mesmo descreve, de maneira algo irônica, em biografia nas redes, Pablo Capistrano é escritor, filósofo e professor do IFRN. Influenciado por Hermann Hesse, Jack Kerouack, Edgar Allan Poe, H. P. Lovecraft, Carl Sagan, HQs e rock gótico, além de contracultura, participou nos anos 90 do grupo de ação cultural Sótão 277 e se formou em Filosofia com mestrado em Metafísica pela UFRN. Publicou diversos livros, com destaque para ´Descoordenadas Cartesianas em três ensaios de quase filosofia´ (Sebo Vernelho,2001) ´Pequenas Catástrofes` (Romance que em 2002 teve primeira edição pela AS Editores na coleção Letras Potiguares e em 2005 em uma segunda edição pela Rocco) e ´É Preciso Ter sorte quando se está em guerra (Contos, 2011 pela editora Jovens Escribas). Em entrevista para a Galo, Pablo falou sobre arte em tempos de pandemia, sua experiência pessoal com o vírus, expectativas e temores. Confira:
 
 
Vivemos tempos estranhos, com uma pandemia, um vírus letal sem vacina e negacionismo. Você conseguiu produzir literatura neste período de confinamento? Aproveitando o tema, acha que o assunto isolamento-pandemia será uma recorrente na produção literária a partir de agora?
 
Rapaz, sobre essa pandemia o fato que me assustou é que calhou dela aparecer justo quando eu e Henrique Fontes estávamos trabalhando mais intensamente na peça nova do grupo Carmin (Gente de Classe). O curioso é que a peça fala sobre uma família de classe média isolada dentro de um condomínio fechado. Parece coisa de assombração, não é? Mas o teatro tem essas bruxarias mesmo (risos). Lógico que quando a gente começou a pensar o texto ainda em 2018, após o resultado das eleições, a gente não tinha no horizonte essa questão do vírus, mas tinha esse foco nesse medo difuso que criou essa “cultura do condomínio”. Um medo que de certo modo ajudou a eleger Bolsonaro, não é? Isso é algo que a pandemia intensificou. Então, respondendo a pergunta... levando em conta que dramaturgia é um gênero literário, a gente foi meio que apanhado (eu e Henrique), em pleno processo de criação literária quando a pandemia desabou. Trabalhamos o texto da peça até Maio e Junho, mais ou menos, bem no auge da primeira onda. Confesso que foi um troço muito assustador, porque de repente eu me vi como um personagem da nossa peça. Trancado com a família em um condomínio fechado enquanto o mundo como o nós o conhecíamos parecia que estava acabando para além da cerca elétrica.
 
No final, em meio a crises de ansiedade e antecipações catastróficas, eu acabei aproveitando bem o isolamento. O fato é que eu testei positivo pra Covid-19 entre Abril e Maio e fiquei quinze dias trancado num quarto em casa para não contaminar as crianças, esperando todo dia a tempestade de citosinas que iria me levar para uma sala de UTI (coisa que não ocorreu graças a Deus... ou ao acaso biológico). Sabe, eu acabei aproveitando para acelerar alguns projetos que estavam meio que empacados. Foi um lance meio de urgência porque essa experiência de ter uma doença dessas é meio como uma antecipação da morte. E no fim das contas é a morte que torna a vida assim, tão urgente.
 
Dai saiu o livro novo da série de crônicas sobre as revoluções da modernidade (“Quando a História faz a Curva”), umas traduções para o português de poesia alemã que eu já estava com vontade de fazer fazia um bom tempo, um diário sobre a experiência da pandemia que, quem sabe, no futuro eu possa “cronificar” e uma seleção das crônicas que eu havia publicado em papel no tempo do jornal impresso.
 
Em relação a essa questão da pandemia como tema pra literatura, veja só... assim, é ainda difícil saber a dimensão do impacto que essa experiência vai produzir no século 21. Estamos passando bem no meio dela, bem no meio do processo e só podemos especular sobre o quão intensa e profunda ela vai ser. Mas a aposta que eu faço é que ela vai ser equivalente, para o século 21 ao que foi a primeira guerra mundial ou o colapso do bloco soviético para o século 20. Acho que estamos vivendo um ponto de inflexão em que uma velha ordem geopolítica, social e econômica desaba e uma nova ordem aponta no horizonte. A depender do quão traumático isso vai ser a gente vai perceber por muito tempo as reverberações dessa experiência no campo da arte e da literatura.
 
