Araceli Sobreira: ´A nova rotina de lives faz com que alcancemos novos leitores`

12/01/2021

Por: CEFAS CARVALHO
 
Escritora, poeta, professora de Literatura e Religião, Araceli Sobreira vem se destacando no cenário literário potiguar, tendo livros lançados e fazendo parte de projetos de formação de novos leitores e de professores-leitores na área da leitura literária. Em entrevista ao Portal PN, ela falou sobre produzir nestes tempos e projetos para esta ano. Confira:
 
 
Você conseguiu produzir literatura durante o confinamento? Se sim, como foi esse processo?
 
O ano de 2020 trouxe o confinamento, algo inacreditável para uma pessoa inquieta como eu – com rotina alucinante de mulher, mãe, dona de casa, escritora e professora. De repente, ficar em casa e, ao mesmo tempo, produzir literatura foi um caminho muito “funcional” para passar o tempo, inicialmente. O primeiro impacto da pandemia veio com o medo de “como vamos ficar?”, “como vamos viver?”. Eu vinha me preparando, juntamente com a CJA Edições, para lançar – em abril de 2020 – o livro Bicho Solto no Mundo, meu primeiro livro infantil. Tínhamos um cronograma pronto para o lançamento e para o trabalho de visitas a escolas e participação em feiras literárias e eventos a partir de março. Isso tudo teve de ser alterado. Muito embora pudesse ser algo “ruim”, o confinamento teve um impacto positivo na divulgação de “Bicho Solto no Mundo, nós estávamos presos e os bichos soltos, não é? Primeiramente, participamos de uma live, pelo Instagram, com Sandenberg Oliveira e, em seguida, de outra organizada por uma ex-orientanda minha, Emanuela Medeiros, que hoje atua como docente na Faculdade de Educação da UERN, em Mossoró, e que coordena um projeto de Extensão na área da formação de leitores de literatura. Essa live atingiu um imenso público e tive, então, a oportunidade de apresentar meu trabalho como escritora de contos e de histórias para crianças e foi quando pude contar também um pouco da história dos poemas de Bicho Solto no Mundo e de como me inspirei para produzir esse livro que está pronto desde o ano de 2012. Dessas duas experiências, comecei a participar de eventos online para um público específico, direcionando minha voz para a importância da leitura literária em um momento tão difícil, quando as pessoas precisam de um fortalecimento interior muito além do normal em situações de pandemia, e isso a literatura consegue, pois o ato de ler direciona o olhar do leitor para dentro de si, num ato de organização emocional, de acalanto, de autoconhecimento. Isso foi muito significativo para quem buscou a leitura literária nesse período de confinamento.
 
 
Como avalia a situação dos escritores e poetas durante a pandemia?
 
Tudo o que tem acontecido socialmente durante a pandemia tem atingido diretamente a classe artística e, como consequência, a de escritores. Quem compra livros diante de um momento tão grave em que há vidas se perdendo e pessoas em luto? Essa pergunta me manteve “em estado de alerta” durante todo o período em que divulguei o livro “Bicho Solto no Mundo”. Entendo que há e houve momentos em que as pessoas procuraram se recolher, procuraram ler. O próprio objeto “livro” teve um momento forte durante as lives: veja o quanto as pessoas se posicionaram diante de estantes, mesmo aquelas que nem leem tanto assim? Rsss... Deu status ter uma estante organizada por trás de sua imagem. Indiquei muitas obras para a leitura de meus alunos e alunas. Vi posts de pessoas resenhando livros, percebi um destaque para a procura de autores potiguares. Foram pequenos passos para aumentar a divulgação e o trabalho de escritores que precisam muito vender suas obras, ainda mais porque se você olhar bem, esses escritores ainda não vivem exclusivamente de sua arte. Muitos são como eu: são profissionais de outra área que amam a literatura, mas não há como se manter apenas com o que recebem do que vendem como escritores. O confinamento deu uma certa luz sobre os autores, através das lives e das redes sociais, mas ainda é insuficiente para ser incentivo financeiro. As propostas de incentivo, como a Lei Aldyr Blanc são um pequeno passo, um passo inicial. Isso deveria acontecer independentemente da pandemia: mais investimentos que se direcionassem de modo menos burocrático e mais rápido para quem faz Arte. É muito caro produzir livros e mais difícil ainda manter as vendas das obras literárias sem as escolas funcionando, sem as livrarias (tão poucas em nosso Estado!). Fazer com que o livro de autores potiguares chegue às mãos das crianças deveria ser uma proposta de cada munícipio e essa tarefa deveria ser uma constante.
 