 
Na sua percepção, as pessoas consumiram mais literatura, livros neste período, como se especula? Como vê a relação leitores/as e livros nestes tempos pandêmicos?
 
Cara, pelas informações que peguei com Francisco, da Távola dos Livros, uma livraria pequena mas muito boa que fica ali no Shopping Cidade Verde e que ficou fechada durante a quarentena atendendo só pelo e-comerce, o consumo de livros parece que cresceu no tempo da pandemia. Ele me disse que vendeu bem nessa época, por incrível que pareça. Acho que muitas pessoas que frequentavam bares, cinemas e shoppings como forma de diversão, parece que meio que descobriram o prazer de passar uma tarde de Domingo trancado no quarto lendo. Espero que isso dê um gás no mercado editorial potiguar que está precisando de uma sobrevida.
 
 
Fazendo uma viagem ao passado, como você vê, com o prisma de hoje, suas influências que o levaram à literatura e os primeiros passos no universo da leitura e da escrita?
 
Eu cresci em uma família da geração de 68. Então essa conexão com arte, música, teatro e literatura era algo que já veio comigo no pacote. Mas a literatura me pegou mesmo em 1988 quando eu tinha 14 anos e li “Histórias Extraordinárias” de Edgar Allan Poe, “Misto Quente” de Charles Bukowski e “Demian”, de Herman Hesse. Tudo no mesmo ano. Posso dizer que esses três textos me abriram pras possibilidades da literatura. Agora, eu só botei na cabeça mesmo que queria escrever profissionalmente quando conheci a obra de Albert Camus, de Kafka, e os textos da Beat Generation. Especialmente Kerouac, me influenciou particularmente. A ideia que ele explorava de utilizar a própria vida como elemento gerador da literatura e criar um “mito pessoal” se tornou uma obsessão pra mim por muitos anos. É óbvio que não foi ele que inventou essa história e que tem a ver com a noção de uma transubstanciação estética da vida bem ao estilo do pensamento de Nietzsche. Mas, pensando hoje, vejo que está tudo lá, nessa origem. O fantástico, o discurso biográfico, a velocidade da narrativa, a estrapolação pras reflexões mais filosóficas.... essas coisas todas. Na poesia, acho que por influência de meu pai e do pessoal das vanguardas, do poema concreto e da poesia processo, que frequentavam a minha casa na infância, acabei chegando em Paulo Leminski e Jorge Fernandes. Também quando comecei a escrever crônicas para os jornais impressos descobri a produção pra jornal de Nelson Rodrigues, que me impactou bastante. Li tudo que podia das crônicas de Nelson. Pra mim ele é um gênio da nação.
 
 
Seu romance premiado “Pequenas Catástrofes” publicado em 2002 (e em 2005 em uma segunda edição pela Rocco) atinge neste ano de 2020, a maioridade, exatos dezoito anos. Como avalia o impacto que ele teve e a trajetória do livro? 
 
O PC (“Pequenas Catástrofes”) foi o livro que me abriu portas, muitas portas. Me rendeu um prêmio Câmara Cascudo, me levou a bienal do livro do Rio de Janeiro em 2005, me abriu as páginas de jornais em várias capitais do país, me colocou na coleção “Letras Potiguares” da A.S. Editores, ao lado de escritores como Eulício Farias de Lacerda, Newton Navarro, Clotilde Tavares, Tarcísio Gurgel. O livro até me rendeu uma grana razoável, o que não é muito usual no mundo da literatura, especialmente no Brasil. Mas o fato é que eu comecei a escrever o romance em 1998, e terminei em 2002, ou seja, bem na virada do milênio, então, olhando hoje, vendo com algum distanciamento, penso que ele tem muito do barulho daqueles anos, da velocidade daqueles anos. Eu ainda estava muito influenciado por aquela ideia de que escrever, na virada para o século XXI, era cruzar a fronteira dos gêneros. Então tem uma pegada ensaística no livro, que é muito forte. Uma mistura bem intensa de prosa literária e reflexão filosófica e um certo vai e vem de cortes de informação e de narrativa, que as vezes me fazem pensar em uma montagem de cinema. Sei que devo muito a esse livro mas não estou tão convencido assim que tenha realmente dado minha contribuição definitiva no mundo da prosa com esse texto. Sinto que preciso retornar ao romance. Acho que ainda tenho contas a prestar com a literatura.
  
 
Você tem livros publicados pela Editora Jovens Escribas. Como é a sua relação com a editora e qual o impacto dela no cenário literário potiguar?
 
Cara, o trabalho de Carlos Fialho com a Jovens Escribas pra mim é um dos mais importantes no cenário editorial do estado nos últimos 20 anos. Só comparável, diga-se de passagem, ao de Abimael Silva do Sebo Vermelho. A diferença é que enquanto Abimael ressuscita os mortos, retirando do limbo editorial textos fundamentais da cultura potiguar, Fialho projeta os vivos. Ele tem uma capacidade única de abrir portas para seus escritores. Ele estreita contatos, aponta caminhos para que o pessoal possa trilhar e divulgar a literatura potiguar num circuito que era muito fechado. Acho que a Jovens Escribas também derrubou um mito. A ideia de que havia um sudário de areia ocultando a produção literária potiguar do resto do país. Fialho furou essa barreira imaginária levando autores potiguares para um circuito literário mais amplo, em São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Minas...  colocou nos eventos da editora (especialmente no Ação Leitura ou mesmo no Bazar das Independentes) Carlão de Souza, Xico Sá, Márcio Benjamin, Sérgio Fantini, Patrício Júnior, Marcelino Freire,  João Paulo Cuenca,  Carito Cavalcanti, Alice Carvalho, Daniel Galera e Regina Azevedo, todo mundo junto, numa relação profundamente horizontal. Isso ajudou a romper um pouco com essa espécie de “subcolonialismo de província” que povoa os eventos literários no estado e de quebrar a noção de que “artistas locais” serviam pra “abrir o show” antes das “atrações nacionais”. Esse modo de tratar os autores foi algo que me fez estreitar mais ainda a parceria com a editora. Porque se tem um negócio que me tira o juízo é essa história de “autor local”. Que porra é essa? É uma territorialização completamente vira lata. Coisa de província mesmo. A ideia é a de que o autor local de Nova York é internacional, o autor local do Rio de Janeiro é Nacional, o de Recife é regional e o de Natal é... “local” (risos). Já imaginou uma coisa dessas? Sempre pensei... “e o autor local de Pau dos Ferros”, é o que?”. 
 
 
Como vê atualmente o Mercado editorial brasileiro? Existe espaço para a literatura produzida “longe demais das capitais”? E na mesma pergunta, como observa o mercado editorial potiguar?
 
Acho que a gente tem de fazer uma segmentação na questão, porque existem vários mercados editorais. Existe o mercado editorial para a literatura, para os livros religiosos, os de autoajuda, os de direito, os sobre política e por aí vai. Cada um parece que tem suas especificidades. Hoje parece muito mais fácil romper a barreira ilusória da geografia do que na época em que meu pai começou a publicar seus primeiros livros de poesia no começo dos anos 80. Acho que a produção cultural potiguar dos últimos anos prova isso. Lógico que a gente não pode esquecer que vivemos em um estado pobre, em que, para uma parte muito substancial da população, ter acesso a livros ainda é um luxo em função do preço. Além do quê temos uma elite econômica que, ao contrário da pernambucana, por exemplo, não consegue entender que cultura pode gerar dinheiro. Nossa elite é meio semiletrada, só consegue racionar contabilizando monetariamente as coisas e como não consegue entender como é que você pode ganhar dinheiro com teatro, com literatura, com a produção cinematográfica da sua cidade e do seu estado, por exemplo, não dá muito valor a essas coisas. Ela acaba se tornando uma elite de importação, sempre consumindo a cultura feita lá fora ao invés de focar na que está sendo feita aqui dentro. Simplesmente ela não consegue enxergar o que acontece bem embaixo do pau da venta.
 
 
Um desafio para além de publicar livros é o de conseguir leitores e leitoras para eles. O brasileiro médio ainda lê pouco na sua opinião? E como fomentar a leitura entre crianças e adolescentes a fim de garantir o público leitor para a próxima geração em tempos de tanta tecnologia?
 