 
Quais seus projetos literários para 2021?
 
 
O finalzinho de 2020 veio com caminhos melhores para mim. Muito em breve lançarei um novo trabalho que recebeu suporte pela Lei Aldyr Blanc, através da Fundação José Augusto e que será publicado pela CJA Edições. Assim, terei um livro de poesias lançado bem no comecinho de 2021 e, com fé, na volta às aulas presenciais (com a vacina), espero retornar ao ambiente escolar – para continuar meu trabalho de compartilhamento de experiências com crianças e jovens. Além disso, estamos precisando de contato humano, de abraços, de conversa, e isso é promovido por eventos literários e acadêmicos. Gosto muito dessa parte, desse envolvimento com o público leitor. O mundo não será mais o mesmo. A nova rotina de lives e encontros – via rede sociais – também abriu caminhos para que nossas obras alcancem novos leitores, novos públicos. Então, espero bastante que 2021 venha com mais experiências desse tipo. Sou uma pessoa muito otimista e não vejo a hora de estar em coletivo.
 
 
Você escreve sobre mulheres, a condição feminina. Como avalia a situação da mulher escritora e das mulheres em geral durante este período?
 
A situação da mulher a cada dia passa por retrocessos. Quando a gente pensa que o mundo está andando para frente, que seria o momento de aproveitarmos os avanços e conquistas em várias áreas, o que mais vemos é o número exorbitante de violência contra a mulher, principalmente pela condição que narro em meus contos: mulheres cuja história se passa no interior das relações familiares, em cidades pequenas, sítios, lugares onde – por anos – as mulheres vivenciaram vários papeis: mãe, arrimo de família, curandeiras, rezadeiras, tecelãs. Mulheres que eram apenas “objeto”, algo comprado, adquirido. Por isso, muitas leitoras se identificam com a “louca” que aparece em minhas narrativas, com a mulher solteirona, com a mulher traída. Isso é o que muitas vivem. Toda a violência e, o que é pior, o silenciamento sobre essa violência – que é mantido pela família e vizinhos – muitas vezes – só piora quando o trágico acontece. 
 
Em minhas histórias – algumas mulheres conseguiram quebrar um pouco esse paradigma. Digo um “pouco”, porque há muito o que se fazer. Uma primeira tarefa é criar filhos e filhas que ajam diferentemente e isso não é fácil. O “viver mulher” exige uma constante luta contra várias situações. E ser uma escritora que trata sobre isso é uma responsabilidade enorme. Guardo histórias de muitas mulheres, de diferentes gerações que compartilham comigo muito sofrimento. Algumas, em segredo; outras, contadas em público. De algum modo essas palavras entram em mim e ganham outra voz. Meu livro novo de poesias será um pouco sobre essa realidade também, de coisas que estamos gritando há anos: não à violência, o direito ao corpo, ao prazer, ao ter ou não filhos, à Terra, como espaço onde moramos e de onde tiramos nosso sustento, o direito de viver e de termos nossa palavra. 
 
 
Acredita que a pandemia e isolamento serão temas comuns na literatura a partir de agora?
 
O artista fala de seu mundo, de seu tempo, de sua percepção sobre o mundo. Tudo isso que está acontecendo tem deixado marcas terríveis em nós. É difícil imaginar que essa pandemia e esse isolamento não tenham tido qualquer significado para as pessoas, muito menos para quem faz literatura. Todos fomos atingidos de alguma forma e isso precisa ser expressado, “curado”, transfigurado em muitas linguagens. As relações sociais e emocionais precisam urgentemente de tradutores, de “narradores”, de contadores e, como disse acima, pessoalmente, observo muito o que está sendo dito ao meu redor; acredito que o mesmo acontece com os outros escritores e escritoras. Cada um a seu estilo, cada um a seu modo, está juntando essas “inspirações” para deixar um grande relato desse ano que acabou sem adjetivos, porque, penso eu, todos os adjetivos que existem para dizer o quanto 2020 mudou o mundo já foram usados. Oxalá, 2021 abra uma nova época.