 As estatísticas que eu já vi mostram que o brasileiro lê muito pouco, muito pouco mesmo. Mas a gente não pode recair em um tipo de racismo cultural e achar que isso se dá por algum “caráter inato” do povo. Acredito que isso tenha a ver com condições muito objetivas que envolvem o acesso ao livro. Num país com uma concentração de renda brutal como o nosso, em que uma parcela enorme da população sobrevive com menos do que um auxilio emergencial do governo por mês, comprar um livro de presente pra um filho em uma livraria é um luxo.  A classe média não tem a mínima ideia do que isso significa. Por isso eu ainda aposto na educação pública de qualidade, paga por todos e para todos.
 
Trabalho há onze anos no IFRN, passei um ano no campus Santa Cruz e nove no campus Natal Zonal Norte antes de chegar no Campus Natal Central e vi o que uma biblioteca bem equipada, com bons livros, uma boa condição de estudo, bons professores e uma boa organização da gestão podem fazer para ampliar o horizonte de leitura de nossos adolescentes. Você não tem ideia do que vivenciei nesses anos como professor no IFRN. Eu que comecei a carreira dando aula para filho de dono de Shopping, de Desembargador e de Deputado , nas escolas e faculdades privadas de Natal, de repente me vi dando aula pra filhos de empregadas domésticas, motoristas de ônibus, trabalhadores rurais, ambulantes... você não tem ideia da revolução que presenciei nas comunidades atendidas pelos IFs. Colocar adolescentes do Loteamento José Sarney pra participar de uma feira de tecnologia na França ou em Moscou e ganhar prêmios pelo mundo com o resultado de suas pesquisas provoca um abalo sísmico nas estruturas ideológicas de uma sociedade que se fundamenta na segregação de classe e de raça, que você nem sonha. Eu vi com meus próprios olhos isso acontecer durante os anos em que trabalhei no campus Zona Norte. Por isso sei que sem um investimento poderoso na educação não vamos chegar aos níveis de leitura, pelo menos, nem perto dos da Argentina, (que nesse quesito dá de 7 a 1 na gente todo ano). Foi assim em outros países, basta ver o exemplo de Portugal que na época do Salazarismo tinha quase metade da população analfabeta e hoje já chega a padrões bem maiores de leitura e acesso ao livro. Como eles conseguiram isso? Como os alemães fizeram isso no século XIX? É só ir atrás e ver que tudo passa pela escola pública. 
 
 
Você é professor e fala muito sobre a vida acadêmica. Como concilia o papel de escritor com o de professor? Um papel ajuda o outro ou são antagônicos dentro de você?
 
Pra mim não tem muita diferença entre o modo como eu dou minhas aulas e o modo como eu lido com meus textos. Na época do lançamento de Jacy (peça do grupo Carmin que escrevi junto com Henrique Fontes e Iracema Macedo) ouvi uma crítica que dizia que a peça tinha ficado “meio professoral”, “parece uma aula”, disseram (risos). Então é isso: pra mim dar aula é contar histórias e pensar em voz alta e escrever é contar histórias e pensar em voz alta. Não consigo ver muita diferença. Lógico, a profissão de professor vai muito além de “dar aula”. Existe um procedimento técnico, quase alquímico, na docência. Isso envolve um trabalho constante com o conhecimento, que vai muito além do que acontece na sala de aula. Comparo ao trabalho de um jogador de futebol. Você acha mesmo que Cristiano Ronaldo entra em campo e faz três gols pela Juventus num mata mata de Champions League só por obra do divino espírito santo? Não. É preciso condicionamento, treino constante, foco. Há um antes e um depois do jogo. Conosco é a mesma coisa. O tal, ensino-aprendizagem é um processo mais amplo. Também tem o fato de que, do ponto de vista prático, é com meu trabalho de professor que eu pago o grosso das minhas contas e sustento meus quatro filhos. Então ensinar é meio que a base que me permite escrever e que me liberta da exigência de ter de ganhar dinheiro com a escrita num país como o Brasil.
 
 
As redes sociais são um problema para o escritor ou úteis e inevitáveis? Qual a sua relação com as redes e as tecnologias de comunicação ao mesmo tempo tão criticadas quanto inevitáveis?
 
Acho que elas são problema para todos. As redes sociais são a  melhor síntese da grande crise em que nos encontramos, mas ai tem aquele lugar comum, não é? Que diz que crise é oportunidade. Então, elas abrem uma oportunidade e um risco. A oportunidade é aquela de colocar o escritor em contato com seu público sem a necessidade de uma “indústria editorial” intermediária. Isso é algo que está acontecendo com todas as áreas da vida social e com as outras artes também. Antes a indústria cultural desenvolvia seus produtos (músicos, atores, escritores) em linhas de montagem,  hoje ela pesca esses produtos na rede, como se fossem peixes num açude digital. Então há uma “precarização” do ofício do escritor, semelhante ao que acontece com o pessoal que está agora trabalhando de Uber ou rodando de bicicleta pra atender I-Food. Você tem de se virar. Dar os seus pulos pra vender seu produto. O risco disso é que você tem de gastar muita energia se promovendo no mundo digital e lidando com as armadilhas do inquisitorial tribunal da internet. Hoje o “Não basta ser Playboy, tem de ser DJ” do livro de Carlos Fialho, mudou: agora é, “não basta ser escritor tem de ser Youtuber”. Isso obviamente vai afetar a qualidade do texto porque não dá pra pensar em Tolstói escrevendo Guerra e Paz enquanto tenta lacrar no twitter ou rodar mais uma live batendo papo com os leitores enquanto pede like no instagram pra foto da capa do romance novo. Essa é uma encruzilhada muito difícil de lidar porque a arte, a literatura, exige uma entrega no processo criativo, isso toma muita energia, desgasta, exige muito. E o artista é um trabalhador como outro qualquer. Quem imaginou que os escritores estivessem livres da precarização do trabalho na sociedade pós industrial em função de alguma dignidade romântica do ofício deve estar se debatendo hoje. Eu tento participar das redes sociais como forma de divulgar meu trabalho desde o tempo do Orkut, mas confesso a você que ando meio de saco cheio. Não sei se é a idade, mas fico pensando, “porra, o que é que eu estou fazendo aqui, perdendo tempo tretando no twitter... podia estar trabalhando num texto agora...” ai bate aquela culpa. Aquela sensação de desperdício. Mas talvez esse seja o futuro, não é? Talvez nunca mais tenhamos algo equivalente a um Tolstói. Talvez as novas formas de escritura que vão emergir desse mundo novo mostrem que a literatura como a conhecíamos morreu de verdade e algo novo deve aparecer, misturando, games, Netflix, RPG. O próprio Tolstói escreveu em seus diários em 1893, “A forma do romance acabou”.  Então é isso. Quem sabe a literatura como nós a conhecíamos já tenha morrido e o que a internet esteja fazendo é apenas limpando o corpo.
 
 
Quais os seus próximos projetos no chamado ´novo normal`, o pós-pandemia?
 
Rapaz... além de ficar vivo (risos)? Eu gostaria de voltar a viajar. Tinha uma viagem programada pra conhecer a China. Justo em Janeiro desse ano de 2020, já pensou? A gente ia pegar a eclosão da pandemia in loco. Mas aí veio Arthur, meu filho mais novo, e a gente teve de adiar. Mas quero voltar a viajar. Pretendo passar pela costa oriental da África, visitar a terra de nossos ancestrais no Golfo da Guiné. Ir a Cuba (afinal tem tanta gente me mandando pra lá esses últimos anos que acabei me sentindo na obrigação de visitar a ilha). Também quero voltar a Portugal pra visitar o Alentejo que ainda não conheço.
 
Também quero ampliar meu trabalho com tradução. Estou preparado uma coletânea de poesia em língua alemã, com Trakl, Brecht, Hofmannsthal, quem sabe fique apresentável e até dê pra publicar. Ando esvaziando gavetas e peguei muitos dos meus diários das viagens que fiz entre 2006 e 2018 e estou também transformando em crônicas pra publicar no Substantivo Plural.
 
Fora isso preciso retomar a escritura de um texto que tento concluir desde 1991, quando tive uma ideia pra uma história. Várias vezes tentei começar, de muitas formas, com vários estilos. Tento dar continuidade a esse texto nos últimos trinta anos e nunca consegui completar, sempre recomeço e jogo fora o que havia feito antes. Nunca fiquei satisfeito. Posso dizer que é uma fábula gnóstica sobre o fim do mundo. Depois da Covid percebi que não posso mais adiar esse projeto. Agora ou vai ou racha!